por Giuliano Cedroni

Sonhos, lesões, liberdade sexual e excelência, tudo (muito) junto numa criação coletiva surpreendente. Conheça a vida dos artistas-atletas – ou atletas-artistas – do Balé da Cidade de São Paulo

A garota magra e musculosa é arremessada a cerca de um metro de altura acima dos braços de seu parceiro, roda sobre o próprio eixo e aterrissa com velocidade – algo parece dar errado e, enquanto ela se arrasta para um dos cantos da sala, lágrimas preenchem o seu rosto... Um homem negro e forte dorme quando sua perna inteira se dobra e trava num arco anti-natural. Para desarmar a violenta cãibra, fruto da extrema fadiga muscular, ele se joga no chão e acaba dormindo ali mesmo, exausto. Uma mulher de mais de quarenta anos entra num tonel repleto de gelo e submerge até o pescoço – ela urra enquanto faz caretas de dor, muita dor. Um homem estrangeiro senta-se no linóleo (espécie de tatame específico para a dança) com uma lista contendo trinta e seis nomes. Na mão uma caneta do tipo marcador. Junto aos nomes, retratos. Ele respira fundo e começa a rabiscar os retratos.

Todas as cenas acima aconteceram na sede do Balé da Cidade de São Paulo entre os meses de setembro e outubro de 2015. Foi ali que uma das companhias de dança contemporânea mais importantes da América Latina ensaiaram ADASTRA, uma peça original criada por Cayetano Soto, premiado coreógrafo catalão. Difícil, no entanto, definir quem criou exatamente o quê. Após semanas registrando esse processo criativo com a Pródigo Films para a série documental Work In Progress - Por dentro do Balé da Cidade (direção de Diego de Godoy e estreia dia 25/03, no canal ARTE1), me dei conta de que estava diante de um gênero criativo único e moderno – a companhia seguia as diretrizes do coreógrafo, mas a criação era absolutamente coletiva, uma vez que ADASTRA não existia ainda, estava sendo criada e ensaiada ao mesmo tempo.

Pensamento clássico # contemporâneo
Fazer parte do corpo de bailarinos do BCSP é uma conquista. São trinta e seis homens e mulheres de extremo talento que dedicaram boa parte de suas vidas para chegar àquele seleto grupo. A caçula da trupe tem vinte e dois anos, enquanto a mais velha está com quarenta e quatro e consegue realizar manobras que muitas de suas colegas nem tentam. “Dançar é movimento”, reforça Iracity Cardozo (71), atual diretora artística da companhia. De balé e BCSP Iracity entende, uma vez que ali dançou como bailarina além de participar ativamente da maior revolução do grupo. Foi seu ex-marido, o coreógrafo Antônio Carlos Cardozo, que liderou a ruptura do então balé clássico da companhia para o contemporâneo, uma luta aguerrida e, porquê não, política.

Muitos dos bailarinos começam no clássico, como é comum na cultura brasileira importada da européia, para só depois se enveredarem ao contemporâneo. “São artes completamente diferentes, com sentidos diferentes, outras liberdades e que também representam o antigo conflito do velho com o novo”, defende uma das mais jovens bailarinas da companhia. Assim como suas colegas, ela também vive diariamente todas as emoções de quem tem algo a dizer com a arte através de um coletivo. E que belo coletivo. Esses belos corpos passam o dia inteiro ensaiando juntos, trocam o suor a cada toque, não têm pudor para encarar posições corporais que outros civis morreriam de vergonha, se trocam, dormem, choram e riem juntos. Quando saem pra balada, pasmem... juntos de novo. Muitos casais foram formados ali, dissolvidos, para se formarem novamente ali – mas com uma outra composição.

O machismo não tem vez nos corredores do balé, assim como o preconceito em geral tem pouca margem para se manifestar. Já a questão da maternidade é comum a todas as mulheres: “É muito difícil decidir parar a carreira para ter um filho, pois seu corpo vai perder o ritmo naquele ano e meio de pausa. E é comum bailarinas não conseguirem retomar depois...”, desabafa, com preocupação, uma bailarina que ruma para os quarenta anos. Em toda a companhia apenas uma delas tem filho.

Arte salva
Enquanto Cayetano leva os bailarinos ao extremo de suas forças, físicas e emocionais, me dou conta de que se trata de uma estirpe rara de atletas. “Esse é o ponto mais complexo: são atletas de performance e artistas... Não têm a disciplina de um nadador de ponta e têm a sensibilidade de um músico”, me conta uma das fisioterapeutas que cuida da saúde física da companhia. Ela explica que o nível das lesões é altíssimo, como uma subluxação anterior de quadril que uma das bailarinas sofreu, algo raríssimo na ortopedia moderna. O corpo precisa estar forte, magro e curvilíneo, mas muitas vezes os movimentos precisam ser graciosos e delicados. Quase uma contradição.

Ao final do processo criativo de quase cinco semanas ADASTRA vai tomando forma, e de maneira original e lúdica, mas com uma técnica de impressionar até os leigos. Há quem diga, no staff da companhia, que é a peça mais difícil já encenada. Percebemos no movimento dos duetos “frases” sobre a cada vez mais difícil arte do encontro, já nos atos em grupo surge um discurso mudo porém potente, como um manifesto vigoroso. Repleto de simbologias e subtextos, a peça arrancaria aplausos e críticas efusivas em sua turnê pela Europa, que aconteceu no início desse ano.

Mas ainda estamos na pré estréia, em São Paulo. Cayetano Soto está mais calado que o normal, não disfarça o seu nervosismo. Já os bailarinos estão exaustos, machucados e ansiosos. O teatro está lotado. A luz se apaga e a cortina sobe... Ao final da sessão do primeiro episódio da série para os próprios bailarinos, sou eu quem perco o fôlego. Eles estão felizes. E eu feliz com o sorriso deles. Merda!

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