Luciana Paes: a tia que está brilhando no TikTok

por Nathalia Zaccaro

A atriz fala sobre o sucesso de seus vídeos, a onda de novos seguidores e os impactos do isolamento em sua vida

Segundo ela mesma, Luciana Paes está se tornando a tia tiktokzera. Aos 39 anos, a atriz se deixou levar pelo universo dos vídeos divertidos da nova rede social, conhecida por atrair público jovem, e viu seu número de seguidores no Instagram se multiplicar. "Eu me sinto entrando em uma festa com uma galerinha bem astral, bem mais nova do que eu. Parece que o tempo todo estava tendo uma festa e eu não sabia o endereço", conta.

A veia cômica de Luciana é inegável, mas ela não é e nem nunca foi uma atriz só de comédia. ''Tenho uma vida múltipla, eu batalhei por ela. Sempre tive uma propensão para ser classificada como atriz cômica", diz. "Tenho uma cara diferente então as pessoas automaticamente não conseguem me encaixar no perfil da gata e querem me encaixar em outro canto. Eu batalhei contra isso". Em São Paulo, ela integra a Cia Hiato de Teatro, fez televisão e cinema, até ser interrompida pela pandemia. "Em casa, sozinha, eu estou conseguindo encontrar uma paz sem aquele desespero de estar agradando alguém para ser amada. Eu sempre estive muito ocupada em saber se a pessoa com quem eu estava me relacionando estava feliz", conta. Vem ler:

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Tpm. Por que você é atriz?

Luciana Paes. A intenção primordial de ser atriz é esse desejo de compreender o outro. Só que o ator faz essa compreensão não de maneira racional, e sim emprestando seu corpo pra se aproximar do que seria ser outra pessoa. Acho que todo ator em algum momento tem o desejo de ser amado, faz parte para ingressar na profissão. Mas acho que isso vai se modificando com o tempo e vai ficando mais nobre a razão pela qual você está na profissão. Acredito nessa vontade de viver várias vidas. 

Qual foi seu trabalho mais desafiador? Um dos trabalhos mais desafiadores foi o filme Animal Cordial, em que eu estava em cena com Murilo Benício, Irandhir Santos e Camila Morgado. Era um terror social com direção da Gabriela Amaral Almeida, a gente rodou em 28 dias na sequência, é um filme com alta carga de tensão emocional. 

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A comédia sempre esteve no seu radar? Tenho uma vida múltipla, eu batalhei por ela. Sempre tive uma propensão para ser classificada como atriz cômica. Tenho uma cara diferente então as pessoas automaticamente não conseguem me encaixar no perfil da gata e querem me encaixar em outro canto. Eu batalhei contra isso, sou sócia fundadora da Cia Hiato de Teatro, escrevi solos, trabalho com dramaturgia coletiva, pude pesquisar aspectos mais densos que me interessavam. Na televisão, a maior parte das coisas que eu fiz foram comédias. É mais difícil ter mulheres que fazem comédia, é um campo que tem espaço e, como tenho essa facilidade, fui indo. Gosto de Vade Retro, mas que não teve tanto sucesso. Entrei na Globo fazendo elenco de apoio de Fina Estampa, um papel bem pequeno de uma mulher trans. Papel que hoje eu não aceitaria, 10 anos depois. O mundo mudou e minha consciência mudou. 

Qual dos seus trabalho te trouxe mais reconhecimento? Passei alguns anos fazendo cinema, mas nada que tenha me projetado muito. Fiz uma novela ano retrasado e aí comecei a fazer mais coisas, minha carreira ficou mais sólida. O audiovisual deu uma florescida e precisou de outras pessoas que não eram as de sempre. Faço parte da série 3% na Netflix e, na Warner, da série Amigo de Aluguel. Eu estava agora num programa de humor chamado Fora de Hora, na Globo, que  durante a quarentena virou um podcast. Eu tive pequenos picos de reconhecimento, minha carreira é meio devagar e sempre.

Como bateu pra você o lance do isolamento? Quando começou a quarentena eu estava no Rio, no flat que a Globo coloca quem é de São Paulo. Uns cinco dias depois fiquei doente. Bastante provável que eu tenha tido Covid em março. Tive febre, fui parar no hospital, estava com infecção viral, conjuntivite, taquicardia, falta de ar, tive muitos dos sintomas. Me sinto melhor agora, no quarto mês. Durante um tempão senti que minha energia estava oscilando muito. Nos dois primeiros meses da quarentena eu estava tentando ficar viva. O isolamento me fez rever a maneira como me relaciono com os outros, como me relacionava amorosamente. Em novembro do ano passado, terminei um relacionamento de dois anos e meio e cheguei a conclusão que eu estava entendendo errado o que era amar. Me sinto em um processo de reconstrução dos meus valores. Tenho uma sensação que a vida acabou e recomeça agora, tive a sorte de poder continuar viva. Em casa, sozinha, eu estou conseguindo encontrar uma paz sem aquele desespero de estar agradando alguém para ser amada. Eu sempre estive muito ocupada em saber se a pessoa com quem eu estava me relacionando estava feliz, o que eu podia fazer, o que não podia fazer. Agora não tenho expectativa romântica com ninguém e posso curtir a vida de uma maneira mais neutra. 

E quando o TikTok entrou na história? Já tinham me falado do TikTok e eu sempre tive desejo de manjar de edição de vídeos. Apesar de me sentir muito tia para as pessoas que estão lá, dá para construir uma dramaturgia de 60 segundos. Comecei a brincar com isso e alguns vídeos que postei foram republicados. O Saquinho de Lixo publicou, a Tpm também, então aumentou bastante o número de pessoas novas me seguindo.

E o que isso muda? O Instagram é doido porque parece nada, mas, ao mesmo tempo, agora na quarentena, é a maneira que temos para conversar com o mundo. Tenho tido mais carinho pelo meu Instagram, tenho passado mais tempo nele. Dá trabalho fazer os vídeos. A sensação que me dá é de que tem gente que nunca me viu na televisão ou em série e que está chegando em mim através da internet. E é uma galera. Eu me sinto entrando em uma festa com uma galerinha bem astral, bem mais nova do que eu. Parece que o tempo todo estava tendo uma festa e que eu não sabia o endereço. Ao mesmo tempo, sempre tive medo. Quando tentei acompanhar a trajetória de algum personagem no Twitter tomava um soco no estômago, alguém falando: "Meu, essa mina é horrorosa, que mina feia, como ela entrou na televisão, uma mina dessa...". E não sei se eu quero ter acesso à mente dessas pessoas que têm um comportamento medieval na internet.

Como você faz os vídeos? Eu crio linhas narrativas. Fiquei pirando nessa possibilidade da ferramenta de massificação de produção de entertainment, você poder criar coisas originais, conteúdo, vídeos curtos que mostram sua percepção de mundo. Ter muitos seguidores te coloca em outros lugares, mas, mais do que qualquer coisa, é um exercício de produzir meu próprio conteúdo. A gente acaba se especializando em apagar incêndios alheios, então acabo não criando meus conteúdos porque estou sempre a serviço de alguma obra.

Créditos

Imagem principal: Fábio Audi

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