por gabriel monteiro

Ficar pelado pode ser um ato revolucionário. Estamos expondo publicamente cada vez mais nossos corpos e, assim, nos apropriando de sua potência

Caso fosse adaptada para os dias de hoje, a icônica peça Toda Nudez Será Castigada (1965), de Nelson Rodrigues, precisaria ser reformulada. Ou, pelo menos, receber outro título. Uma pesquisa do grupo McCann sobre os millennials indicou que 25% dos indivíduos nascidos entre 1981 e 1997 já enviaram um nude ou uma mensagem de teor sexual pelo celular (o que, em inglês, corresponde à expressão sext). O que parece significar que essa geração se sente mais à vontade com o corpo e com a própria sexualidade.

“Os modos de lidar com a nudez estão mudando”, confirma a pesquisadora argentina Paula Sibilia, radicada no Rio de Janeiro e que estuda as relações entre corpo, tecnologia e mídia. “Isso acontece em sintonia com um conjunto de transformações históricas que vêm se desenvolvendo nas últimas décadas. A mudança não foi causada pelos dispositivos tecnológicos e pelas redes sociais, mas, sim, intensificada e colocada ainda mais em evidência por eles.”

A mudança de comportamento vem se mostrando não só nas linhas do tempo do Instagram e do Facebook, como também em um novo filão de zines e publicações independentes que são dedicados ao nu. Porém, diferentemente do que acontecia em gerações passadas, imagens do corpo despido, hoje, servem a causas como feminismo e visibilidade LGBT.

“As pessoas ficam nuas hoje por uma questão política”, afirma o artista visual Alef Ghosn, 24 anos, criador do zine Mastangelox, que publica imagens de homens gays nus. “A nudez não significa que a pessoa está desarmada. Muito pelo contrário. O fato de ela estar nua e os motivos que a levaram a se despir são exatamente as suas armas”, interpreta.

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“Fotografo pessoas entre 19 e 27 anos que veem a nudez como uma forma de libertação”, continua Ghosn. “Hoje entendemos melhor que um corpo nu não está necessariamente disponível nem precisa ser associado ao sexo.” De acordo com Sibilia, essa mudança de perspectiva vem sendo impulsionada desde os anos 1960 e 1970, graças aos movimentos de contracultura que geraram transformações políticas e socioculturais. “É bom lembrar que as imagens corporais e a sexualidade sempre estiveram no âmago deste turbilhão”, salienta.

Apesar da secularização – processo no qual a igreja passou a exercer menos influência na esfera social, a partir do século 19, no mundo ocidental –, a forma como lidamos com a nudez ainda carrega traços da moral cristã, sobretudo de uma ética protestante, marcada pelo puritanismo. “De acordo com essa visão, a nudez e a sexualidade são entendidos como aspectos fundamentais da vida, mas que devem ficar preservados, longe do âmbito público. Tanto as imagens de nudez como as práticas sexuais devem ser protegidas pelas sólidas paredes e pelos rígidos pudores do lar, ou seja, no decoro do espaço privado que contém a intimidade. Ou, então, em certos nichos considerados sórdidos, proibidos e obscenos, tais como a prostituição e a pornografia”, aponta Sibilia.

“Agora temos conosco, o tempo inteiro e em todo lugar, um aparelho com câmera, tela e conexão constante com muita gente. E que usamos, entre outras coisas, para divulgar imagens da própria nudez e até para exercer o erotismo de modos que teriam sido impensáveis pouco tempo atrás.”

Numa realidade aparentemente mais livre como esta, surgem revistas com a proposta de desconstruir padrões. No caso de Alice Galef, 34 anos, e Letícia Gicovate, 37, este debate é feito a partir da Nin, uma publicação anual fundada por elas próprias. “Mesmo que tenhamos nascido em um ambiente familiar bacana e artístico, ninguém conversava com a gente sobre corpo e sexualidade”, comenta Alice. “Foi da necessidade de pesquisar mais e conversar sobre esses assuntos que tivemos a ideia de construir uma revista rica visualmente, que abordasse política, filosofia, arte, corpo e sexualidade”, enumera.

Expor o corpo hoje significa então abordar o que ele representa socialmente, quando isso é raramente discutido no ambiente familiar e escolar. De acordo com o artigo Como as escolas educam corpos nas práticas pedagógicas, de Alfrancio Ferreira Dias, professor de sociologia da Universidade Federal de Sergipe, “homens e mulheres, através de suas trajetórias familiares, escolares e sociais, são ensinados a anularem a representação dos seus corpos, com o pressuposto de que a sala de aula não é um espaço para isso”.

Para Alice, que acaba de lançar uma nova edição da Nin com a atriz Debora Nascimento grávida e nua na capa, as novas gerações estão quebrando padrões. “Com a internet, é muito mais fácil encontrar informações sobre body positive [movimento que defende uma atitude positiva com relação ao próprio corpo, independentemente dos padrões estéticos]. Nesse sentido, a nudez é um ato político forte. Quando as pessoas se expõem, elas mostram a maneira como querem ser vistas. E isso é poderoso”, diz Alice.

A fotógrafa Céu Ramos, de 27 anos, é criadora do projeto Porelas, que ganhou forma, em 2016, depois que Céu enfrentou uma depressão, justamente por não aceitar o próprio corpo. Ela nasceu com hiperplasia adrenal congênita e foi submetida a altas doses de testosterona e a uma cirurgia mutilatória na genitália, ainda na infância. Hoje, ela luta contra esse tipo de intervenção sem consentimento. “Vi mulheres como eu, que também não conseguiam lidar bem com o próprio corpo, e decidi criar esta ação para fotografá-las nuas e mostrar que elas podem se amar muito também.”

Afinal, todos nascemos nus e um indivíduo jamais deveria ser recriminado por retornar ao seu estado natural. “Com vergonhas tão nuas, que não havia nisso desvergonha nenhuma”, escreveu Pero Vaz de Caminha, no ano de 1500, em sua célebre "Carta do achamento do Brasil".  E não há mesmo de haver. 

Créditos

Imagem principal: Nin Magazine/Lele Vomi/Divulgação

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