por Júlia Comodo
Tpm #84

A jornalista goiana Júlia Comodo se jogou na chapada Diamantina, na Bahia, e voltou renovada


Antes que sua cabeça precisasse de um “ctrl + alt + del”, a jornalista goiana Júlia Comodo, 32 anos, se jogou na chapada Diamantina, na Bahia, e voltou renovada 

Precisava de férias, urgentemente! Estava no mês de agosto e não ia esperar até dezembro, mesmo não sendo a melhor hora para ficar fora da produtora.Mas,antes que surtasse de vez, decidi: tiraria uma semana. Queria relaxar, mudar o canal, abstrair de tudo em sete dias. Precisava desopilar, desfragmentar o HD.

Estava tão cheia de coisa na cabeça que quase fui parar no lugar- comum: Búzios, cidade que amo e que está do lado. Pensei: “Já conheço, vai ser fácil”. Felizmente, uma amiga me deu a dica: “Vai pra chapada Diamantina, lá você zera”. Em meia hora, comprei passagem e fechei a pousada. Era quarta-feira, no sábado parti.

E lá fui eu: peguei o avião do Rio de Janeiro até Salvador e, de táxi, segui para a rodoviária. Seis horas de estrada depois, chego a Lençóis, cidadezinha que parece locação dos filmes de Guel Arraes, como a que serviu de cenário para O Auto da Compadecida: uma vila do interior da Bahia, cheia de bandeirinhas, lamparinas, chão de pedras. Charmosa, simpática, convidativa.

Exausta, fui para a pousada Estalagem do Alcino. Um casarão antigo, com decoração estilo “casa de fazenda”, cara de ambiente familiar. Fui recepcionada pela Flor, uma simpática gerente que há mais de 15 anos recebe os hóspedes com um sorriso acolhedor. Chuveiro bom e cama fofa, dormi o sono dos inocentes.

De manhã, lá pelas nove, desci para o café, que é um clássico da chapada, inclusive já foi eleito por algumas revistas como o melhor café da manhã da região.É programa de roteiro: mesmo quem não está hospedado na pousada vai tomar o famoso café. Todo dia tem um menu diferente. Pizza de aipim, banana assada, granola, tapioca, aipim cozido, biscoito de polvilho, que eles chamam de “avoador”, queijo, ricota, iogurte, geleias e pães, tudo é feito lá mesmo. O café dura, no mínimo, uma hora e é servido numa mesa enorme na varanda, onde todos os hóspedes se sentam juntos em grandes bancos, como uma família. Não tem como se sentir só: o hóspede italiano pede a cesta de pães, a espanhola quer entender a tapioca, eu tento traduzir a canjica para o francês.

Tudo acontece sob a supervisão do dono, o Alcino, um fluminense ex-funcionário do Banco do Brasil que largou a cidade pela chapada. Lá, ele aprendeu a pintura em cerâmica e os hóspedes podem acompanhar o processo de criação das peças, um luxo.


Para para agradecer a mãe natureza por tanta beleza; Adriano, meu guia mestre

Virei lagarta
Peço a Flor para me indicar um guia – na primeira vez, é fundamental. Fui presenteada com Adriano, sobrinho da Flor, um mestre que me ensinou grandes filosofias da natureza.O roteiro já estava traçado: Serrano, Salão de Areia, Cachoeirinha e cachoeira da Primavera. Uma caminhada puxada nos leva a um mirante com visual deslumbrante dos platôs. Mesmo com o clima seco e o rio sem água, o lugar é lindo. Seguimos por grutas, vales, areais coloridos e cachoeiras, que formam deliciosas duchas de hidromassagens. Pra lavar a alma! Virei musgo, lagarta, deitei na pedra, me integrei ao meio. E me reconectei. Dali, seguimos para o rio Ribeirão, onde tem um escorregador natural. E, após 11 quilômetros de caminhada, voltei para tomar um banho restaurador e jantar.

No centro não faltam boas opções de culinária. A cidade é preparada para turismo internacional; aliás, só conheci gringos,muitos sozinhos, de mochilão. Jantei no Tomate Seco, restaurante de um argentino,que, fiquei sabendo depois, fechou.Pedi uma taça de vinho para relaxar os músculos e comi um delicioso risoto de legumes com gergelim, passas e castanhas.

No dia seguinte, fiz o roteiro 1, como é conhecido, por meio de uma operadora, pois precisava de carro – Adriano não tinha.O passeio inclui: o poço do Diabo, Mucugezinho, gruta da Lapa Doce, Pratinha, onde mergulhamos de snorkel e entramos com lanterna dentro da gruta.Tem uma hora em que, dentro d’água, o guia pede para que todos apaguem as luzes e meditem.Momento único. Depois, fomos à gruta Azul, onde tem uma luz de um azul tão profundo que parece cinema. Passamos no poço do Diabo e finalizamos o dia com o pôr-do-sol no morro do Pai Inácio. Batizado com o nome de um escravo, reza a lenda que ele teve um romance com uma sinhazinha, e o barão,pai da moça, descobriu e mandou matá- -lo. Inácio se escondeu no morro, eles fugiram e acabaram felizes... A chapada é cheia de lendas.Terminei feliz meu dia no Maria Bonita: pizzas, bruschettas, goles de vinho.

No terceiro dia de chapada, fui fazer o Marimbus, passeio que eles chamam de mini-Pantanal e é feito de canoa. Rema-se por cerca de uma hora até um lugar lindo, cheio de poços com duchas que parecem ofurôs reunidos nas pedras. Almoçamos numa casa de família, onde já tínhamos feito reserva. Comidinha caseira gostosa com pratos típicos como: cactos, pupunha, muita abóbora e frango caipira, pela bagatela de R$ 12. A parada seguinte foi no rio Roncador (dos passeios foi o de que menos gostei. Se você ficar menos do que sete dias, aconselho pular esse). Na volta, jantei com meus amigos italianos e franceses que conheci no café.


A caminho do poço do Diabo, um dos muitos micos vistos por lá; Vista do mirante de Lençóis, cidade que parece cenário dos filmes de Guel Arraes

Catarses

Depois de mais uma noite bem-dormida, o quarto dia prometia a cachoeira da Fumaça. Dá pra fazer a trilha por cima e por baixo, mas,para a segunda opção,dorme-se na beira do rio. Fomos por cima. Em agosto, a cachoeira está seca, mas o visual vale. Lá, o barato é deitar de bruços na pedra, na beira do abismo, e olhar para baixo. É comum as pessoas berrarem, sofrerem catarses, chorarem. É inevitável: a imensidão te atrai e os guias seguram seus pés para evitar que você tenha vertigem. Finalizamos no Riachinho, que de “inho” não tem nada: é mais uma queda-d’água deslumbrante.

Antes de partir, fui me despedir daquele paraíso com mais uma cachoeira, a Sossego, com queda imensa e um rio caudaloso para nadar. Na sexta-feira, peguei o ônibus para Salvador, Adriano me levou até o ponto. Frase dele no meio de uma trilha íngreme, onde para passar você tinha que se agarrar a troncos retorcidos que pareciam braços humanos: “Tá vendo, Júlia, a natureza está sempre te dando a mão”. Guardei a frase. Dei minha lanterna para ele, que ficou emocionado, quase chorou com tão pouco... Detalhes e delícias da vida simples. Voltei ao Rio reconectada, com cheiro de mato, fazendo parte do todo novamente.

Queimadas
No segundo semestre do ano passado, nove municípios da chapada Diamantina, na Bahia, foram atingidos por focos de incêndio. Segundo estimativa da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Sema), as queimadas afetaram cerca de 30% da região. Porém, os principais circuitos turísticos (as trilhas e os roteiros) não foram atingidos pelo fogo, embora em algumas caminhadas seja possível avistar os estragos, o que significa que é possível viajar para lá sem a preocupação de perder qualquer atração.

Dos 14 municípios que formam a chapada Diamantina, Ibicoara, Livramento, Utinga, Érico Cardoso, Palmeiras, Piatã, Abaíra, Andaraí e Rio de Contas foram os mais prejudicados. Geralmente o período de seca é de setembro até meados de dezembro, embora em junho de 2008 tenham sido registrados os primeiros focos de incêndio.

Ó, chuva, vem me dizer

Além do calor excessivo, do clima seco e da estiagem de sete meses, as queimadas também estão relacionadas com o hábito dos agricultores de colocarem fogo na roça. Algumas áreas de difícil acesso também foram responsáveis pelo prolongamento do incidente, que no início de dezembro já havia sido controlado com a ajuda da água das chuvas.


Gruta Azul, na exata hora em o Sol gera esse reflexo: luz de cinema


DICAS

Como é
Em todas as operadoras turísticas de Lençóis, os itinerários de roteiros e trilhas são padronizados, assim como os preços.

Trilhas
Diária do guia: R$ 70. Trilha 1_ 11 quilômetros de caminhada: rio Serrano (parte do rio Lençóis), Salão de Areia, Cachoeirinha e cachoeira da Primavera. Nível de esforço: leve. Trilha 2_ caminhada de 4,5 quilômetros até o Ribeirão do Meio. Nível de esforço: leve. Trilha 3_ caminhada de 14 quilômetros até a cachoeira do Sossego. Nível de esforço: avançado.

Roteiros
Os roteiros incluem guia da operadora e transporte. Fique atento, pois em muitas atrações é preciso pagar os guias locais e/ou taxas de visitação por pessoa. Nos passeios que não incluem almoço, há parada em restaurante, em média de R$ 12 a R$ 15 por pessoa.
Roteiro 1_ R$ 60 por pessoa. Nível de esforço: leve/moderado. Distância total: 140 quilômetros (carro + caminhada). No balneário do Mucugezinho, caminhada pelo leito do rio até a cachoeira do Diabo. Subida ao morro do Pai Inácio. Visita à fazenda Pratinha, com banho em lago de águas cristalinas e ida às grutas da Pratinha e Azul (R$ 10 pelas duas). Gruta da Lapa Doce (R$ 10 + guia local), a 70 quilômetros de Lençóis, com formações calcárias.
Roteiro 2_ (cachoeira da Fumaça por cima) R$ 60 por pessoa. Nível de esforço: avançado. Distância total: 170 quilômetros (carro + caminhada). Saída no vale do Capão, onde começa a caminhada de 6 quilômetros até o topo da cachoeira da Fumaça (R$ 2), com 360 metros. No caminho de volta, vista panorâmica para o Morrão e banho na cascata do Riachinho. Há a opção de passeio “por baixo”, com duração de dois ou três dias.
Roteiro 3_ R$ 70 por pessoa. Nível de esforço: leve. Distância total: 300 quilômetros (carro + caminhada). Cerca de duas horas de viagem até o poço Encantado e visita ao poço Azul (R$ 6 + guia local).
Roteiro 4_ R$ 70 (inclui transporte até o povoado quilombola + o barco para atravessar o mini-Pantanal). Nível de esforço: leve. Distância total: 40 quilômetros (carro + canoa + caminhada). Partida da comunidade de Marimbus (R$ 3), à beira do rio Santo Antônio, passeio de canoa pelo mini- Pantanal até o rio Roncador. Caminhada até as cachoeiras e piscinas naturais.

Quem leva
Gol, ida e volta R$ 733, com tarifas. TAM, ida e volta de R$ 1.019 a R$ 3.700.
Rodoviária de Salvador, av. Antônio Carlos Magalhães, 4.362, (71) 3616-8300. Ônibus Salvador-Lençóis: diariamente, às 7h, às 16h e às 23h30, pela Real Expresso (www.realexpresso.com.br), R$ 48.

Onde ficar

Pousada Estalagem do Alcino, r. Tomba Surrão, 139, Lençóis, (75) 3334-1171, www.alcinoestalagem.com. Diária: duplo, de R$ 140 a R$ 240; single, de R$ 105 a R$ 175.

Com quem fazer

Zen Tour, (75) 3334-1397, www.zentur.tur.br. Chapada Adventure, www.chapadaadventure.com.br. Terra Chapada, www.terrachapada.com.br. Adriano, o melhor de todos os guias, (75) 9966-0226, adrianoguia@hotmail.com

Onde comer
Restaurante Maria Bonita, esquina da r. Baderna com a r. das Pedras, em Lençóis.

Tpm+ Confira mais fotos da Chapada Diamantina

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