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Só para garotas

apresentado por Facebook

Edilaine Silva criou o grupo Elas e Elas para desabafar e se recuperar de uma separação, mas acabou ajudando outras garotas lésbicas

Foi depois de uma separação que Edilaine Silva criou o Elas e Elas, grupo no Facebook voltado para mulheres lésbicas, bissexuais e também heterossexuais. Era uma forma de desabafo para Edilaine, 37 anos, mas acabou se tornando um espaço na plataforma de trocas e apoio para outras mulheres lésbicas que procuravam se assumir, mas esbarravam em preconceitos. “A princípio, era para me ajudar, mas foram surgindo questões de meninas e com a ajuda que eu dava para elas me sentia ajudada”, conta à Tpm Edilaine, que mora em São José (SC), próxima a Florianópolis, onde trabalha como vendedora e administra o grupo.

O Elas e Elas é um dos vários grupos divulgados pela campanha do Facebook de apoio à diversidade e, por conta disso, ganhou quase 5 mil seguidores em cerca de um mês. Hoje são quase 9 mil mulheres espalhadas pelo Brasil, além de algumas brasileiras que moram fora do país. E Edilaine, que era a única administradora, ganhou a ajuda de duas moderadoras. Ela conversou com a Tpm sobre o nascimento do grupo, as questões que costumam abraçar e discutir e os preconceitos que ainda enfrentam.

Tpm. Como e quando surgiu o grupo?

Edilaine Silva. O grupo nasceu há quase oito anos. Eu havia recém-separado, não estava numa fase muito boa. Como a gente acaba não querendo conversar com pessoas que a gente conhece, montei o grupo para desabafar e não ter julgamentos. A princípio, era para me ajudar, mas foram surgindo questões de meninas e com a ajuda que eu dava para elas me sentia ajudada. 

Naquela época, o grupo era só para mulheres lésbicas? Não, no começo eram mulheres, independentemente de sua opção. Hoje, é mais [voltado] para meninas lésbicas, [pessoas] do grupo LGBT. O respeito, que eu cobrava bastante no grupo, sempre foi uma regra. Mas tive que aumentá-las por algumas situações que andam acontecendo no grupo.

Por exemplo? Rolava muito preconceito, mesmo. Então, quando isso acontece, a gente bane do grupo e bloqueia. Estamos ali para nos ajudarmos, interagirmos e para conhecermos pessoas, não para ficarmos julgando umas às outras.  

Quais eram os tópicos mais comuns nesse início? Era uma troca, uma ajudando a outra com o seu próprio problema. Naquela época, as mulheres desabafavam sobre separação, algumas eram vítimas de violência [doméstica]. Outras, desabafavam sobre preconceito. Às vezes, as mães não aceitavam quem elas eram e acabava saindo de casa. 

E o que mais é discutido hoje? Quais os tipos de postagens mais frequentes? Na maioria das vezes, meninas jovens, de 19 até 25 anos, me procuram por questão de aceitação. Elas entram em conflito por estarem se descobrindo lésbicas e por não saberem como contar para suas famílias. Então, às vezes, a minha experiência acaba ajudando um pouco. Mas sempre falo para procurarem um psicólogo para uma ajuda profissional. Quando elas conseguem [se assumir para suas famílias], algumas até dão seu depoimento [no grupo]. Aí me agradecem: 'Nossa, tive coragem de contar para a minha mãe!'. Mas sempre tem uma ou outra que não tem essa aceitação. Também conversam mais sobre questões do universo LGBT, como o preconceito que a gente sofre.  

É um espaço para paquera também? Sim. Já tiveram pessoas até que se conheceram no grupo e se casaram. Sempre brinco – sou kardecista – que, querendo ou não, é um encontro de almas. Elas se encontram por coincidência e se casam. Houve dois ou três casamentos pelo grupo.  

O preconceito diminuiu ou ainda são as mesmas questões nesses oito anos de grupo? Bem pouco porque no nosso meio, infelizmente, tem preconceito. Meu grupo é só de meninas, tem heteros, bissexuais e lésbicas – não tem trans no grupo, nunca surgiu a oportunidade de alguém querer entrar no grupo. E tem preconceito. Por exemplo, uma moça se declara bissexual, dá o depoimento dela e tem vários comentários preconceituosos, que bi não existe, que é uma pessoa indecisa. Quando me marcam em algum desse comentários, tento ajudar. Se continua rolando preconceito ou um debate ruim, excluo as pessoas que estão fazendo isso. 

A gente imagina que por ser um espaço dedicado às mulheres lésbicas, bissexuais, não haverá preconceito. Mas, pelo que você conta, a discussão contra o preconceito também é necessária ali. Sim, existe bastante. É bem difícil de controlar isso porque a gente não quer discordância, briga e nem atrito. Às vezes, homens tentam entrar no grupo com perfil fake, com nome e um monte de fotos de mulher. Mas acabam causando problemas no grupo.

E por que eles querem entrar no grupo? Alguns para ataques homofóbicos e outros para falar que nós não tivemos um homem que fizesse com que a gente se sentisse mulher.

Como foi seu processo de autoaceitação e contar para sua família? Que conselho costuma dar diante daquilo que vivenciou? Foi um pouco difícil no começo porque me descobri lésbica aos 21 anos. Sempre tive interesse em meninas, mas até então, na minha percepção, entendia que achava uma ou outra mulher bonita. Mas com 21 acabei me envolvendo com uma moça e tive certeza que era aquilo que queria para mim. Para a minha família, assumi dois anos depois. No começo, a minha mãe sofreu muito porque ela queria ver a filha entrando de noiva [na igreja] e hoje ela aceita muito bem. Há três meses, brinquei com ela: ‘Mãe, acho que vou virar hétero'. Ela falou: 'Você está maluca!'. Ela não consegue mais me ver com meninos. 

“Acho que colocam muitos rótulos na gente. O importante é não comprá-los”

A estudante de psicologia Bruna Marino, 25 anos, é um dos rostos da campanha do Facebook de apoio à diversidade e conta como foi se assumir bissexual

“Foi na adolescência que me descobri gay. Vivia em um ambiente muito heterossexual na escola. E, quando estava no ensino médio, isso não era tão falado como é hoje. Sabia que tinha essa vontade de estar com meninas, mas não consegui viver isso na época. Pude expor e falar sobre isso na internet. Conheci pessoas, era um lugar em que conseguia me assumir. 

Aos 17 anos, conheci uma menina. Foi nessa época que comecei a namorar com ela e contei para a minha mãe. Ela não lidou bem. Por muitas questões de convivência, acabei saindo de casa. Morei três anos com essa namorada, dos 18 aos 21. Foi uma experiência legal para mim, acabei amadurecendo muito, consegui viver o que queria.

Com o tempo, minha mãe viu que não mudei, que continuava sendo a filha dela, fazendo minha coisas, estudando, e ela acabou aceitando bem. Hoje, moro com ela e minha irmã. Nos damos super bem. 

Acho que colocam muitos rótulos na gente. O importante é não comprá-los. Quando as pessoas pensam em alguém gay, já associam a muitas coisas pejorativas. Por saber que seremos vistos desta forma, acabamos tendo dificuldade para nos assumirmos. Mas é importante você sempre lembrar que isso é uma visão externa, não esquecer quem você é, saber que é uma pessoa incrível, que vai seguir sua vida, que as coisas vão dar certo. E mostrar para sua família, para quem não aceita, que você é esta pessoa. Aos poucos, a convivência vai se transformando. É questão de paciência. Da mesma forma que não é fácil para a gente, também não é para os pais assimilarem [esta mudança]. Existe este processo de maturação desta nova relação que se forma, mas passa. Para quem tem condição, fazer terapia é algo que ajuda muito tanto a família quanto a pessoa.”

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Créditos

Imagem principal: Jorge Bispo

O ensaio fotográfico desta reportagem foi feito por Jorge Bispo remotamente via WhatsApp

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