Mulher de esquerda

por Fred Melo Paiva
Tpm #83

Com 25 anos e 12 longas, Alice Braga conta à Tpm como não se deslumbrou coma fama...

aixa, rosto assimétrico, peitinho, bundinha: Alice Braga não é exatamente bonita nem perfeitamente gostosa. Aos 25 anos, com 12 longas-metragens na bagagem, ela já provou que perfeição não é documento – e que tem talento e personalidade de sobra

 

Tem um mistério na sensualidade da Alice Braga: não se sabe de onde ela vem. É um tipo de constatação que pode parecer deselegante, visto que se aplica com mais freqüência àquela categoria de mulheres que nós, pobres animais com trombas, classificamos como canhões. Evidentemente que a Alice não se encaixa nesse padrão bélico de beleza, muito pelo contrário. Ainda assim sua sensualidade tem esse mistério original. Se ela tivesse o crumbiano bundão, por exemplo, de uma Rosana Jatobá (a mulher do tempo), poderíamos cravar: é da retaguarda que vem a luz. Mas esse não é o seu caso. Também o rostinho, lindo, não pode ser inteiramente responsabilizado pelo fato de a Alice Braga ser tão sensual. Isso porque ele não passa no teste da cara metade. Faça você mesmo: com uma folha de papel, esconda metade do rosto da Alice. Visualize bem. Repita com o outro lado. Vai ver que uma parte é diferente da outra, sendo a da esquerda muito mais bonitinha que a da direita. Pessoas verdadeiramente bonitas, homens ou mulheres, têm metades de rosto iguais, é o que reza esse controvertido Inmetro facial. A Alice, podemos dizer, é uma mulher de esquerda.

A mulherada, essa raça superior, dirá ser a sensualidade um atributo que paira acima do quadril e até mesmo do busto. Sei, sei... O segredo da Alice Braga, então, seria um só: com 1,62 metro, estamos diante de uma mulher superpoderosa, o que por si só desperta nos outros um frio na barriga. Verdade que superpoderes conferiram a Margareth Tatcher, Condoleezza Rice e Dilma Roussef a sensualidade de uma porta. Mas quem são as três damas diante da Alice Braga, que fez Cidade de Deus logo na sua estréia? Ave-maria uma coisa dessa! Podia se aposentar como um J. D. Salinger, autor de um livro só e por cima da carne-seca. Não se bastando com isso, no entanto, ela fez também Ensaio sobre a Cegueira, Cidade Baixa, O Cheiro do Ralo e meia dúzia de produções internacionais – em Eu sou a Lenda, contracena com Will Smith. Na edição de março da Vanity Fair, ela aparece na segunda parte da capa tripla da revista americana como uma das dez “fresh faces” de Hollywood. A foto é de Annie Leibovitz, a melhor e mais famosa fotógrafa do mundo. Então está resolvido: além de ter mãos (e, por isso, supostamente pés) muito bonitas (além dos cabelos), Alice Braga é sensual porque é muito fodona, é muito fodona porque é sensual. E por aí vai, constituindo-se assim uma bola-de-neve.

Aquela menina, a Lili
Aos 25 anos, Alice acaba de filmar Cabeça a Prêmio, baseado em livro homônimo de Marçal Aquino. É seu 12º longametragem, além de dois curtas e apenas um programa de TV – Carandiru, Outras Histórias, de 2005. Cabeça a Prêmio reservou para Alice, bem, um prêmio: sua mãe de verdade, Ana Maria Braga, vem a ser a progenitora também na película dirigida por Marco Ricca. Ana é atriz de teatro desde os 14 anos, tendo atuado sobretudo em musicais – fez, por exemplo, Ópera do Malandro, a peça de Chico Buarque encenada com grande sucesso em 1978. A bem da verdade, já tinha pendurado essa chuteira fazia muito tempo. Foi novamente escalada quando o Marco Ricca se deu conta de que o Fulvio Stefanini era por demais branco e de olhos azuis para ser, em carreira solo, o pai da Alice (segundo a própria, “neguinha, morena e baixinha”). Sendo necessário encontrar uma mãe com tais características, convocou-se então a Ana Maria Braga – que, melhor esclarecer para não queimar o filme, nada tem a ver com a Ana Maria Braga da televisão, cujo parceiro é um papagaio, fazendo supor que cada um tem o Fulvio Stefanini que merece.

Foi com Ana Maria Braga, a mãe, que Alice trabalhou como atriz nas primeiras vezes. Ana, que tinha abandonado os palcos, tornou-se uma respeitável profissional de propaganda, dirigindo inúmeros filmes comerciais. E começou a levar a Alice, então com uns 5 anos de idade, para os sets de filmagem. Nos lendários estúdios da Companhia Vera Cruz, transformados em uma grande floresta, a pequena Alice Braga pôde assistir ao vivo às atuações de Ronald McDonald – coadjuvado por seu Sancho Pança, o esquecível Papa Burger. Muito extrovertida, falando pelos cotovelos (é assim até hoje), foi sendo introduzida aqui e ali, em pontas nas propagandas de TV. Fez comerciais de Neston e da C&A. Mais tarde, sob a direção de Fernando Meirelles, gravou um anúncio da Intelig. Na semana seguinte, precisando formar uma família para o açúcar União, Meirelles ordenou: “Chama de novo aquela menina, a Lili”. Não seria a primeira vez que o diretor se lembraria dela. Dentro de um táxi no Rio de Janeiro, conversando com a maquiadora Ana Van Steen, os dois trocavam idéias sobre a formação do elenco para Cidade de Deus. Meirelles procurava alguém para fazer o papel de Angélica, a gatinha disputada por Buscapé e Bené, o traficante gente fina. “Aquela menina”, disse ele. “A Lili.”

Não apenas o Meirelles e a Ana Maria Braga transformaram a Alice na atriz bem-sucedida que ela é hoje. Nisso aí vai uma longa tradição: Alice é apenas mais uma artista numa família de artistas. Sônia Braga, ela mesma, é sua tia, irmã da Ana Maria Braga. Falemos disso depois. Uma outra tia trabalha com música. Uma prima, Dani Braga, sobrinha da Ana em primeiro grau, é diretora de A Grande Família e assistente de direção do longa Madame Satã. Há um outro primo que é músico. Um tio é artista plástico. Sua irmã, que foi estudar direito internacional na Austrália, voltou com um diploma, mas do curso de cinema. Mesmo o pai, o jornalista Ninho Moraes, é um apaixonado pelas produções literárias e cinematográficas, de forma que a Alice “não poderia realmente ter saído uma economista”.

É tudo culpa da avó

A culpada de tudo isso é a mãe da Ana Maria Braga, a Zezé Braga. Foi ela que iniciou esse flerte da família com o universo da arte. Costureira, fazia também figurinos para peças de teatro, sendo muito conhecida na cena cultural da cidade. Foi a dona Zezé que vestiu os personagens de O Beijo da Mulher Aranha, que mais tarde viraria filme sob direção de Hector Babenco e, veja como são as coisas, com a Sônia Braga no elenco. O marido da Zezé, por outro lado, não tinha nada de artista. Mas sobrava a ele inventividade. Nascido em Penedo, interior de Alagoas, o avô da Alice foi o escolhido pela família para fazer faculdade em Salvador. Como eram todos muito pobres, ele deveria se formar em medicina e depois ajudar os outros, ou seja, os nove irmãos. Fizeram uma vaquinha e ele foi. Lá chegando, porém, teve uma idéia: “Para que fazer um curso de medicina se eu posso abrir uma fábrica de panelas?”. De fato. E assim nasceram as panelas Penedo, onde cada um de nós já cozinhou o seu miojo. O lance é que o marido da Zezé morreu cedo e as filhas tiveram de ir à luta, tendo a Sônia Braga ficado pelada em Hair tão logo chegou à maioridade. A Alice Braga talvez já esteja cansada das comparações com a sua tia – mas “não, sabia que não?”. Então tá. Você tem o corpo parecido com o da Sônia Braga? “Acho que não. Eu sou mais mignon.” A Sônia é mais gostosona? “A Sônia tem mais coxa.” Ela é a primeira a vender lá fora essa imagem da brasileira com quadril largo, bumbum... “Engraçado, no meu primeiro filme gringo, Eu Sou a Lenda, estava tão magra que pesava 46 quilos. Não tinha bunda nem peito. Ou seja, eu sou a brasileira que não é brasileira.” Não apenas as medidas diferem a Sônia da Alice. Por não ter feito quase nada de televisão, a Alice não se sente famosa. Nas poucas vezes em que é abordada com um pedido de autógrafo, nunca sabe direito o que escrever. No arremate do texto, é acometida sempre pela dúvida: “Beijos, beijo grande ou boa sorte? Sei lá”. Embora reconhecida em Hollywood, essa Alice sem fama tem a vantagem de continuar a mesma: vive em São Paulo, torce (de verdade) para o Palmeiras, prefere o cheese salada do Hamburguinho e só escuta rock. Ficou apenas mais sensual, não se sabe por quê.

ESTILO RENATA CAMPOS MAQUIAGEM EMERSON MURAD (ABÁ MGT) ASSISTENTE DE FOTO BRUNO VIEIRA VESTIDO FERNANDA NIEMEYER BRINCOS TALENTO JÓIAS

 

 

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