por Letícia Gicovate

...onde mulheres e crianças se olham cúmplices e sorriem tranquilas porque se entendem completas. Eu não vou pra esse céu. E vou estar feliz

No céu das mães perfeitas, todas as crianças de bochechas rosadas e meias limpas encaixam brinquedos educacionais de madeira, enquanto uma música profundamente chata ecoa calma numa sala de paredes bege. Deve existir esse céu, onde todos os dias às 8h em ponto mamães e bebês bem dispostos fazem aulas de yoga, depois de se deliciarem com qualquer coisa com kefir. No céu das mães perfeitas, mulheres e crianças se olham cúmplices e sorriem tranquilas, porque se entendem completas e são, nada mais cabe no mundo das mães perfeitas.

Eu não vou pra esse céu. Vou pra um lugar onde roupas se acumulam sobre a cesta, onde a toalha de mesa tem sempre uma mancha arredondada de suco pronto e a cada canto existe um micro-brinquedinho pontudo esperando para ser pisado por mim. Lá, vou ser recebida por Santa Peppa Pig que, após abrir o portão rabiscado de hidrocor, vai repetir insanamente risadinhas histéricas enquanto crianças com roupas descombinadas ficam vidradas em silêncio por horas e horas.

“Se recentemente foi legalizado que pode sim falar mal da maternidade, ainda temos todas um eterno inferno flamejante em comum: a culpa”
Letícia Gicovati

E eu vou estar feliz. Talvez aproveite pra fumar um beque, ler um livro, escrever um livro, mas vou me sentir uma mãe horrível, porque se recentemente foi legalizado que pode sim falar mal da maternidade, ainda temos todas um eterno inferno flamejante em comum: a culpa.

Há quatro meses topei acompanhar meu marido num doutorado na Inglaterra, aqui as crianças entre 3 e 5 anos só têm direito a duas horas e meia por dia de creche pública, o que faz com que nas outras 21 horas e meia restantes, pra uma maioria massacrante de mulheres, caiba muito pouco além de ser mãe.

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É como se eu estivesse há 4 meses com uma criança em casa num dia de feriado com chuva, enquanto escrevo esse texto já contei 8765 vezes ela repetir "olha mãe", "compra mãe", "pega mãe", "bota mãe", "tira mãe". Nem sempre eu queria ser mãe.

Ser mãe pode completar sua existência, preencher seus dias, te refazer inteira, mas não se engane, pode ser um saco.

Quando as mães repetem clichés como "é o maior amor do mundo" ou "é algo que eu não sei explicar", elas simplesmente não sabem mesmo o que dizer. O que elas deveriam dizer é que ter filho pode ser ruim no sábado de manhã e bom no domingo a tarde.

Às vezes é um saco e ponto. Cansa, dói, irrita, desespera, ao mesmo tempo que sim, te faz sentir um amor que não tem igual.

Acontece que quando esperamos ser preenchidas por um amor pleno, somos preenchidas por uma culpa dos infernos, simplesmente porque o tal do amor pleno não existe.

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A partir do momento que nasce um bebê, nasce mais uma mãe culpada nesse mundo de meu Deus. A culpa brota quando a mulher realiza que a partir dali nada mais será como antes, e nem sempre será tão bom quanto o anúncio de papinha te fez crer.
Fomos domesticadas a achar que não podemos questionar o amor materno, essa entidade superior inquestionável, esse força avassaladora que simplesmente "baixa" em nossos corpos como uma revelação espiritual instantânea, só que não é bem assim.

O amor materno é construído, desvendado e transformado durante toda a vida, o que não põe em prova o amor que você sente por seu filho, ou que ele sente por você, apenas te liberta da obrigação de ter que se sentir plena e satisfeita o tempo inteiro, o que não é justo com ninguém.

Ser mãe é ruim às vezes como às vezes é ruim ser qualquer coisa que a gente é.

Antes de mães somos mulheres, contempladas com crises existenciais, cansaços, frustrações, humores e outras sutilezas.

Temos desejos, ganas, vontades, manias e desesperos que cabem em qualquer ser humano real, homem, mulher, bicho ou mãe. Ainda bem!

Existe o céu das mães perfeitas, e não é pra lá que eu vou.

Achei que aqui me transformaria na mãe que assa bolos e os decora com os morangos colhidos na própria horta, mas, veja bem, eu sou a mãe que queima o waffle pronto do supermercado.

E tudo bem, eu nunca acreditei em céu mesmo.

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Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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