por Yury Puello Orozco

A ONG Católicas pelo Direito de Decidir escreve sobre aborto e culpa cristã

Fundada em 1993, a Organização Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) se opõe às doutrinas da Igreja Católica ao levantar o debate sobre assuntos espinhosos: aborto e direitos reprodutivos. A pedido da Tpm, Yury Puello Orozco, teóloga, doutora em ciências da religião pela PUC-SP, católica praticante e integrante da CDD escreve sobre o direito a interrupção respaldado pela fé e mostra que nem todos os religiosos são contra a descriminalização do aborto.

 

"No debate sobre a necessidade de rever a legislação brasileira que trata do aborto, diversos setores têm se manifestado e enriquecido a discussão. Neste processo, a experiência religiosa não pode ser negada, uma vez que faz parte de nossa vida e cultura.

Divergindo de uma visão religiosa que pune e restringe a sexualidade humana, especialmente a das mulheres, muitas católicas reafirmam a identidade religiosa, sentindo-se no dever de divulgar argumentos do próprio acervo doutrinal e teológico católico, para que mulheres que se regem por eles encontrem conforto e respaldo em sua fé quando decidem que o melhor caminho para elas é a interrupção da gravidez.

Um dos argumentos que se pode resgatar do próprio magistério católico é o recurso à consciência. De acordo com o catecismo da Igreja Católica, "o ser humano deve obedecer sempre ao julgamento de sua consciência". Assim sendo, tal juízo será a referência definitiva para estabelecer a moralidade de seu comportamento perante Deus (Rom. 2, 15-16; Vaticano II - Gaudium et spets).

Teologicamente, podemos dizer que Deus não vai julgar os seres humanos pelo seguimento de leis ou normas, mas sim pelo seguimento de sua consciência. Como diria Santo Tomás de Aquino: é melhor ser excomungado que agir de maneira contrária à sua consciência. Outro princípio importante é o do probabilismo, pelo qual não se pode impor uma regra moral quando existe dúvida: "ubi dubium, ibi libertas". Ou seja, onde há dúvida, há liberdade.

Estas são algumas das razões pelas quais, baseadas na fé religiosa, as feministas católicas colocam como prioridade a defesa da vida das mulheres e não a defesa de uma posição moral que se fundamenta em princípios absolutos e abstratos.

É nessa perspectiva que entidades não-governamentais se engajam na luta pela legalização do aborto no Brasil, com a convicção de que assim respeitam os princípios que norteiam a fé cristã: a justiça social e o zelo pela vida." 

Vai lá: www.catolicasonline.org.br

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