por Douglas Vieira
Tpm #172

Thiago Soares, o garoto de Vila Isabel que ganhou o mundo para ser primeiro bailarino da tradicional companhia inglesa The Royal Ballet

Há 11 anos Thiago Soares é primeiro bailarino da companhia The Royal Ballet, de Londres – grupo do qual faz parte desde 2002 –, e vive no palco cercado de todo o imaginário de glamour que seu posto de destaque na dança clássica garante. Mas muito antes, seu lar era a Vila Isabel, bairro na zona norte do Rio de Janeiro cantado por Noel Rosa e Martinho da Vila. Ali, viveu cercado da simplicidade de uma infância que praticamente só resiste nos subúrbios. “Cresci jogando bola na rua, jogando bola de gude, cuspindo no chão, tentando pegar as menininhas. Enfim, era uma família de classe média com dificuldades”, conta.

Seus primeiros passos foram distantes do universo clássico, dançando ao som de hip-hop. A transição para o balé foi na ponta dos pés, sem se importar com os julgamentos. “Na escola, quando eu comecei, os poucos amigos que sabiam, me zoavam”, lembra. “Não fiquei com nenhuma sequela. Entendo por que brincavam comigo.” Thiago não é de se preocupar com situações como essa, temperamento que atribui às contradições de seu ambiente familiar. “Meu pai se tornou um homem religioso, mais quadrado, mais durão, com pouca visão da dimensão artística. Por outro lado, minha mãe era da boemia, bebia muito, fumava muito, tocava violão, saía pro samba, voltava com as amigas tarde.” Para ele, essas duas referências o deixavam “no meio, em um lugar que foi interessante” e o ajudaram a lidar com a vida enquanto se descobria bailarino.

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Não que ele se aliene de preconceitos, longe disso: “Tenho consciência de que alguém pode ser mais vulnerável, ficar com marcas e tomar aquilo como uma agressão. Eu não tomei”, conta, ressaltando que, para ele, discutir preconceitos é algo que não o interessa, menos ainda sobre a sexualidade, tão comum em piadas com meninos que resolvem dançar balé. “Percebo que ainda é um tema aqui. Eu acho meio antigo. Nenhuma carreira, em nenhuma itinerância artística, se define pela sua orientação sexual”, diz ele, que foi casado com a primeira bailarina do Royal Ballet, a argentina Marianela Nuñez, e atualmente está solteiro. 

Para Thiago, é mais importante observar a perspectiva sobre o impacto positivo de ser uma pessoa que venceu no balé tendo vindo de Vila Isabel. “Eu pude também ser uma referência para meus colegas, que não tinham acesso à dança, não tinham acesso a nada disso. Hoje, depois de velho, quando a gente se encontra, percebo que essas pessoas têm uma vida completamente diferente da minha e através de mim conseguiram entender um pouco desse mundo e ter uma aceitação, perceber que não é tão distante delas”, reflete.

A energia que o move é outra. Nos desafios, ele enxerga combustível, na dança, um veículo. A metáfora ele usa para explicar como a dança foi se tornando sua linguagem na vida, em um momento ao mesmo tempo conturbado e de encontro com seu talento. “Quando eu comecei a dançar, meu pai e minha mãe estavam se separando, estávamos com problema de dinheiro em casa, meu irmão estava indo para Minas Gerais – a namorada dele ficou grávida e ele teve que ir meio na emergência; minha família estava se dilacerando. Aí apareceu essa oportunidade de ir para o Centro de Dança Rio estudar”, conta.

O salto

Os bailarinos que se destacam no mundo são, na maioria das vezes, pessoas que estudam desde cedo, desde a infância. Thiago não. Ele só começou a descobrir o que era um plié na adolescência, e logo – “Eu tinha dois anos de balé” – estaria na França para competir com dançarinos do mundo inteiro. “Eu decidi fazer isso seriamente e investir como carreira depois que eu voltei do Concurso de Paris. Eu fui para lá representando o Brasil em 1998 e ganhei a medalha de prata”, conta.

O momento foi revelador para Thiago, que não tinha dimensão de todo o seu potencial. “Até então era ‘os amigos dizem que ele é bom’, ‘a professora diz que ele é maravilhoso’. Mas eu não sabia”, conta. “Lembro de chegar em Paris e estar com Rolando Sarabita, Leonid Sarafanov, hoje grandes bailarinos, gente que estudou desde pequeno. E eu comecei aos 14 para 15 anos.” Porém, como é de sua natureza, desafios são caminhos, e não obstáculos. “Não tinha vícios, não tinha medo. Meu ataque era outro. Eu precisava acertar porque queria os 20 mil francos. Meu combustível era a sobrevivência. Estava com mais fome do que todo mundo naquele teatro.”

O corpo de Thiago é para o balé um organismo perfeito, algo que seus professores sempre falavam. “Minha estatura, o quão longas eram minhas pernas, o quanto meus pés podiam esticar… Eu sempre tive esse corpo alto, longo. Fui privilegiado de ter meio caminho andado”, conta ele sobre os estereótipos físicos – mas faz questão de falar da estética eurocentrista que dominava o balé, o que começou a mudar em sua geração. “Quando entrei no Royal, havia poucos bailarinos negros no mundo como protagonistas. E tinha um cubano, Carlos Acosta, se estabelecendo. Conforme eu fui crescendo, ele virou uma das maiores estrelas do balé”, celebra.

Ainda no Brasil, houve quem sugerisse a ele uma cirurgia no nariz para se adequar à estética dos príncipes do balé. Ele fez exames, mas, por instinto, desistiu. Quando chegou em Londres, ouviu de algumas pessoas que nunca faria os príncipes. A história mostra que estavam errados. “Em 2007, fizeram um DVD oficial do Lago dos cisnes no Royal Ballet, de Londres, e eu era o príncipe”, lembra. “Vários amigos me escreveram dizendo ‘acabou o dilema do nariz, está claro que não vai te frear’”, ri.

O talento é natural, o esforço, rotina. A urgência não é mais a mesma, a disciplina e a gana seguem intocadas. “Hoje estou aqui, tenho um dia atarefado. Tenho uma festa à noite, um jantar, uma coisa legal. Aí um monte de gente fala ‘depois do jantar, isso ou aquilo’. Mas preciso lembrar: tenho que colocar três horas de treino, não importa se estou cansado, se tenho que parar tudo”, explica.

A relação com o corpo, sua ferramenta de trabalho, é de cuidado, com uma alimentação adequada e veneração. “Nosso corpo é muito generoso. Se você se alimenta bem, dorme, cultiva energias positivas e trocas e faz a sua disciplina, você se surpreende com o que o corpo devolve. Nós somos a máquina mais sofisticada, a pica das galáxias.” 

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