por Gabriela Borges

A roteirista Ana Recalde nega o padrão ideal de homem e mulher reforçado nas HQs de super-heróis: ”Já ouvi muitas vezes que faço quadrinhos para homens. Não! Eu faço quadrinhos.”

Ana Recalde joga RPG, é fã de Sandman, Constantine e X-Men, escreve HQs de terror, mas está certa de que o mundo dos quadrinhos ainda é machista. Em meio à polêmica sobre a uma campanha sexista divulgada pelo Troféu HQ Mix, a roteirista sul matogrossense foi uma das únicas três mulheres vencedoras da edição deste ano, entre as 32 categorias artísticas. Ela subiu no palco para agradecer o prêmio "Webcomic" e representar todas as leitoras e autoras de histórias em quadrinhos: "queria deixar claro que o prêmio em si não perde a importância, mas que as autoras não vão mais se calar".

Leia a seguir a conversa que tive com autora do livro Beladona.

Você sempre curtiu quadrinhos? Quando era bem pequena já lia muito, adorava histórias em geral. Livros infantis, HQs, placas na rua. Quando aprendi a ler, minha mãe ficou bem aliviada, pois não precisava mais ler tudo para mim. Antes de ser alfabetizada, peguei um livro chamado Pé de Pilão, com o texto do Mario Quintana e o desenho do Claudio Levitan. Era a minha primeira Graphic Novel, pedia todo tempo para as pessoas lerem para mim e decorei todas as falas. Ali, me apaixonei pela literatura, poesia e quadrinhos. Depois, um pouco mais velha, descobri a coleção de quadrinhos do meu pai. Primeiro o que ele deixava na estante, como Asterix. Depois eu descobri Cavaleiro das Trevas e Ronin, guardados num sotão. E quando adolescente, um dos meus amigos me apresentou X-Men e as revistas mensais de heróis. Olhando em retrospecto, as HQs permeiam as minhas relações afetivas, meu processo de aprendizagem da vida. Sempre estiveram lá em pontos cruciais. Acho que não tive muita escolha [risos]

Quais os seus estilos, autores e personagens preferidos? Eu sou doida por ficção científica e terror, mesmo, adoro! Tenho alguns autores que me influenciaram muito, como Neil Gaiman. Fiz até fanfics no universo de Sandman, antes de publicar coisas minhas. Também fui influenciada pelo Will Eisner (super clichê essa), Alan Moore, Frank Miller, Albert Uderzo, René Goscinny, Stephen King… nossa, são vários. Já dos personagens tem o Constantine (foi meu nick nos primórdios da internet), Zatanna, Batman (mais um clichê), os Perpétuos.

Como você começou a escrever roteiros? Eu escrevia coisas desde pequena. Pequenos contos, poemas (que são péssimos, hehehe). Mas quando eu li Sandman foi que me deu um estalo, era o roteiro de quadrinhos que eu queria. Aí comecei a buscar uma faculdade que me ajudasse nisso e acabei em Rádio e TV. Escrevi meu primeiro roteiro no corredor da faculdade. Aí, até achar um desenhista foi outra história.

Bom, vamos falar sobre o assunto do momento. Existe machismo no universo dos quadrinhos? Sim, com certeza. O machismo está dentro da sociedade de forma bem presente, e os quadrinhos acabam refletindo isso. Afinal, estamos condicionados dentro de um padrão do que é gênero, do que é um comportamento feminino e masculino. E os quadrinhos de heróis, por exemplo, buscam um "ideal" de homem e mulher e acabam reforçando isso. Como a maior venda é desse tipo de quadrinhos, acabamos achando que isso é um padrão.

Você esteve entre os 13% de mulheres indicadas ao Troféu HQ Mix e é um das únicas três mulheres vencedoras do prêmio em 2015. O que isso reflete sobre o espaço que as mulheres têm para produzir e consumir quadrinhos no Brasil? Infelizmente, não reflete uma realidade. Existem muitas leitoras e autoras de quadrinhos no Brasil. Porém, sofremos com uma invisibilidade muito grande. Por muito tempo ler quadrinhos era coisa de menino e coisas que meninos faziam. Já tinham mulheres fazendo, mas como a gente conseguia ver isso? Vou usar o meu exemplo. Quantas roteiristas mulheres eu via nas revistas que chegavam na minha mão, lá nos anos 80, no Mato Grosso do Sul? Muito poucas. Isso não quer dizer que não tinham mulheres fazendo ou que o trabalho delas não era bom. E se eu entendesse que aquele não era o meu lugar lá no começo por causa disso? Ter mulheres produzindo, incentivar que essas mesmas mulheres tenham visibilidade, ajuda a quebrar parte do machismo nas HQs e estimula novas meninas e entenderem que ali também é um espaço delas.

Depois de tanta polêmica sobre a campanha machista realizada pela organização do Troféu, como fui subir no palco e agradecer o prêmio? Eu estava muito nervosa. Quando ganhei o prêmio fiquei feliz, sabe? Era um reconhecimento de um trabalho de três anos, votado pelos colegas. Fazer webcomic no Brasil não é fácil. Com Beladona, eu e o Denis (Mello, desenhista do livro) não ganhamos nenhum retorno financeiro, fizemos por amor. Então, esse momento era muito importante. Depois da campanha machista do prêmio e de alguns comentários que rolaram, eu pensei seriamente em não ir. Mesmo tendo toda essa importância pessoal. Pensei isso, pois para mim não existe tal coisa como fazer arte e não pensar nas consequências disso. Temos um papel social importante como indivíduo, e deixar que certas coisas fiquem impunes, sem nenhuma reação, não é uma opção. Eu resolvi ir quando li o pedido de desculpas da organização e ao conversar com amigos que fazem parte do Troféu HQ Mix. Mas ainda sentia que tinha que falar algo, que acabaria falando não apenas por mim. E foi assim que aconteceu. Queria deixar claro, naquele palco, que o prêmio em si não perde a importância, mas que as autoras não vão mais se calar. Foi um momento emocionante.

 

Há muitas mulheres produzindo quadrinhos no Brasil hoje e a internet possibilita a publicação e divulgação desses trabalhos. Para você, é importante que essas mulheres estejam unidas? Por que? Com certeza, precisamos ficar unidas para acabar com essa ideia que não existimos. O Brasil é um país enorme e nem sempre é possível estar presente em todos os eventos. Então, como sabermos dessas autoras? Aí entra a internet! Saber que nós existimos, nos organizarmos para dar visibilidade ao trabalho e dar apoio uma a outra faz toda a diferença. Eu mesma não saberia o que dizer se estivesse sozinha e visto a campanha machista, talvez nem tivesse acontecido nada. E mais uma vez a dor da violência teria ficado impune. Quando estamos juntas e lutamos por algo somos mais fortes.

Você concorda com o termo "quadrinhos femininos"? Aliás, existe arte feminina? Eu tenho dificuldade de achar que exista alguma coisa feminina, que dirá arte! Essa ideia de que certa roupa é feminina ou certo jeito, corte de cabelo, são apenas formas de enquadrar as pessoas em um sistema opressor. Um tema que me interessa pode interessar um homem e vice e versa. Eu comecei fazendo a Patre Primordium, que é um quadrinhos com luta e poderes, e depois fiz Beladona, que é terror. Eu já ouvi muitas vezes que faço quadrinhos para homens. Não! Eu faço quadrinhos. Mulheres e homens podem ler e gostar do que eu faço. Colocar as pessoas em uma caixa e julgar tudo conforme esse parâmetro não é uma forma sincera de ver a arte.

Como surgiu a ideia de Beladona? Conte um pouco sobre a história. A ideia da menina assustadora já tinha me cativado quando eu vi o filme O Chamado. Tinha feito uma personagem de RPG com esse conceito dos sonhos, mas nunca joguei com ela. Aí, quando surgiu a oportunidade de fazer uma webcomic com o Denis, e eu tinha visto como ele trabalhava com a aguada, logo me veio essa ideia. Beladona é a história da Samantha, que desde muito pequena tem pesadelos terríveis. Trabalhamos com seu crescimento, desde os 7 anos até os 18, e como isso influenciou na vida dela. Além, claro, descobrir que esse terror não era por acaso (risada malígna). Quando comecei, eu queria fazer o prelúdio de uma anti-heroína. Acho que conseguimos.

Quais foram as suas referências para a criação desse roteiro? Uma das referências, em termos de arte, foi Will Eisner. Quando eu e o Denis criamos o conceito, estavamos em plena Rio Comicon, que tinha uma exposição dele. Ver aquelas páginas sem requadro nos inspiraram a como fazer os pesadelos. E, claro, no roteiro não tem como negar minha influência de Neil Gaiman.

Beladona primeiro fez muito sucesso como webcomic para depois ganhar uma versão impressa e um e-book em inglês. Falando de importância e alcance, qual a diferença em produzir para a web e para o impresso? Nossa, a web dá mais alcance por um lado, mas acabei descobrindo que existe um público consumidor no Brasil que só lê impresso e outro que só lê na web. Claro que existe uma interseção, mas não tem como ignorar os dois grupos. Não existe diferença do valor artístico entre web e físico. Ainda existe uma ideia que o impresso tem mais valor que o online. Talvez se avaliar o preço do papel e do envio (risos).  Ainda bem que essa noção está diminuindo. 

Você acredita que há espaço para um mercado de e-book de quadrinhos no Brasil? Sim, ainda não chegamos lá, mas existe. O público que lê no e-reader ainda é pequeno, mas acredito na tendência de crescimento.

Vocês financiaram o projeto de Beladona pelo Catarse, mas também firmaram uma parceria com a Avec Editora. Conte um pouco sobre isso. Um dos grandes gargalos no Brasil é a distribuição e o autor independente acaba tendo muitos problemas aí. Eu e o Denis sabíamos disso e eu chegamos a mandar o projeto para algumas editoras antes do catarse, mas queríamos fazer algo nosso. Afinal, foram três anos fazendo aquilo sem nenhum retorno. Na impressão, a gente queria do nosso jeito, até por isso fizemos por financiamento coletivo. Mesmo assim, tinha uma tiragem para enviar para as livrarias e comic shops, entrar em contato, fazer pagamentos de nota fiscal. A Avec entrou como uma grande aliada nessa parte. E tem sido uma bela parceria. 

Vai lá: http://petisco.org/beladona/ 


Entenda a polêmica sobre a campanha do Troféu HQ Mix: http://ovelhamag.com/a-treta-do-trofeu-hqmix-2015/

Em tempo: No último final de semana aconteceu o Ugra Zine Fest 2015, um dos principais eventos de quadrinhos e publicações independentes de São Paulo. No sábado, fui responsável pela mediação do debate "Machismo, representação e feminismo", que contou com a participação das cartunistas Camila Torrano, Laerte Coutinho e Sirlanney, e Luciana Foraciepe, criadora do Maria Nanquim. A plateia estava lotada e foi um encontro muito importante para a busca por mais visibilidade e reconhecimento do trabalho das mulheres que fazem quadrinhos no Brasil, além da luta pela quebra certos paradigmas machistas presentes não só na cultura pop, mas em muitos aspectos da nossa sociedade. Como disse Trina Robbins em sua visita a São Paulo no mês passado, é preciso que escrevam mais e mais sobre nós, mulheres, para sejamos sempre lembradas.  

*Gabriela Borges é jornalista e mestre em antropologia, especialista em história em quadrinhos. Diretora de conteúdo na Agência Pulso e criadora do Mina de HQ.

matérias relacionadas