Todos os momentos parecem extremos quando observo pessoas idosas vivendo como se fossem os últimos, antes daqueles que eles não sabem se virão.
Tenho uma tia, muito querida, que acompanho, sempre admirado com a fortaleza de sua afirmação existencial. Ela é fascinante do alto de seus 70 e alguns anos que ela não fala quantos. Enviuvou há cerca de 10 anos e então se soltou. Freqüenta bailes da terceira idade, vai a festas, curte seus amigos, namora e, o que me parecia incrível, me surpreendeu outro dia ao vê-la despachar um sujeito de sua casa pela manhã. Então fui reparar: ela possui um corpo desejável e tem prazer; a tia Nana faz sexo, olha que bonito!
Sou seu único sobrinho, herdeiro, como ela diz. Não sabia do que, pois ela gasta tudo o que ganha de aposentadoria da pensão do marido. E gasta em roupas bonitas, viagens, passeios, festinhas com seus muitos amigos, yoga e alongamentos. É absolutamente lindo vê-la alongando-se. Assim afoita, como uma adolescente, seus gestos são vigorosos, um tanto quanto desajeitados, mas decididos.
Há cerca de um ano e meio, cheguei em sua casa, da qual tenho a chave (ela me deu depois que operou do coração, prevenção, afirmou), e estranhei o silêncio. Sempre tem música e ela pra lá e pra cá, cantando, às voltas com seu fogão, computador e múltiplas surpreendentes novidades. Vive me dizendo que sou quieto demais e que devia me expandir, falar, cantar, fazer alguma coisa. Respondo que escrevo, então ela se cala, como se tivesse esquecido. Reverencia a arte.
Chamei e ouvi de volta um grito de socorro. Corri para o quintal, na área de serviço. Minha tia estava deitada em cima da máquina de lavar roupas, camisola na cintura, calcinhas aparecendo, com uma das pernas dentro do tanque cheio de água e a outra com o pé no chão. E sorriu quando cheguei, pedindo que a ajudasse a sair dali.
Como ela é leve, com a maior delicadeza, apressei-me a pegá-la no colo. Houve certa dificuldade, pois sua perna esquerda estava travada dentro do tanque de lavar roupas. Levei-a para o quarto meio que cansado pelo esforço, deitei-a na cama, e ela continuava a sorrir, tentando esconder a dor e fugir ao vexame.
Depois de massagear sua perna com pomada anti-reumática e acabar com sua dor, quis saber como ela fora parar ali, curioso. Só porque insisti muito ela contou. Não admitia fraqueza ou velhice. Chegara do baile, trocara de roupas, mas sentia muitas dores nos pés. Alguns ?cavalheiros? haviam pisado em seus pés e suas varizes ?queimavam? doloridas. Encheu o tanque, mergulhou um dos pés na água e sentiu o maior alívio. Estava tão bom que até esqueceu.
Quando foi tirar, percebeu que havia travado e não vinha. Esforçou-se, cansou e nada. Então não restou alternativa senão deitar na máquina ao lado, descansar e aguardar a chegada da empregada de manhã.
Acabou dormindo ali. Acordara comigo chamando-a. Ao finalizar a narrativa, sorria e fazia a maior cara de menina levada pega em flagrante de traquinagem. Meus olhos escorreram leves lágrimas. Amei aquela mulher naquele instante, e nem sei explicar porque. Era minha mãe, minha filha, a distinção de toda confusão que me cercava. Temi perdê-la, qual fosse o bem mais precioso e, naquele momento, seria insuportável, embora fosse inevitável num tempo bem próximo.
Foi então que, em resposta, ela começou a fazer as tais aulas de alongamento. E, como não poderia deixar de ser, com um empenho absolutamente total.
Juliana, a garota que dá aulas para ela, a Nega, como ela diz, é jovem e talentosa bailarina/atriz, vive atônita com o dinamismo e determinação da tia. É um exemplo de vida e um incentivo em sua carreira, confessou-me. Quando desanima de sua disciplina necessariamente espartana, recorda-se de Nana (não gosta de ?senhora? e muito menos ?dona?, embora não saiba ?você? para ela, é tia), e começa tudo de novo, cheia de determinação.
Outro dia ela veio me falar de seu marca-passo. Sim, a tia tem um aparelho desses no coração, por mais incrível pareça. Alias, ?incrível? é uma palavra que se conjuga à pessoa de minha tia (encho a boca para falar ?minha tia?, orgulhoso).
Tem que passar por exame médico trimestralmente. Somente nesse dia demonstra fragilidade e me quer junto. Acompanho com o maior prazer. São momentos que considero ganhos em minha existência. Ela é uma riqueza, estar com ela é plenitude. A tia afirma que a sensação é mútua, porque é troca, é comunicação total e então, amor. Filosofa de cima de sua sabedoria: amor é quando todos ganham e ninguém perde. Eu não sei bem onde que ela ganha, mas eu a vejo feliz comigo, o que me é extremamente gratificante.
Disse-me, após a consulta, que o médico lhe afirmara que ela estava bem. Que poderia moderar um pouco suas atividades, ter mais horas de sono, precisava ganhar peso. Olhei-a com inveja. Eu, louco para perder peso, sempre com a autocensura na ponta da consciência a cada garfada, aos meus 40 e poucos (não tão poucos assim) anos. Ela com quase 80 anos e tendo que ganhar peso. Que ironia! Mas o inusitado é o que ela veio me dizer do conselho de seu médico.
Contou-me que seu marca-passo é importado, da melhor qualidade. Gastara todas suas economias de décadas de funcionalismo público para pagá-lo. O médico a aconselhara que, antes de morrer, devia deixar uma autorização por escrito para retirá-lo. Seria um desperdício inominável que a enterrassem com ele. Então resolvera me tornar herdeiro de seu marca-passo.
Quis protestar dizendo que era jovem ainda para usar uma coisa daquelas dentro de mim. Ela não gostou. Provavelmente achou que eu a estivesse chamando de velha, indiretamente. Respondeu, sem perder a elegância, que eu era muito estressado e não sabia viver bem como ela, provavelmente iria precisar muito antes do que ela. Fui obrigado a calar, engolir em seco e pedir que desculpasse minha jovem estupidez.
A cada dia ela me convence de que somos imensos. Um laço de relações vivas que nos une aos que amamos num tecido indissolúvel. E, é claro, quando ela se for, vou doar o aparelho à primeira pessoa que tiver necessidade. Será uma homenagem e a continuação do meu protesto. Silencioso, dessa vez. Não vou mesmo precisar disso. Será?LEIA TAMBÉM
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