por Redação

Veja tudo que rolou no segundo dia da Casa Tpm 2018

Começou a Casa Tpm 2018!

Chegamos à sétima edição para chacoalhar certezas, debater fórmulas prontas e refletir: o que é o feminino, afinal?

E para abrir os trabalhos neste segundo dia, Milly Lacombe, Sophie Charlotte, Djamila Ribeiro e Maristela Salles debatem O que será de nós em 2038? Na programação, conversas sobre o futuro dos relacionamentos, as mulheres no futebol e muito mais. Acompanhe tudo aqui e confira ainda o que rolou ontem

O que será de nós em 2038?

Pensar o futuro das mulheres é uma das inspirações do segundo dia da Casa Tpm. Antes de dar início às conversas, Milly Lacombe homenageou Bruna Silva, a empregada doméstica que teve o filho assassinado na favela da Maré, no Rio de Janeiro, no dia 20 de junho. Com muita emoção, a plenária recebeu as primeiras convidadas desta tarde: a atriz Sophie Charlotte, a filósofa Djamila Ribeiro e Maristella Salles, superintendente estadual do Banco do Brasil, convidadas a pensar como seria o mundo em 2038.

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Já não existiam cadeiras vazias no salão principal quando Djamila abriu o papo deixando claro que feminismo é mudança social. "A gente está discutindo um projeto de sociedade. É um movimento que visa uma transformação radical na sociedade", disse. Sophie concordou e se mostrou otimista com o ritmo das mudanças. "Sinto um efeito dominó de tabus caindo e mentalidades se transformando", falou.

"Depois que me tornei mãe, saí do meu umbigo e fui abrindo meu olhar. Descobri o quanto a gente invisibiliza questões do dia a dia. Crianças em situação de abandono são nosso problema, sim. A responsabilidade vem pra perto, não fica só em Brasília", disse a atriz, em um convite a reflexão. Maristela também dividiu as mudanças que viveu depois da maternidade e cravou: "Quando você dá à luz, tira o eixo de você. O mundo com mais lideranças femininas tende a ser um mundo mais justo".

Djamila trouxe para a discussão a importantância de pensarmos também sobre a desconstrução da noção de masculino hegemônico e violento que ronda os homens. "É fundamental construir outros masculinos", disse. Sophie aprofundou a reflexão sobre a participação deles no processo de equidade de gênero. "Qualquer transformação não é confortável, principalmente para quem está abrindo mão de privilégios." E a filósofa seguiu pensando em algumas ideias de como transformar na prática nossa realidade: "O primeiro passo é conhecer outras realidades. Isso passa por pessoas brancas lerem o que pessoas negras estão escrevendo. É importante que brancas se posicionem como anti-racistas".

Milly partiu das colocações de Djamila para também falar sobre a importância de refletir sobre os próprios privilégios e convidar Sophie a pensar o assunto. "A escuta foi meu ponto de partida. Eu tenho que ouvir pra entender o quão privilegiada eu sou", disse a atriz.

"Estou muito cansada de ser sozinha, sempre. A solidão da mulher negra é a solidão de ser sempre a única, da classe de filosofia, do mestrado. As que conseguem furar certos bloqueios vão sofrer com a solidão institucional", declarou Djamila, sobre a institucionalidade do racismo e do machismo na sociedade brasileira. "Tentaram me destruir mas estou aqui, linda, maravilhosa, tomando uns bons drink", descontraiu.

O que dá força para que sigamos, mesmo frente a tanto sofrimento e desigualdade?, perguntou Milly. "A legalização do aborto da Argentina me deu um gás e a gente tem que acreditar que a mudança é real", respondeu Sophie. Para a filósofa, é do legado da luta que vem nossa força: "A perspectiva histórica é fundamental. Um país que não conhece seu passado não pode pensar no futuro. Quando me sinto cansada, converso muito com feministas mais velhas e percebo que não podemos nunca desistir".

A era do feminino: Daniela Klaiman

O que será de nós em 2038? Quem nos ajudou na projeção foi a futurista Daniela Klaiman, que se dedica a estudar tendências, para onde estamos indo e como nos relacionamos com a tecnologia. "O futuro não existe, a gente faz o futuro. E, para ele ser bom, a gente precisa se mexer." Sua reflexão começa pontuando que estamos entrando na era do feminino.

"Desde a época das cavernas, ficou institucionalizado que o gênero masculino é superior simplesmente porque os homens conseguiam matar um bicho mais facilmente do que uma mulher", explicou. A futurista falou sobre como esse caminho trouxe infinitas e profundas dores sociais, as quais afligem a todos, em enormes escalas. "Nunca tivemos números tão altos de depressão, suicídio e ansiedade como agora. Para curar essas dores todas, estamos entrando no emocional, na era do feminino. Estamos saindo de um mundo cheio de energia masculina e entrando em um mundo regido pela força feminina, integrando corpo, mente e alma. Não é que as mulheres vão estar acima, mas são valores que vão reorganizar uma sociedade doente."

Uma ideia em cinco minutos: Camila Ribeiro

O que acontece em uma carreira em que, aos 32 anos, você já é considerada velha? Esse tema sempre meteu medo na bailarina Camila Ribeiro, que subiu no palco para uma reflexão sobre trabalho e envelhecimento. "Como qualquer pessoa que trabalha com o corpo, tenho lesões físicas e tive que enfrentar esse medo. Tive que pensar sobre o fim da carreira. Comecei a dar aulas de dança e esse projeto me ajudou a ressignificar meu amor pela dança e a enfrentar os fantasmas." Antes de sair da plenária, a bailarina deixou que seu corpo falasse por si e apresentou uma coreografia contemporânea e foi ovacionada pela plateia.

O futuro dos relacionamentos

A atriz Tainá Müller e o diretor Henrique Sauer toparam o desafio de abrir um pouco de sua intimidade no palco da Casa Tpm, em uma conversa com a terapeuta de casais Tai Castilho, cujo tema era o futuro dos relacionamentos. "Quando a gente conversou a primeira vez fiquei muito intrigado, porque ela conseguiu atingir uma profundidade muito grande muito rápido", lembrou Henrique. Tainá falou sobre o dia em que se apaixonou de verdade: "Foi no segundo date. A gente parou pra conversar e fomos direto pra um papo sobre a infância. Eu sou meio terapeuta, quis saber a história da família e aí ele falou que a formação dele era em biotecnologia, falou de DNA e aí me apaixonei. Isso porque, quando eu era pequena, eu dizia que queria ser uma cientista maluca!", contou. Tai questionou, então, sobre o impacto do primeiro filho da vida do casal. "Virou um triângulo amoroso", respondeu a atriz.

"Cama é pra dormir ou pra transar, mas é usada como trono da DR", falou Tai, puxando uma reflexão sobre convivência com as diferenças. Em seguida, questionou o casal sobre a possibilidade de acordos não-monogâmicos. "A gente tem um contrato monogâmico. O combinado não sai caro. Mas não sei como vai ser no futuro, se vamos ou não rever isso", respondeu a atriz. "Cada vez mais as mulheres vão fantasiar uma relação mais aberta. A mulher está passando por um momento de muita incerteza do lugar dela. Dúvida com a maternidade, muitos mitos estão caindo por terra. O mito da mãe perfeita", opinou a terapeuta. A atriz aproveitou o gancho e confessou: "Tenho medo que role a sacralização do corpo da mãe".

Tai arrematou: "Os casais que conseguem conversar sobre as angústias de ambos passam pelos momentos mais difíceis da relação. É difícil ficar casado, mas a experiência de uma relação é importante, seja qual for". Henrique concordou e acrescentou que "a relação é um exercício de convívio com o diferente. Isso mimetiza o próprio convívio social. Em tempos de intolerância, precisamos pensar nisso". Para Tainá, as conversas são fundamentais. "O silêncio é o que mata o amor. Quando você pensa que não vale a pena falar com essa pessoa, acabou."

O que será de nós, mulheres negras, semana que vem?

O feminismo negro é urgente, disse Milly, ao convidar a arquiteta e escritora Joice Berth para mediar um papo entre a historiadora Giovana Xavier e a estudante Domenica Dias, filha de Eliane Dias e Mano Brown.

Giovana abriu a conversa falando da importância de intelectuais negras serem cada vais mais ouvidas sobre suas demandas e celebrações, que são fruto de processos de luta que existem há muitos anos. "Os avanços ainda estão reverberando", disse.

Representante da nova geração de ativistas, Domenica falou sobre como a simples sobrevivência das mulheres negras em um estado genocida já é uma vitória do movimento. "O retrocesso não pode fazer parte do nosso vocabulário", concluiu. "A gente não tem direito à fragilidade", acrescentou Joice.

"Uma de nossas principais pautas é lutar pelo reconhecimento das humanidades que nos são cotidianamente negadas e isso passa por assumir o direito a ser frágil. A fragilidade é um dos principais atributos da condição humana. É preciso criar subsídios para acolher nossas fragilidades", completou Giovana.

Joice falou sobre como os estereótipos influenciam na construção da identidade de cada uma. "Eu queria ser uma mulher gostosa, mas tinha medo de ser uma mulher gostosa. A construção de identidade de uma mulher branca é totalmente diferente da mulher negra. A mulher negra é vista com uma sexualidade lasciva, animalesca, isso desumaniza", falou.

Os estereótipos em torno das mulheres negras existem também dentro das instituições de ensino superior. "Uma das principais críticas no meio acadêmico é alguém falar 'você não é acadêmica, é militante'. Isso é perverso", disse Giovana, que completou: "Quando tomei posse na universidade, um dos comentários que ouvi foi: 'Nossa, que bom. Agora a faculdade de educação tem a sua globeleza'. Foi um dos dias mais importantes da minha vida. Depois de gerações de mulheres negras, cheguei num lugar inimaginável. É duro isso. Eu não quero sair de casa preparada o tempo todo pro confronto", reflete.

Domenica concordou e acrescentou: "Por que me encontrar com meninas negras significa ter que sempre falar de militância? Por que eu não posso só querer ser bonita um tempo?"

Adriana Couto entrevista Ionara Rabelo

Ionara Rabelo, psicóloga do Médico Sem Fronteiras, que já esteve na Síria, na Palestina, na Libéria, no Equador e em diversas áreas de conflito, participou de uma entrevista aberta com a jornalista Adriana Couto no palco da Casa Tpm. "Na minha primeira viagem no projeto, fui parar por 7 meses na Palestina. Era um trabalho de saúde mental para pessoas que sofreram violência, tortura. Conversei com senhoras de 76 anos que guardavam a chave de casas que nem existem mais, sonhando em voltar um dia", contou.

"Quando a gente chega numa casa palestina, somos acolhidas pelas mulheres da casa e,  para elas, o Brasil não é um país colonizador, então elas já abriam um sorriso", contou. Adriana perguntou, então, o que Ionara traz de volta de viagens como essas e a psicóloga se emocionou: "A gente sente que abandonou os pacientes. Os retornos são doídos, parece que não faço parte de lugar nenhum. Quando eu chego, não falo sobre o que aconteceu. Eu passo um tempo filtrando e vou compartilhando aos poucos. É muito solitário", explica.

Ela citou a missão na Libéria, quando atuou no combate à epidemia do vírus ebola, como uma das mais marcantes de sua trajetória. "Foram muitas mortes e é uma missão sem contato. Quando você chega no país, não encosta mais em ninguém, não passa uma caneta pro outro. A gente sabia que uma menina de 12 anos ia morrer e tinha um trabalho muito humano para que ela morresse com algum conforto, sentisse que não estava sozinha", contou.

Para o  futuro, Ionara deseja um mundo onde organizações como o Médico Sem Fronteiros não sejam mais necessárias. Ela deseja também ser uma velhinha desaforada de cabelos brancos que sabe falar árabe e viaja o mundo todo.

Programando o futuro

A conversa agora é sobre tecnologia. Daniela Borogocin, diretora de estratégia de marca do Twitter Brasil, Bu D'Angelo, fundadora do projeto InfoPreta, e Letícia Pozza, cientista de dados, conversaram sob a mediação da jornalista Maria Prata a respeito da participação feminina no universo tecnológico.

Bu atribui a falta de mulheres no mercado a problemas que começam já na formação. "Você pode ser a melhor da sala, sempre vai ter um cara pra falar 'você não sabe isso?'", afirma. Antes disso, meninas são afastadas de campos de interesse ligados ao mercado de tecnologia. "Os meninos são incentivados a gostarem de robótica, lego, e as meninas não.  É uma geração de mulheres que não foi incentivada e passa isso para as próximas. Vai demorar no mínimo duas décadas pra gente ver as mulheres no mercado", opinou Letícia, que contou como foi difícil apostar na carreira sem ter referências femininas em que pudesse buscar inspiração.

Quem entra no mercado, ainda precisa lidar com diversas questões sexistas. "Tem muitos programas para incentivar a entrada de mulheres, mas e depois? Tem muito abuso e a primeira coisa que cai é o psicológico, mesmo que você seja o Steve Jobs do rolê", disse Bu. A invisibilização das profissionais é outro ponto problemático. "Existem mulheres em cargos altos, mas só se lembram dos homens.", afirmou Daniela.

Maria perguntou se existe um jeito feminino de programar e Bu respondeu na lata: "Quando você pega um código de um cara, você não entende nada.  Quando pega o de uma mulher, tá tudo escrito, bonitinho. Ela pensa no próximo. É maravilhoso. Quando vou programar com mulher agradeço ao céu. Vem diagramado, lindo, só falta um coração."

Antes do fim da conversa, Letícia e Bu fizeram um alerta sobre os perigos envolvendo nossa íntima relação com a internet. "É um pouco assustador o descuido que temos com nossos próprios dados. Nada é de graça na internet. Se nós não entendermos o quanto de dados as empresas têm da gente, pode se tornar uma armadilha contra nós mesmos", avisou Letícia.

Gol apresenta mulheres no futebol

Corintiana roxa, Milly Lacombe convidou a galera para um papo sobre futebol apresentado pela Gol Linhas Aéreas. Renata Medeiros, repórter e produtora esportiva da Rádio Gaúcha, Alexandra Xavier, apresentadora do Desimpedidos e Paula Pires, lateral-direita do Corinthians puxaram a conversa.

"Não dá pra dizer que o futebol feminino tá igual dez anos atrás, mas ainda tem que melhorar muito", falou Paula. Apesar das dificuldades enfrentadas pelas jogadoras, alguns avanços importantes já rolaram. "Esse ano, pela primeira vez, um canal de TV colocou três mulheres para narrar. Eu, por sororidade, só assisto jogo com elas", contou Milly. "Isso é um passo gigantesco", comemorou Renata, que falou da importância de mulheres de destaque dentro do universo futebolístico. "Desconstruir os costumes é o primeiro passo. A gente tem que ir pro estádio com uma roupa mais larguinha pro cara na arquibancada não mexer com você. A gente tem que deixar de se acostumar com o que sempre aconteceu", completou.

Renata também falou sobre o assédio sofrido por ela no ambiente de trabalho. "É uma coisa muito natural no jornalismo esportivo. O chefe pergunta 'como vc conseguiu isso dessa fonte?'", contou. Alexandra ressaltou que o contato com os jogadores também é complicado. "Temos que cuidar para que eles não achem que você está querendo algo mais, enquanto, na verdade, estamos só trabalhando. Sempre tem aquele que começa a fazer graça pra aparecer", falou.

Como não poderia deixar de ser, a Copa do Mundo virou o centro da conversa. "No time masculino parece que os interesses estão divididos entre futebol, cabelo, brinco, dinheiro. Sempre tem algo que não é o futebol sendo o foco. E o que o povo quer é alguém que só quer jogar futebol", opinou Renata. E Alexandra chutou para o gol: "No feminino, você pode ter certeza que a menina está ali porque gosta do que está fazendo".

Você não é o seu trabalho

A relação da mulher com a sua carreira inspirou a última mesa da Casa Tpm 2018, que reuniu Juliana Wallauer, podcaster do Mamilos, Daniela Mignani, diretora do GNT, Lua Fonseca, educadora parental, e Denice Santiago, comandante da Ronda Maria da Penha. "Quando alguém pergunta o que você quer ser quando crescer, você responde a profissão. Já começa na infância a confusão entre profissão e identidade", disse Juliana.

"É muito perverso o que fizeram com o ser humano, de transformar a essência dele no que ele pode produzir", disse Denice, depois de contar que seu pai avalia a própria capacidade enquanto homem a partir das conquistas profissionais das filhas. "Essa loucura que a gente vive é nociva para as nossas relações", concordou Daniela. A recifense Lua pontuou que o hábito de perguntar sempre a profissão das pessoas é bem mais forte em São Paulo do que é em Recife.

"Eu trabalho numa instituição racista, machista, misógina. Eu precisava transformar meu trabalho para o algo em que eu acredito. Que vai proteger, educar, zelar, que me de prazer de acordar e ir trabalhar. A gente tem mania de querer definir. Ah, você é polícia e polícia não presta. Quando a gente define, você não dá mais alternativa. A gente coloca um fim em algo que não tem fim, que precisa ser fluido", refletiu Denice.

Juliana chamou atenção para nossa tendência de desenvolvermos relações abusivas com nossos trabalhos, em que não desligamos nem por um segundo. "A gente precisa questionar o que nos abastece. Você deixa de olhar tantas outras coisas que são importantes na vida. O trabalho é só mais é uma dimensão", disse Lua.

Para o coração bater sem medo

No encerramento da Casa Tpm 2018, as vozes poderosas de Maria Gadú, Xênia França, Luedji Luna, Letrux e Liniker se uniram em um repertório cheio de clássicos, de Belchior a Milton Nascimento, para uma celebração do amor como força transformadora.

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Imagem principal: Simon Plestenjak

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