por Sara Stopazzolli
Tpm #127

Acostumado ao estilo brasileiro de atuar e ao carioca de ser, o ator português conquista um papel atrás do outro

O dia não é dos mais quentes da primavera carioca, mas Paulo Rocha recusa a mesa da área externa do café no Leblon, local reservado para a entrevista, e prefere se sentar onde há ar-condicionado. Não é coisa de gringo, estranho ao calor dos trópicos. O ator conta que sempre foi calorento e já se adaptou ao Rio de Janeiro. Muito mais, aliás, do que poderia supor há um ano e meio, quando chegou pensando que faria uma novela (Fina estampa, em 2011) e depois voltaria para casa. Hoje, comemora as voltas que a vida dá. Está em seu segundo folhetim, Guerra dos sexos, com um contrato de três anos com a Rede Globo, e acaba de se mudar do apart-hotel no Leblon para um “apartamento de verdade” no mesmo bairro. “Agora vocês vão ter que aguentar o ‘portuga’!”, brinca.

A trajetória do ator rumo ao “mais próximo que se pode chegar de uma vida satisfatória”, segundo ele, contou com pitadas de sorte. Não só na esfera profissional, mas em relação às pessoas que cruzaram seu caminho. A elas, se refere como “pontos de afecto”. Lilia Cabral, parceira de Fina estampa, virou quase da família; seu agente, Alex Lerner, um grande amigo; e a psicóloga Juliana Pereira, um grande amor. “Tudo isso ajuda a minimizar a saudade dos meus pais e dos amigos. Eu tinha uma vida em Portugal e agora tenho uma vida aqui. O que muda, na verdade, são as relações e o ambiente. Meus hábitos seguem os mesmos. Com a minha idade fica difícil mudá-los”, diz.

Natural de Setúbal, cidade a 50 quilômetros de Lisboa, Paulo tem 35 anos e é figura conhecida da televisão e dos palcos portugueses. Começou no ofício de ator em 1999, já fez cerca de dez novelas, três como protagonista. O autor Aguinaldo Silva, que vai a Portugal com frequência, encantou-se com o trabalho de Paulo quando ele fazia um vilão na novela Vingança, da emissora portuguesa SIC, em 2007.

Anos mais tarde, o convidou para compor o personagem Guaracy. “Me chamaram a atenção sua virilidade e a maneira tranquila como lidava com o modo naturalista de representar das novelas. O naturalismo que os atores brasileiros trabalham à perfeição, em Portugal ainda é difícil para os atores locais. Percebi que ele não teria problema em se adaptar ao tom das novelas do Brasil. E foi o que aconteceu”, conta o autor.

Paulo achou a proposta interessante e não teve dúvidas. Nunca tinha vivido em outro país nem sequer conhecia o Brasil – motivação que o fez aceitar o desafio de ser um desconhecido em um lugar desconhecido. “As coisas foram acontecendo tão rápido que tenho uma memória muito distante dos meus primeiros dias aqui. Sempre me senti muito confortável no Brasil. As pessoas são mais positivas do que em Portugal. Se você faz uma coisa bem, elas falam: ‘Gosto do seu trabalho’. Há abertura para isso, mesmo em um meio altamente competitivo”, diz.

 

“As pessoas são mais positivas do que em Portugal. Se você faz uma coisa bem, elas falam: ‘Gosto do seu trabalho’”

 

A única coisa que o morador do Leblon ainda não incorporou é a relação com a praia. Paulo não consegue sair para dar um mergulho, como fazem os cariocas. Nas poucas vezes que visita o mar, limita-se à areia.

Requisitado

Para a atriz Lilia Cabral, a postura de Paulo foi fundamental para o sucesso dele. “Ele é sensato, humilde e sempre foi muito afetuoso com os atores brasileiros. Isso faz com que seja prazeroso conviver com ele. Além de ser um ator versátil, inteligente e sensível, é um dos meus melhores amigos”, conta.

Assim que terminou Fina estampa, como o bem-sucedido Guaracy, Paulo recebeu o convite para viver o fotógrafo Fabio (interpretado por Herson Capri, em 1983) no remake de Guerra dos sexos. A escalação até fez com que Silvio de Abreu, autor da novela, adaptasse a história do personagem para livrar Paulo da exigência de um sotaque perfeito. “Fabio agora tem nacionalidade portuguesa. Isso me dá um espaço de manobra”, comenta o ator, que faz sessões diárias com uma fonoaudióloga para pegar o “brasileirês” (e mantém o sotaque carioca durante quase toda a entrevista).

Apesar da mesma nacionalidade, Paulo assume ser bastante diferente de Fabio, que vive um casamento infeliz para poder ficar perto da filha. “Tenho uma forma mais pragmática de ver a vida. Se as coisas não estão dando certo, a vida segue para que as duas pessoas fiquem felizes”, conta. Mas isso não quer dizer que ele não queira filhos. Só que não gosta de fazer planos a longo prazo. “Sou muito perfeccionista no trabalho e, na vida pessoal, mais bagunçado. Não gosto muito de planejamento, como organizar férias com seis meses de antecedência ou assumir um compromisso para daqui a 15 dias. São disparates”, diz.

Paulo consegue ser categórico e educado ao mesmo tempo quando conta não gostar de falar da vida pessoal. Prefere não expor a família, as ex-namoradas e menos ainda a atual, com quem está há quase um ano. “Você é a primeira pessoa para quem estou assumindo o namoro. Não tem como negar, porque já saiu na internet, mas uma coisa é as pessoas saberem, outra é dar ao conhecimento das pessoas. Ela é minha namorada, não do Brasil inteiro”, diz ele, que não estranhou ao ver, em sites de fofoca, fotos dos dois em restaurantes – em Portugal, a imprensa de celebridades se comporta da mesma maneira.

“Entendo que no Brasil exista um fetiche, mas é preciso muito mais do que cozinhar bem para ser um bom namorado”

Sair para jantar com a namorada é um dos programas que Paulo faz quando não está em função de Fabio. E assume que, quando entra na cozinha, alguma coisa boa acaba saindo – pescada com coentro e vinho branco é uma de suas especialidades. “Entendo que no Brasil exista um fetiche por homens que sabem cozinhar, porque não é tão normal por aqui, mas é preciso muito mais do que cozinhar bem para ser um bom namorado”, acredita. O mais importante, segundo Paulo, é saber escutar a parceira. “O grande erro que os homens cometem é querer resolver todos os problemas da mulher. Uma palavra de reconhecimento ou identificação é mais importante. Muitas vezes, a mulher só quer um ombro”, avalia.

Guerra dos sexos

Paulo é cheio de opiniões sobre a diferença de gêneros. O ator acredita que a emancipação feminina é algo recente e vai levar algum tempo para que todos se sintam seguros em seus novos papéis. “Não consigo conceber ter uma esposa que só fique em casa. Não acho que é bom nem ruim. Acho até bonito quem decide abdicar da carreira pra cuidar dos filhos, vejo como um gesto de altruísmo. Mas, para mim, uma companheira pode ser tudo na altura certa: ser mãe, cuidar da casa, ser profissional e amante.” Dá pra ter uma vida perfeita, então? “Vida perfeita não existe”, diz, categórico. Depois, pede desculpas por parecer chato, franze a boca e completa: “Uma vida perfeita é você ser bem-sucedido profissionalmente, estar rodeado de pessoas queridas, viver numa cidade bonita… Bom, estou falando da minha vida agora”, explica, contraditório. E termina: “Claro que sempre vai faltar algo, mas estou num bom caminho. Se pedir demais corro o risco de parecer ingrato. Já tive momentos ao longo da vida em que pensei que tinha tudo que precisava. Ou não sou ambicioso o suficiente ou a vida tem sido muito boa pra mim. Prefiro acreditar na segunda opção”.

ASSISTENTE DE FOTO MARIZA FONSECA PRODUÇÃO DE MODA GABRIELA MICHELINE PRODUÇÃO ANA LUIZA TOSCANO. Paulo veste regata Osklen.

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