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Mais uma vez nos encontramos aqui. Talvez seja um primeiro contato, e eu deva fazer um texto do tipo “segura e cheia de conteúdo”. O problema é que preciso ter alguma coisa para te dizer agora, e nada me ocorre! O agravante é que queria muito acertar seu coração. Gosto de transformar. Queria ser uma espécie de cupido intelectual que arremessasse afeto no vão mais suscetível do seu organismo. O que você precisa ouvir? E eu? O que você diria se me encontrasse hoje por aí? Tenho medo que alguém venha contar que eu não me mexo e me locomovo com cadeira de rodas. Ficaria perplexa, pois não penso nisso e me sinto igual às pessoa que quebram o braço, o dedo ou o nariz. Eu quebrei o pescoço e, mesmo assim, sei movimentá-lo muito bem. Só não sei mexer o resto do corpo! Aprendi a me movimentar uma vez, talvez aprenda de novo. Pode ser menos intricado e mais espontâneo do que se imagina.
E amar? Será que dá para aprender de novo? Sempre achei que bastava ter amor correspondido, que o resto poderia ser chamado assim: resto! Infelizmente, constatei na prática que amor é requisito básico, mas não resolve tudo. Admiti isso quando sei que o toque dele me incendeia e me inunda do melhora da vida é cruel. Mais enlouquecedor ainda é quando o coração dispara só de ouvir o “alô” dele. Você sabe o que é sentir o próprio cheiro e se lembrar de quem ama? Já sentiu isso?
Acabei de chegar dos Estados Unidos, onde fui visitar o maior centro de pesquisas para a cura de paralisias do mundo. Fui propor a eles uma parceria científica com o Brasil por meio da PPP – Projeto Próximo Passo -, a ONG em que trabalho.
No vôo de Miami para São Paulo, aconteceu um imprevisto. O que você faria se fizesse cocô no meio de um monte de gente e não pudesse levantar para limpar? Depois de uma lesão medular, perde-se o controle do intestino e da bexia. É claro que, com treino e dedicação, você aprende a controlar o corpo de novo. O meu intestino, por exemplo, raramente funciona à revelia, mas aprontou-me uma grande enrascada dentro do aivão. Havia mais de ano que nada parecido acontecia. Imagina que embaraço… Senti vontade e em segundos já havia feito. Não tinha como ir até o toalete nem roupas para trocar. Minha sorte é que havia poucas pessoas na classe executiva. Mesmo com um cheiro muito forte se propagando, todo mundo continuou dormindo. Parecia até que eu havia liberado toxina com soníferos. O Alfredo e a Santilia fizeram a faxina, que demorou quase duas horas comigo de pernas para o ar. Fui embora do avião com um cobertor amrrado na cintura. Fazer o quê? Pelo menos deu para me limparem, o que já é motivo de comemoração. Esse tipo de acontecimento resgata nossa habilidade de lidar com variáveis incontroláveis.
Shit happens!
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