por Francisco Bosco
Tpm #145

O escritor Francisco Bosco sobre o processo de criação de sua mulher, Antonia Pellegrino

O escritor Francisco Bosco conta como a mulher, Antonia Pellegrino, conseguiu juntar o agito da vida com o caminhar moroso da produção literária, criando assim o livro Cem ideias que deram em nada, que ela lança este mês

Na primeira noite em que saí com Antonia, estávamos já meio bêbados, andando pela calçada no caminho entre um bar e outro, quando ela, do alto do salto e toda elegante em um vestido Missoni, parou meio trôpega na frente do retrovisor de um carro decadente, desses que não passam em vistoria, e retocou o batom vermelho. A operação durou três segundos e quase dez anos, pois nunca me recuperei do nocaute de admiração por esse high-low estético-etílico que levei naquele instante.

O que intuí naquele momento só fui compreender nas semanas e meses seguintes, quando ela me levou para o Faena, me aplicou o Cidadão Instigado (e ainda era amiga do Catatau), me apresentou o Maní e me fez conhecer Moreré, bem antes da invasão paulista: aquela era uma mulher contemporânea. Para um rapaz desde cedo imerso em Homeros, Stendhais e que tais, foi um choque e tanto.

Um dos traços dessa contemporaneidade era a relação com o trabalho. Aos 26 anos, Antonia já escrevia novelas para a Globo, publicava textos em jornais e revistas, fazia mil coisas e negociava contratos com a habilidade de um camelô turco. Justamente, confirmando o princípio de que as virtudes e os defeitos, os problemas e as soluções provêm de um mesmo núcleo originante, toda essa produtividade, fragmentada e quase sempre imediata, revelar-se-ia uma pedra no caminho do seu desejo de escrever um livro. Pois o tempo da literatura é diferente do tempo deste mundo. A sua experiência do contemporâneo é outra.

Alguns dos traços marcantes do nosso tempo são a exigência permanente de produtividade, a fragmentação, os tantos projetos irrealizados (por falta de tempo ou orçamento). Contemporânea que é, Antonia os vivenciou intensamente nesses anos. E, por isso mesmo, nada de livro. O pulo do gato se deu quando ela conseguiu fazer coincidirem o tempo do mundo e o da literatura, o estar presente e o passo atrás – pois é exatamente isso esse seu Cem ideias que deram em nada: um livro contemporâneo, uma forma que revela o sentido de nosso tempo.

Por um processo de reciclagem conceitual, o fragmento, recontextualizado, ganhou unidade; os projetos irrealizados se tornaram, dentro dessa outra lógica, partes de um todo realizado; os fracassos, na vida e na arte, foram ressignificados em sucesso (o sucesso da forma e do prazer da escrita). Do lixo ao luxo. Como no célebre Carnaval de Joãosinho Trinta, a xepa, o roto e o bagaço viraram alegoria. Dez, nota dez para o desfile de estreia de Antonia Pellegrino.

 

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