por Mariana Caltabiano
Tpm #107

A cineasta Mariana Caltabiano conta os bastidores da história que deu um filme


Eu trabalhava na DM9 como redatora publicitária quando comecei a me interessar pela produção dos filmes que criávamos na agência. Em 1995, fui estudar cinema na School of Visual Arts e na New York Film Academy. Durante os cursos, produzi três curtas. O suficiente para me apaixonar por cinema e deixar a publicidade. Comecei a procurar uma história que valesse a pena contar na tela grande.

Apenas em 2001 deparei com algo que chamou minha atenção. Assisti a um programa do Amaury Jr., no qual ele entrevistava um gordinho que dizia ser o Henrique Constantino, filho do dono da companhia aérea Gol. Praticamente abraçado com o apresentador, confirmava histórias da família dos donos da empresa e falava com segurança sobre os “seus” aviões. Na sequência do programa, o Amaury explicava que tinha sido vítima de uma farsa. O gordinho na verdade era um grande picareta.

Ele se chamava Marcelo Nascimento da Rocha e havia passado quatro dias enganando todo mundo em um evento badalado em Recife. Comeu e bebeu de graça, foi paparicado por modelos, atrizes, empresários e apresentadores. Deu entrevistas e posou para fotógrafos de colunas sociais. Apareceu em matérias de revistas como amigo “íntimo” das celebridades. Foi descrito como um dos maiores malandros de todos os tempos. Ali estava o meu personagem.

Nessa época eu ainda não tinha uma produtora, mas já havia trabalhado com os diretores Toniko Melo e Fernando Meirelles em publicidade. E o Toniko estava em busca de uma história para o seu primeiro longa. Assim como eu, o Toniko e o Fernando se encantaram com as aventuras do mentiroso. A advogada da O2 Filmes nos disse que seria muito complicado comprar os direitos de um estelionatário. Segundo ela, seria mais fácil se existisse um livro. Eu disse: “Livro? Sem problemas, entrevisto o cara e escrevo um livro”.

Lorotas para ler e assistir

Mas as coisas não foram tão simples. O Marcelo tinha acabado de fugir de Bangu, e nem sua mãe sabia se ele estava vivo. Duas semanas depois, descobri que ele tinha sido preso em Curitiba. Fui até lá. Eu nunca tinha passado nem perto de uma cadeia. As minhas pernas tremiam e foi uma verdadeira gincana conseguir autorização para entrevistá-lo. Eu não fazia a menor ideia de que alguns anos mais tarde, em 2006, o livro entraria para a lista dos mais vendidos do Brasil.

Os depoimentos gravados inicialmente serviriam apenas como material de pesquisa para o livro e o filme VIPs (ficção protagonizada por Wagner Moura). Contratei um cameraman que gravava casamentos em Curitiba. Entrevistamos o Marcelo, sua família, policiais, o Amaury Jr. – que aliás rendeu uma das melhores partes do documentário –, o Ricardo Macchi (mais conhecido como cigano Igor), o Ed Sá (dono do camarote Flying Horse), o guitarrista dos Engenheiros do Hawaii e a atriz Maria Paula – a única que sabia que Marcelo era um farsante na festa de Recife. Reparei que os entrevistados tinham algo em comum. Eram todos engraçados. Além desses depoimentos, consegui as imagens reais do Marcelo enganando o Amaury e sendo entrevistado pela TV Globo como líder do PCC, durante uma rebelião em Bangu. O conteúdo do material era bom demais para ser usado apenas como pesquisa. As histórias eram incríveis. E o melhor: eu tinha imagens para provar que as mais impressionantes aconteceram de verdade.

Comecei a estudar e a assistir à maior quantidade possível de documentários. O diretor Michael Moore me fez ver filmes sobre tiros em Columbine e a tragédia do 11 de Setembro. Nunca pensei que fosse gostar de filmes com esses temas, mas a linguagem usada pelo diretor é realmente impactante. Ele é capaz de falar sobre qualquer assunto de forma interessante. O Show não Pode Parar (de 2002, dirigido por Nanette Burstein e Brett Morgen) foi outro documentário que me surpreendeu. Conta de forma deliciosa a história de um dos maiores produtores de Hollywood. Essas foram as minhas inspirações para produzir o VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso.

Copiei descaradamente a ideia do Michael Moore de usar animação em algumas passagens do filme. Porém, diferente dele, misturei traços e estilos. O Marcelo é um camaleão que se transforma no decorrer da história. As animações acompanham essas mudanças. Por exemplo, num momento cômico do filme, Marcelo nos faz lembrar de Homer Simpson. Nas partes de aventura, ganha traços ao estilo do desenho Johnny Quest. Marcelo é tão fascinante quanto Zelig, filme e personagem do Woody Allen que se adapta ao ambiente de acordo com as necessidades. Como diz o próprio Marcelo: “As pessoas caem nas minhas mentiras porque eu mexo com a ambição delas. Sou quem eles quiserem que eu seja”. A diferença entre os dois é que Zelig é um personagem de ficção e Marcelo é real. Acompanhando a trajetória dele, descobri que os grandes mentirosos do Brasil infelizmente não estão atrás das grades. Marcelo é um iniciante perto deles, um picareta que gosta de viver sua vida como se fosse um filme.

Vai lá: VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso, o documentário, estreia em abril, e o livro é da editora Jaboticaba; VIPs, a ficção dirigida por Toniko Melo, estreia em 25/3. Veja abaixo o trailer do filme:



[via Omelete]

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