Tati Bernardi: Você nunca mais vai ficar sozinha

por Nathalia Zaccaro

Em seu novo livro, a escritora mergulha na cabeça de uma grávida neurótica que precisa lidar com o próprio amadurecimento

"Poderia dizer que parei com o Efexor assim que descobri que estava grávida e esse desmame repentino me fodeu a cabeça. Mas é mais do que isso." Este trecho de Você nunca mais vai ficar sozinha, novo livro de Tati Bernardi, dá o tom ácido do romance, um mergulho na cabeça fodida de Karine, uma mulher de 35 anos que se prepara para ser mãe. "Eu estudo psicanálise há três anos e queria falar um pouco sobre esse tipo de jovem adulto que demora pra sentir que cresceu. A maternidade é um sonho, mas quando se torna realidade pode deprimir esse jovem adulto", explica Tati.

A escritora, que é mãe da pequena Rita, de 2 anos, está precisando lidar com as próprias neuras durante a pandemia. "A vida da 'Tati mãe' ficou mais juntinho delícia, porém mais confusa, bagunçada, com mais poeira e bolacha de arroz com banana e leite quando não estou com saco de cozinhar. Faço o que dá pra fazer. (Mentira, tá? Eu sempre tenho vários congelados saudáveis aqui, isso de bolacha de arroz é lanche da tarde)", conta.

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O livro será lançado hoje (14), às 18h, em uma live no Instagram da editora Companhia das Letras. Tati Bernardi vai falar sobre os dilemas de sua protagonista com a psicanalista Vera Iaconelli. Ela dividiu com a Tpm um trecho exclusivo de seu novo livro e trocou uma ideia sobre o lançamento e o período de isolamento. Se liga:

Tpm. O tema do livro, maternidade, se relaciona diretamente com a sua vida pessoal. É autobiográfico?

Tati Bernardi. O livro é de ficção. Sei que sou uma escritora mais conhecida pelo trabalho mais autobiográfico, mas foi uma tentativa de fazer algo diferente. Claro que parto de alguns sentimentos, impressões e lembranças reais como faz, acredito eu, a maior parte dos escritores de ficção. Mas não é a minha história. Eu queria escrever sobre uma mulher que está naquele limbo entre ser somente filha e se tornar mãe. Entre ter mãe e ser mãe. Entre envelhecer pra sempre depois da chegada de uma criança. O fim da juventude da Karine, essa mulher de 35 que tentou ser infantil, insegura e dependente da mãe o máximo de tempo que conseguiu, mas agora não pode mais. Ela precisa ser forte e madura e perfeita pra poder criar uma garotinha. Ela não é mais a garotinha. Eu estudo psicanálise há três anos e queria falar um pouco sobre esse tipo de jovem adulto que demora pra sentir que cresceu. A maternidade é um sonho, mas quando se torna realidade pode deprimir esse jovem adulto.

Você acha que o fato de parte da população estar isolada em casa vai impactar no desempenho do livro? Acho que quem gosta de ler está tentando arrumar tempo pra ler, mas não é fácil porque as crianças não estão na escola, as notícias sobre o corona e sobre o presidente deprimem demais e são muitas para acompanhar. Estamos ansiosos e com medo, o que tira o foco da leitura. Somos mimados, acostumados a ter empregados em casa, e agora todo mundo virou dono de casa, o que é uma mudança extremamente importante. É um ótimo momento pra gente se olhar e tentar entender porque precisamos ser servidos, o que vai nos humanizar. Enfim, mil coisas acontecendo apesar de estarmos trancados. Mas eu amo ler e estou conseguindo ler um livro inteiro (não muito grosso) a cada dez dias. Uns três por mês. A editora resolveu lançar esse meu livro agora porque eu acho que aposta no meu poder de venda [risos] e eu fico muito feliz com essa confiança.

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O lançamento vai ser em uma live no Instagram. Como é isso pra você? Estou achando divertido lançar em uma live. Tenho tantos amigos legais e estou sempre em contato com tantas pessoas interessantes. Vejo lives de vários escritores, pensadores, humoristas, até de sambista. Por isso não me sinto tão sozinha sem ter um café ou um restaurante para encontrar as pessoas. Estou fazendo cursos na PUC, grupos de estudo de psicanálise, curso de literatura. Tirando a tristeza das mortes, o medo de ficar doente ou ver parentes e amigos doentes e a angústia de não saber o que vai ser do país, eu confesso que tenho me virado bem aqui com o meu isolamento.

Esse é seu primeiro livro depois da maternidade. A rotina da mãe interferiu em como você trabalha? Sim, é primeiro livro pós maternidade. Fiquei mais de três anos pensando esse livro. Reescrevendo. Ser mãe interfere em tudo, mas acho que estou mais focada e com mais vontade de fazer coisas interessantes. Estou muito mais estudiosa, madura.

Como o isolamento impacta na Tati filha e na Tati mãe? Tati filha está há 55 dias sem ver a mãe, é terrível. Não sei quando a verei. Só vejo pelo Zoom, todos os dias. A vida da Tati mãe ficou mais juntinho delícia, porém mais confusa, bagunçada, com mais poeira e bolacha de arroz com banana e leite quando não estou com saco de cozinhar. Faço o que dá pra fazer. (Mentira, tá? Eu sempre tenho vários congelados saudáveis aqui, isso de bolacha de arroz é lanche da tarde.)

Leia um trecho exclusivo de Você nunca mais vai ficar sozinha:

"Oi, eu sou a senha preferencial 76. Prefiro fazer o de urina primeiro porque estou apertada. Se bem que melhor não. Vamos começar pelo de sangue porque tenho hipoglicemia e já estou há horas sem comer. Posso tomar o lanchinho e depois voltar e colher a urina sem pegar fila? Tudo bem, esquece. Não tenho aflição de agulha, só não fico encarando. Nossa, precisa tudo isso de tubinho? Quase dez semanas. Vomitei só duas vezes, mas tive vontade umas duzentas.

Não sou daquelas grávidas saltitantes, não me tornei um unicórnio alado da alegria suprema. Amo esse filho, amarei esse filho. Acho que é menino. Falo pras pessoas que com tanto mal-estar e cansaço e prisão de ventre nem uma dessas mocinhas bem bobas e leves e “apaixonadas pela vida” permaneceria solar. Mas é mais do que isso. Poderia dizer que parei com o Efexor assim que descobri que estava grávida e esse desmame repentino me fodeu a cabeça. Mas é mais do que isso.

Não é exatamente divertidíssimo ver meu escritório em casa se transformando num quarto de bebê. Não é exatamente natural e mágico ver meu corpo, que trabalhava quinze horas por dia e fazia pilates e musculação e sexo, se arrastar deprimido pelo jardim do prédio. Sinto que toda a minha energia vital foi sugada por um pequeno óvni e que, enquanto isso, uma torcida organizada (pela minha mãe) chamada “todo o resto da humanidade” chacoalha pompons na minha cara e levanta faixas com os dizeres “tem que se sentir muito animada e abençoada ou você é uma vaca”. Ai! Eu sempre sinto mais dor na hora de tirar a agulha. Estou com muito corrimento, excesso de saliva e uma ligeira vontade de pular da janela. Minha boca vive com gosto de prego enferrujado. Virei um corpo sem desejo e sem ânimo hospedando um negocinho minúsculo que transformou minha rotina num conjunto de dias longos, tristes e desesperadores.

E, porque as pessoas são insuportáveis e cruéis e ignorantes, ainda lido diariamente com a pergunta 'mas você não está feliz?'. Ou: 'Você não ama o seu bebê?'. Que bebê, minha gente? Ceis tão vendo alguma coisa aqui além desse balde vomitado que eu deixo ao lado da cama caso não dê tempo de chegar ao banheiro? Outro dia fiquei pensando que desenho eu faria de mim e me imaginei presa a uma bola de ferro. Mas a corrente da bola ia até meu coração."

Créditos

Imagem principal: Reprodução / Renato Parada

Fotos do livro: divulgação. Retratos: Renato Parada

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