por Luiza Sahd

... mas tinha medo de perguntar!

Eles são muitos, mas quase nunca estão misturados entre nós. Para romper barreiras sociais e preconceitos, ativistas transgêneros respondem perguntas enviadas por Twitter

Você já se perguntou como é o processo de transição de gênero? Ou se toda pessoa trans passa por cirurgia? Como será a sensação de não se identificar com o corpo que recebeu ao nascer? Como conversar sobre isso sem parecer insensível?

Pois pergunte a um trans usando a hashtag #asktransfolks (pergunte à comunidade trans, em tradução livre) no Twitter e espere uma resposta por vídeo, como estas aqui. Por hora, a conversa acontece apenas em inglês.

Na mesma semana em que deputados brasileiros apresentaram um projeto de lei que pode suspender o direito de transexuais e travestis a usarem seu nome social em órgãos públicos (leia mais aqui), outro grupo – também liderado por brasileiros – lançou uma iniciativa global que pretende deletar a transfobia de muitas mentes por meio da internet. O movimento #asktransfolks nasceu de uma jornada criativa entre publicitários, comunicadores, jovens e ativistas trans que trabalharam intensamente durante seis dias em Nova York debatendo ideias como empoderamento e visibilidade. Idealizado por André Chaves, do Papel & Caneta, e coordenado por Barbara Soalheiro, fundadora do Mesa & Cadeira, com apoio da Flagcx, o projeto é resultado de uma colaboração global entre líderes criativos e ativistas do Canadá, EUA, Holanda, Filipinas, Coréia e Brasil.

Não custa lembrar: o Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e pessoas trans no mundo, segundo a última atualização do relatório da ONG Transgender Europe, que avaliou dados de 2008 a 2015. Foram 806 mortes reportadas no período: quase quatro vezes mais que no México (229), o segundo colocado na lista. 

“A ignorância é que leva ao medo. E esse medo é que leva à violência. O que estamos fazendo é justamente substituir o medo para armar as pessoas com conhecimento. Estamos falando de algo nos liberta como um todo – e não só às pessoas trans”, explica o jornalista Tiq Milan, ativista e co­criador do projeto.

Além de Tiq, que é estrategista do GLAAD, o grupo é composto por ativistas expoentes como Meredith Talusan (repórter do Buzzfeed), Daniella Carter (membro da equipe do documentário de Laverne Cox na MTV americana) e Kim Watson, fundadora do CKlife – uma organização do Bronx que apoia jovens durante a transição. A própria atriz Laverne Cox, da série Orange is The New Black, também é apoiadora do #asktransfolks.

“Muitas vezes, pessoas cisgênero tem medo de parecer insensíveis ou ignorantes ou simplesmente não conhecem o vocabulário. Ao mesmo tempo, jovens que estão assumindo sua identidade tem dificuldade de encontrar uma comunidade e rede de apoio”, explica Daniella Carter, cuja história de vida ganhou reconhecimento internacional. Aos 14 anos, quando se assumiu transgênero, foi expulsa de casa pela mãe adotiva. Continuou frequentando a escola, mas dormia em estações de metrô de Nova York para se abrigar do frio e, para comer, se prostituía. Aos 18, quando conseguiu um emprego como estagiária e conheceu a apresentadora de TV e escritora Janet Mock – que teve uma trajetória semelhante à dela – começou a trabalhar em documentários sobre a causa, além de se transformar em uma ativista mundialmente reconhecida.

Assim como os tuiteiros, também fizemos perguntas à comunidade trans. Batemos um papo com o jornalista e ativista americano Tiq Milan, que colabora com veículos como Huffington Post, Rolling Stone e The New York Times e participou da criação do #asktransfolks, e com Maria Clara Araújo, nascida em Recife, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco, conhecida por compartilhar sua experiência de transição em textos na internet e protagonista de uma campanha publicitária de uma marca de beleza.

Ao longo da vida, como você lidou com o preconceito alheio? Ainda acontece muito?
Tiq: Faço parte da comunidade LGBT desde os 14 anos e sempre fui apoiado pela família e por amigos. Isso não quer dizer que não houveram momentos complicados, mas acabei sendo respeitado por ser quem eu sou. Provavelmente, esse privilégio foi o que me permitiu criar essa rede de apoio tão importante: morar em Nova York, ter recursos e estar protegido da imensa violência a que tantas pessoas trans, principalmente as negras, são submetidas o tempo todo. As pessoas às vezes nem sabem que sou trans, mas quando escuto algo depreciativo sobre pessoas LGBT e rola uma certa abertura, tento ensinar alguma coisa sobre isso.

Você é super jovem e ativista há um tempo relativamente curto. Sente que agora está sendo vista e ouvida com mais respeito?
Maria Clara: Comecei a dividir minhas narrativas na internet sem grandes ambições e acabei notando que tudo isso chamou atenção de uma forma política. Aí, entendi que a vida de uma pessoa trans já é, por si só, um ato político. Até então, eu não fazia ideia de que a minha história poderia impactar a vida de outras pessoas. Foi virando ativista que tive consciência de que alguém como eu – pobre, negra, trans – poderia entrar em uma universidade, por exemplo. E foi muito bom descobrir que aquele espaço também poderia ser meu. Nós, que somos travestis, queremos entender qual é o lugar que ocupamos nessa sociedade que legitima alguns corpos e deslegitima outros. Por que alguns corpos importam e outros corpos não importam? Essa luta me fez ter a sensação de que agora eu estava sendo ouvida e de que eu estava sendo finalmente vista como ser humano.

E a coisa mais importante que você aprendeu com a comunidade LGBT?
Tiq: Que ser transgênero ou ser queer não é uma experiência monolítica: cada pessoa tem sua história sobre como acabou encontrando a própria identidade. E, fora isso, claro, a gente também tem monte de outros interesses em comum não têm nada a ver com gênero ou sexualidade.

Qual foi a melhor parte do processo de criação do #asktransfolks, Tiq?
Tiq: As conversas honestas, a troca de experiências e a certeza de estar em um espaço seguro, livre de julgamentos, sem me preocupar em ser vulnerável.

Maria Clara, você também acredita que fazer perguntas para a comunidade trans é uma forma de transformar nossas relações?
Maria Clara: Perguntar é tentar entender a vivência de outras pessoas para além do que a gente aprendeu pela televisão, jornal e conversas cotidianas. Eu acho que a gente pode exercitar mais esse ato de ouvir o outro e, a partir disso, reconstruir certas visões preconceituosas. Disso se extrai um conhecimento valioso, porque entender a condição de vida dos trans é não só importante para que as pessoas possam respeitar, mas também ecoar tudo isso, formando uma rede de informação muito poderosa.

O que nós, cisgêneros, podemos fazer para apoiar esta causa?
Tiq: Vocês podem perguntar sempre, inclusive, para além da plataforma #asktransfolks. Podem se permitir serem inspirados, podem se juntar a nós.

Por que a questão do direito ao nome social para travestis e transgêneros é tão delicada?
Maria Clara: O nome social é uma medida paliativa, mas muito importante. É uma “gambiarra legal” que, de certa forma, institui uma política de segurança e respeito e principalmente cidadania. Então, quando as pessoas querem tirar nosso direito ao nome social, essas pessoas automaticamente estão dizendo que o nosso gênero não é inteligível, não é legível, nem é de verdade e nem concreto. Isso é dizer que nosso gênero é fictício, entende? É muito complicado, porque nos tira de uma condição de humanidade. A Constituição diz que todo cidadão deve ser tratado com dignidade, mas cadê minha dignidade se eu não sou tratada como Maria Clara? A gente não pode ficar parado em relação a isso. Então, estamos nos unindo, fazendo campanha, porque é um momento muito delicado. A gente precisa se fazer ouvido.

Na sua visão, o que pode ser feito pontualmente no Brasil para tirar os trans da margem?
Maria Clara: Sair da margem é isso. É eu estar falando com você agora. É isso de um meio de comunicação me apresentar ao público, é a possibilidade de a gente criar redes de apoio para que nossas narrativas verdadeiras e as narrativas que nos impuseram sejam vistas. É, simplesmente, dar oportunidade para que as pessoas trans sejam vistas não só como seres humanos, mas pessoas normais, não seres exóticos da sociedade. Eu, por exemplo, fico muito feliz em aparecer numa reportagem creditada como Maria Clara Araújo. É tão simples, né?

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