por Milly Lacombe

”Testemunhei uma mulher gozar por quase 15 minutos, um acontecimento lindo e perturbador”, diz Milly Lacombe em seu relato sobre o tantra

Eu tinha 16 anos quando vi uma mulher gozar. Ela era minha namorada, a primeira pessoa com quem fiz amor na vida, e naquela época ela e eu pouco sabíamos a respeito do sexo. A pornografia não era popular como hoje, não existia YouTube, as cenas de sexo na TV e no cinema eram raras, e bem menos gráficas do que as atuais. A falta de repertório e de conhecimento sexual foi o que nos salvou. Como não sabíamos o que era “certo” ou “errado”, o que “podíamos fazer” e o que “não podíamos fazer”, como não estávamos mergulhadas numa lógica fálica, ou no universo falo-centrado dos filmes, nos permitimos experimentar tudo; testar, explorar, navegar pelo corpo uma da outra.

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Os anos se passaram, minha lesbiandade me fez ver outras mulheres em êxtase, mas nada me preparou para aquela tarde de sábado em novembro do ano passado quando testemunhei uma mulher gozar por quase 15 minutos, um acontecimento igualmente lindo e perturbador. Lindo porque o prazer feminino é o mais belo e arrebatador dos prazeres, e perturbador porque meu ego gritava descontrolado e humilhado: “esse gozo tão enorme e sem fim não teve a sua participação”. Eu estava num curso de sexo tântrico e quem fazia a sortuda gozar era a instrutora, e escritora, Carol Teixeira.

Até aquele abençoado sábado eu não sabia que uma mulher podia gozar por tanto tempo sem parar, muito menos ejacular da forma como eu a vi ejacular. Mas Carol explicou que quase todas nós somos capazes de ejacular. Nossa ejaculação, ao contrário da deles, é líquida e transparente: praticamente água, enfim. Enquanto meu ego me surrava dizendo debochadamente que eu era a pior lésbica do mundo por nunca ter visto uma mulher ejacular, Carol explicava que a ejaculação feminina, ao contrário da masculina, não decreta o fim do prazer - como de fato eu vi acontecer bem ali na minha frente.

Para levar a menina ao êxtase que durou 15 minutos Carol fez uma massagem clitoriana com óleos cujo objetivo era o de “tirar” o clitóris de seu casulo porque, assim como o pênis, ele cresce quando estimulado. “Durante a masturbação, com a pressão, a gente acaba ‘enfiando’ o clitóris para dentro, mas ele precisa ser estimulado na direção contrária”, ela explicou. Depois disso, com a aluna em pleno gozo, Carol usou um vibrador para mantê-la naquele estado. Foi quando eu a vi ejacular. Nessa hora minha completa ignorância e eu chegamos à conclusão de que o vibrador era hidráulico e tinha estourado (não há, pelo que sei agora, vibradores hidráulicos ou limite para minha ignorância). Mas era muito líquido que eu via sair dela e foi a única explicação que consegui encontrar até que Carol disse que a ejaculação feminina é bastante comum, ainda que pouco comentada.

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Tudo a respeito do nosso prazer é mistério. A medicina e a ciência pouco sabem sobre as formas que uma mulher atinge o êxtase, a ejaculação é a última fronteira de todos os tabus que envolvem nosso prazer. Sociedades patriarcais não estão muito preocupadas com necessidades e direitos femininos, como sabemos, e o gozo da mulher é a menor das curiosidades. Mas há alguns estudos que mostram que o líquido que acompanha o gozo feminino vem da bexiga, produzido por uma pequena glândula que fica no canal da uretra, semelhante à próstata só que menor, mas que ele não é urina. “Antes de ejacular a mulher sente uma espécie de vontade de fazer xixi”, explica Carol. “E muitas vezes ela tranca a vontade achando que vai urinar no meio da transa, evitando assim ejacular sem nem mesmo saber que está fazendo isso. Durante a massagem, com o estímulo de pontos muito específicos da vagina, a mulher perde o controle e não consegue mais trancar a ejaculação”.

“ O sexo, conforme nos falaram a respeito dele ao longo dos anos, não tem nada a ver com o sexo como ele deveria ser”

A ejaculação feminina é um tema tão perturbador para a sociedade que há indústrias pornográficas inteiras, como a inglesa, que decidiram em 2015 que a ejaculação feminina era demais e proibiu que imagens assim fossem mostradas nos filmes. Na pornografia inglesa vale misoginia, abuso, machismo, mas não me venham com ejaculação de mulher porque isso é assustador.

O sexo, conforme nos falaram a respeito dele ao longo dos anos, não tem nada a ver com o sexo como ele deveria ser. Corpos humanos são capazes de alcançar infinitos níveis de prazeres, assim como, quando devidamente estimulados, capazes de expandir consciências, e o sexo como o conhecemos pelas revistas, pelos filmes e pela pornografia misógina e machista é apenas limitante, cruel e empobrecido.

O curso que fiz estava lotado de mulheres (16 no total, e todas, menos duas, se definiram como heterossexuais), de idades que variavam entre 20 e 52 anos, bastante dispostas a aprender a respeito do sagrado direito ao gozo, ao corpo, ao prazer. Se por anos nosso prazer foi considerado um detalhe para a sociedade, ou até histeria, se a vagina ainda é aquele órgão pouco estudado e conhecido pela medicina (ao contrário do pênis), se a palavra buceta ainda causa espanto (ao contrário de pênis) já não importa mais: a mulherada não aceita nem um tom a menos do que o prazer completo e irrestrito. E, para chegar lá, a sororidade pode ajudar. 

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O método que Carol desenvolveu para abordar o tantra leva o nome de “I Love My Pussy”, ou “Eu amo minha buceta”. Percebendo que, assim como ela, havia um enorme contingente de mulheres dispostas a gozar o gozo mais profundo e significativo que se pode alcançar, Carol foi estudar o tantra, fez cursos, adquiriu conhecimento e técnica, aprendeu a fazer a massagem tântrica e desenhou as aulas.

Dias depois do curso, Carol fez em mim a massagem tântrica - e eu me vi na grata situação da menina do curso, que gozou sem parar por muitos minutos. O clitóris, esse encantado mundo dos prazeres femininos, pode muito mais do que eu supunha. Carol explicou que as ramificações nervosas do prazer feminino são diferentes para cada uma de nós, ao contrário da masculina, que está desenhada de uma mesma forma em todos os homens, que por isso gozam sempre de maneira semelhante: ou com a fricção do pênis, ou na próstata. Já a mulher pode gozar de mil maneiras diferentes: em muitos pontos da vagina, no clitóris, nas cercanias do clitóris, no ânus…

“O clitóris, esse encantado mundo dos prazeres femininos, pode muito mais do que eu supunha”

O tantra é uma espécie de consciência nova a respeito de nossos corpos, e do corpo do outro ou da outra. Não é o prazer pelo prazer, ou a simples indulgência sexual, mas a abertura de um portal de percepção, quase uma meditação, um transe.

Ao final da massagem que recebi, depois de quase duas horas e ainda deitada na sala à meia-luz escutando “Por Una Cabeza”, de Carlos Gardel, tocada magnificamente no piano por Rogerio Koury, comecei a chorar. Não chorava de tristeza, chorava de emoção enquanto pensava nas mulheres com as quais me deitei e fiz amor. Ter acesso ao corpo de outra pessoa é um acontecimento sagrado, e, como tal, deve ser reverenciado. Se estamos nessa aventura terrena para aprender a amar é importante que aprendamos de uma vez por todas a fazer amor, e a ver o amor em todas as coisas.

Vai lá: acesse o Instagram de Carol Teixeira para mais informações do curso e da massagem tântrica.

Créditos

Imagem principal: Camila Fraga/Divulgação

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