Bruxas, virgens, putas, vilãs e heroínas

por Juliana Sayuri

Trilogia da socióloga Isabelle Anchieta analisa as imagens femininas que se tornaram ícones – as mais citadas, imitadas e reproduzidas ao longo da história

“Isto não é Artemisia”, ajuizou a socióloga mineira Isabelle Anchieta, intrigada diante de um quadro no museu do Palazzo Pitti, em Florença, na Itália. Era 2013 e a jovem jornalista e à época doutoranda, fascinada pela pintora italiana Artemisia Gentileschi (1593-1653), arriscou informar à direção do museu a indicação incorreta da autoria – não sabia dizer de quem era o quadro, mas apostava que certamente não era desta artista barroca do século 17, famosa por autorretratos e uma das primeiras mulheres reconhecidas no campo das artes. A diretora confirmou: por acaso, dias antes, especialistas se reuniram para discutir o caso, admitiram o erro, mas não tiveram tempo de atualizar a chapinha metálica de identificação. Impressionada, a dirigente italiana quis saber como a visitante notou o deslize. “Leio imagens”, respondeu Isabelle.

Ler imagens se tornou a especialidade da acadêmica, que passou oito anos garimpando xilogravuras, pinturas, panfletos, esculturas, fotografias e 80 filmes em arquivos, bibliotecas e museus de nove países para compor sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo. “Uma peregrinação”, diz. Dessas andanças de Los Angeles a Istambul nasceu a trilogia Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, lançada recentemente pela Editora da USP. “A imagem é uma janela para compreender uma época”, define Isabelle. “Não sou historiadora da arte ou artista, sou socióloga. Fui aluna da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, que me ensinou uma das lições mais importantes: só aprendemos a ler vendo muitas, muitas, muitas imagens. Isto é, uma análise serial, uma sequência, para entender os elementos, os detalhes, as assinaturas”. 

Na trilogia de quase 700 páginas, a autora destrincha imagens femininas que se tornaram ícones – as mais citadas, imitadas e reproduzidas ao longo da história. O primeiro livro foca em Bruxas e Tupinambás Canibais; o segundo, Maria e Maria Madalena; o último, Stars de Hollywood. Intercalam-se bruxas diabólicas, índias canibais, virgens, putas, vamps, pin-ups, vilãs e heroínas. “Juntas, elas traçam uma história imagética que diz respeito a todas nós. Somos milhares de mulheres possíveis”, explica Isabelle.

Bruxas

Nasce na Europa, no século 16, a imagem da bruxa, associada a benzedeiras e parteiras. Foram mulheres estigmatizadas como adeptas de “magias diabólicas” capazes de provocar metamorfoses e morte, agindo contra a ordem “natural” do mundo, dominada pela Igreja Católica. Eram retratadas como transgressoras dos papéis sociais.

Tupinambás

Nos séculos 15 e 16, a imagem da índia é uma versão da bruxa europeia, mas mais violenta. A partir de 1557, com o livro do aventureiro alemão Hans Staden (1525-1576), que passou nove meses sob domínio dos tupinambás no Brasil, passam a circular ilustrações de um “caldeirão canibal” na Europa.

Virgens

Símbolo da pureza, a imagem de Maria incorporou o imperativo de fé católica. Mas a iconografia mudou ao longo do tempo: Maria desce de um pedestal “imperial”, do alto dos céus, para paulatinamente adquirir feições mais maternais, humanizando-se para acolher pecadores no século 14.

Putas

Símbolo do pecado, a imagem de Maria Madalena mudou entre os séculos 16 e 18, na tentativa de travar a ascensão social das prostitutas europeias. Passa-se a ilustrar Madalena possuída por demônios, depois exorcizada, arrependida e santificada.

Vamps

Estrela do cinema mudo, Theda Bara (1885-1955) expôs a sexualidade feminina além do “amor romântico”. Seus papéis fortes, como no filme de estreia A Fool There Was (1915), inspirado no poema O Vampiro de Rudyard Kipling, renderam-lhe o apelido Vamp, que se tornou sinônimo de femme fatale.

Pin-ups

Primeiro veio Clara Bow (1905-1965), protagonista do filme It (1927), como imagem de mulher moderna, ao mesmo tempo ingênua e sexy, que conquista tudo o que quer. Depois, Marlyn Monroe (1926-1962), que cravou duas imagens na história: o esvoaçante vestido branco de O Pecado Mora ao Lado (1955) e a icônica série feita pelo artista pop Andy Warhol (1928-1987) a partir de cenas de Torrente de Paixão (1953).

Vilãs

A atriz Bette Davis (1908-1989), estrela de A Irmã Má (1931), Perigosa (1935), Jezebel (1938), Vitória Amarga (1939), Vaidosa (1944) e A Malvada (1950), representou diversas vezes a imagem de mulher mimada e transgressora, dentro e fora das telas. Foi a mais emblemática bad-good-girl, a ideia da vilã que, no fim, se revela benevolente.

Mulheres possíveis 

Segundo Isabelle, imagens femininas passaram por dois longos processos ao longo da história. Primeiro, uma “humanização”, que paulatinamente rompeu com a ideia de mulheres desumanas e diabólicas (as bruxas). Segundo, uma “individualização”, com a ascensão de novos modelos de mulheres mais livres, protagonistas de suas histórias e de suas biografias (as atrizes). “Individumanização” foi o neologismo acadêmico proposto pela autora para se referir a esses processos que se desenrolam até hoje. 

No livro, a socióloga analisa a biografia e a filmografia de dezenove atrizes americanas, como Ava Gardner, Audrey Hepburn e Rita Hayworth, costurando os filmes ao contexto da época. “Evidentemente, as stars são produtos da sociedade de consumo, um sistema que objetifica mulheres, mas que também as tornou sujeitos. As atrizes foram tão revolucionárias quanto as feministas dos séculos 19 e 20, pois promoveram profundas mudanças de comportamento na época: independentes financeiramente e pró-ativas, trabalhavam, dirigiam, abordavam os caras, casavam, divorciavam-se. Elas passaram a construir suas próprias regras, legitimando o que antes era tido como inaceitável para a sociedade. Elas não estavam opostas às feministas, mas ocupavam outro lugar, também transgressor”, pondera a autora. 

Um exemplo é Jane Fonda, que incorporou a primeira heroína da história do cinema, no filme Barbarella (1968). Dirigido pelo francês Roger Vadim e produzido pelo italiano Dino De Laurentiis, o longa inovou ao misturar inspiração HQ, estilo kitsch, comédia, sci-fi, sexualidade e política, ridicularizando a corrida armamentista da Guerra Fria. Ativista contra a Guerra do Vietnã na juventude, a atriz continua na ativa aos 82 anos: no fim de 2019, foi presa quatro sextas-feiras seguidas por liderar protestos do movimento ambientalista Fire Drill Fridays diante do Capitólio em Washington, nos Estados Unidos. No último Oscar, Jane Fonda desfilou outro statement: repetiu um vestido vermelho (usado no Festival de Cannes de 2014) e um casaco vermelho a tiracolo (o paletó que usou nas diversas manifestações contra as mudanças climáticas). Uma imagem, é verdade, às vezes vale mil palavras. 

“As stars dão o primeiro passo na descentralização das estereotipias da mulher, especialmente via composição e mixagem de imagens, muitas vezes, antagônicas. Aproximam a virgindade mariana à transgressividade das bruxas em uma só personagem. Nesses sincretismos improváveis forjam-se identidades singulares, inéditas. As stars ampliam essas combinações possíveis de ser mulher. São boas, más, simultaneamente boas e más, engajadas, elegantes, rebeldes, belas, feias que se tornam belas, dissimuladas, sarcásticas, inteligentes, trabalhadoras, sensuais. Elas podem ser muitas e todas ao mesmo tempo”, diz a socióloga em um dos livros.

Vivendo entre Belo Horizonte e São Paulo, Isabelle já mira um próximo projeto para o futuro: investigar representações femininas no turbilhão imagético da internet, entre ícones, símbolos e selfies. “É a pergunta de sempre: o que as imagens, afinal, dizem sobre nós?”.  

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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