O dia em que envelheci

por Bruna Bopp
Tpm #125

Dez mulheres revelam quando perceberam que não eram mais (tão) jovens

Preguiça de sair, um passeio de bicicleta interrompido, a perda de tesão, o primeiro filho... Ninguém se prepara para esse momento, que chega sem avisar. Dez mulheres revelam quando perceberam que não eram mais (tão) jovens

 

“Percebi que envelheci quando empaquei na ponte do Brooklyn, este ano. Tirei férias, e estava nos meus planos dar um rolê de bike por Nova York – hábito que adotei nas últimas viagens. Dessa vez, ia realizar uma vontade antiga: atravessar a tal ponte. Saí do sul da ilha e em 15 minutos já estava no pé da ponte, sem uma gota de suor. No início, de tão empolgada com a paisagem, nem senti a inclinação. A cada pedalada, a respiração ficava mais ofegante. Diminuí o ritmo. A dificuldade passou para as pernas. Forcei mais um pouco até alcançar o meio. E parei. Exausta. E surpresa com a minha performance – ou, melhor, com a falta dela.

Que decepção! Não sou sedentária: pratico pilates, caminho, faço musculação. Mas não foi suficiente. E se fosse há dez anos? A pergunta caiu como um raio. E veio a sentença fulminante: ‘Tô ficando velha’. Aceito. Aceito?

Nisso, vem vindo uma senhorinha, de bicicleta, com um lindo coque grisalho, toda ligeira. Em segundos me dei conta do que era envelhecer de verdade. Não me aflige ter cabelos brancos, ganhar rugas, perder a elasticidade da pele. Para mim, envelhecer é parar no meio do caminho. Tanto no sentido físico quanto no metafórico. E ainda quero atravessar muitas pontes de bicicleta. Sorrindo.” 

 

“Não teve uma hora específica, mas dois momentos marcaram minha velhice. Um foi quando fiz 51 anos e me perguntavam como era, como se fosse para ser muito ruim, e eu dizia: ‘Ruim é o caralho, 51 é uma ótima ideia’. O segundo momento foi aos 60, quando eu parei de menstruar – e parei tarde – e perdi de vez o tesão. Para mim, não ser mais escrava do desejo sexual foi uma libertação. Poucos meses depois disse ao meu então marido, 27 anos mais novo: ‘Acho melhor a gente não morar mais junto’.” 

 

“Voltei a jogar e não podia treinar como sempre treinei. Foi nesse dia que senti que o tempo passou. No momento que meus joelhos doeram e eu não consegui mais fazer aula localizada, correr e muitas coisas que gostava de fazer. Não fiquei triste, mas decepcionada. Por ser jogadora, sempre tive uma pressão interna, pois sabia que conseguiria jogar, mas não com os problemas físicos que o esporte de alto nível normalmente deixa. Hoje penso que é a cabeça que não pode envelhecer. A vida começa aos 40!”

 

“Esse dia nunca chegou! Se chegar, o estarei esperando com a mesa posta. Que me traga pelo menos flores e uma garrafa de champanhe. E, depois, que ele jante comigo, que saia pela mesma porta que entrou. Sou feliz sem ele. Não vejo orgulho nos cabelos brancos ou nas rugas. Minhas marcas trago na minha sabedoria e no conhecimento que fui adquirindo nas 24 horas diárias. Minha vida é de conquistas. Minhas glórias não são enrugadas ou grisalhas. São todas jovens e cada uma mais jovem que a outra. Todo dia é uma conquista.” 

 

“Notei que estava diferente quando chegou uma sexta-feira à noite e me deu preguiça de sair. Tinha uns 32 anos. Mas existiram muitos primeiros momentos. Um, quando um rapaz me chamou de senhora e eu deixei. Outro, aos 40, quando engordei de um jeito definitivo. Quando você sente que envelheceu, assume e pronto, parece que quitou dívida. Aí, de repente, percebe que envelheceu de novo. Essa sensação da primeira vez parece constante. Não tem nada de racional. É instintivo. Seu comportamento muda e você passa a respeitar suas novas ideias e seu corpo.” 

 

“Fui percebendo ao longo do tempo a idade chegar. Acho que a mudança vem naquela hora que você não troca mais a sua cabeça por nenhum corpinho jovem. Amadurecer não mudou muito a minha vida no geral, só perante o sexo masculino [risos]! Aqui no Brasil existe essa cultura de os homens quererem exibir que conseguiram uma mulher muito mais jovem do que eles. Daí, as da minha idade não têm a menor chance se estiverem sozinhas. Não sou contra envelhecer e cercar-se de pessoas mais novas. Só há que se achar jovens de bom gosto. 

 

“Descobri minha primeira ruguinha aos 30 anos, alguns cabelos brancos aos 40 e a partir daí entreguei para Deus. Antes, fiz alguns reparos, sem exageros. Eles me ajudam a tirar o peso dos meus muitos anos já vividos, para que não fique defasada a simbiose entre a eterna teenager que existe dentro de mim e a velha cigana centenária que há muito me ensina a viver.” 

 

“Foi no momento em que me tornei mãe, aos 23 anos. Entendi que a banda tocava de outro jeito. Amadurecer é isso. Perceber que o mundo existe, que a gente não controla tudo. Mas o tempo foi muito bom comigo, foi meu amigo. É óbvio que a questão física pega. E para mim está começando a pegar agora. Comecei a Cia. [de dança Deborah Colker] aos 33 anos e me sentia vigorosa, jovem de espírito. Literalmente, corri atrás das coisas desde então. Subia na parede até dois anos atrás. Agora, não dá mais, mas também não quero. Então, esse impedimento físico não veio com pesar. Acredito que a juventude é uma questão de energia e de vigor, e não de pele ou de ruga. Botox, plástica não adiantam. O corpo vai se decompondo e se modificando. O que mantém jovem é a ação. Isso você pode perder fisicamente, mas não enérgica ou mentalmente.” 

 

“Nunca percebi que amadureci. Esse processo do envelhecimento é uma questão do momento que você está passando. Bem de saúde, com trabalho e cheia de obrigações, não tenho tempo de parar e realizar essas coisas. Às vezes me assusto quando lembro que tenho 90 anos – aliás, quando me lembram, porque eu mesma não penso nisso. Confesso que não senti essa metamorfose.” 

 

“Envelhecendo... é isso mesmo, no gerúndio. Envelhecer é a primeira maravilha do mundo! Tudo começou na segunda metade dos 40. A pele mais fina, cheia de rugas pequenininhas e pintinhas brancas (senilidade). Minhas mãos são magras, o que deixa as veias mais presentes e as mãos mais velhas. Estou quase certa de que serei toda talhadinha lá pelos 70. Puxa, falta pouco! O pescoço talvez tenha me impressionado mais; é uma pele mole e ruguenta que vai aparecendo. As pálpebras caídas não pesam, mas já não permitem a maquiagem que gostaria. Fica meio borrado. Prepare-se: a pelanca da barriga cai por sobre o corte da cesárea. Não há abdominal que segure! Mas meu marido me ama e ponto, dane-se a pelanca. O peito é a parte que me dá mais orgulho! Os quatro mamaram! E o meu peito é campeão e ainda olha para cima! E eu aqui impressionada com esta narrativa ladeada pelo meu melhor sorriso.”

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