por Juliana Gonçalves

A importância de profissionais negros para cuidar da saúde mental de quem é oprimido pelo racismo

Desconhecida da maioria das pessoas, inclusive dos profissionais de saúde mental, a psicóloga Neusa Santos escreveu a primeira referência sobre a questão racial na psicologia. O livro Tornar-se Negro (Graal, 1983) traz o estudo da autora sobre a vida emocional dos negros. Santos refletiu sobre como a negação da própria cultura e do próprio corpo atinge a subjetividade de pessoas negras.

Psicanalista lacaniana bem sucedida, negra nascida na Bahia, sua obra traz uma importante contribuição ao revelar a experiência coletiva com nuances individuais que marcam a existência negra pós-diáspora forçada do continente africano, pós-período de escravização e, por fim, numa sociedade desenvolvida por meio do racismo.

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“Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas expectativas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas”, explicou logo nas primeiras páginas de seu livro. A psicóloga Maria Lucia da Silva, fundadora do Instituto Amma Psique e Negritude, dá pistas sobre o que consiste esse “tornar-se negro” citado por Santos. “Não nascemos negros, nos tornamos a medida que conseguimos fazer uma leitura da nossa trajetória por meio das experiências de discriminação vividas”, afirma.

“O racismo é algo que nos atravessa”, pontua a complementar que a existência do racismo contribui para constituição dos sujeitos negros. “Não há um sujeito negro que não seja atravessado pelo racismo e que de alguma maneira, consciente ou não, vá viver efeitos produzidos pelo racismo”, explica Maria Lucia.

O tornar-se negro tem uma dimensão política importante, segundo ela, quando negros e negras percebem que o lugar que ocupam na sociedade está fortemente ligado ao pertencimento de um grupo e não apenas a questões individuais.

Anos atrás, essa percepção entre o individual e o coletivo fez a diferença no tratamento de Adriana Barbosa, empreendedora e fundadora da Feira Preta, a maior feira afro da América Latina.

“Não há um sujeito negro que não seja atravessado pelo racismo e que, consciente ou não, vá viver efeitos produzidos pelo racismo”

Enquanto cursava Marketing na década de 90, Adriana apresentou dificuldade de se sentir pertencente ao ambiente universitário e tinha um relacionamento frágil com os colegas de classe. “Eu acreditava que tinha problemas por excesso de timidez e relação interpessoal ruim, mas a minha introspecção vinha na verdade da questão racial”, conta ela que era uma das únicas negras de uma universidade privada num bairro de elite da cidade de São Paulo.

Este ano Adriana completa 10 anos de terapia e consegue trabalhar questões trazidas pelas experiências racistas que vive não considerando apenas aspectos individuais, mas como um sujeito pertencente a um grupo étnico discriminado historicamente.

A exemplo do caso de Adriana, Maria Lucia conta que cada vez mais chegam aos consultórios pessoas negras com problemas ligados a aceitação da identidade, autoestima abalada, com dúvidas com relação a suas competências e talentos e que travam batalhas com o lugar de desvalorização em que negros são colocados. “O racismo gera ansiedade, insegurança e angústias profundas”, comenta.

Desde 1995 lidando com o tema de saúde mental e racismo, a psicóloga acredita que não há o reconhecimento da grande parte dos psicólogos de que o racismo produz sofrimento psíquico. Nos últimos cinco anos, no entanto, a pauta racial tem sido constante nas instituições de psicologia graças ao trabalho de psicólogos negros. “Quem vem buscar atendimento junto aos psicólogos do Amma tem um pedido muito explícito que é o querer trabalhar com alguém que possa compreender o lugar de fala das pessoas negras”, conta.

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Após passar por diversos profissionais, a fundadora da Feira Preta optou por nos últimos três anos fazer terapia com profissionais negros. “Percebi que a terapia com os outros não dava conta das minhas subjetividades enquanto mulher negra. Houve até uma psicóloga branca que entrava mais na questão racial, mas via que ela não tinha bagagem para me fazer devolutivas nesse sentido”, lembra

“Percebi que a terapia com os outros não dava conta das minhas subjetividades enquanto mulher negra”

Por realizar um grande evento com viés de afirmação da negritude no mundo coorporativo, Adriana enfrentou diversas vezes o racismo institucional e só por meio da terapia começou a entender que as rejeições sofridas pelo projeto Feira Preta tinham essa carga histórica e não eram originadas por ela enquanto indivíduo. “Foi com profissionais negros que tive a dimensão do quanto os processos de racismo estrutural e institucional se misturavam com os meus dilemas e até interferiam no meu comportamento”, explica.

Uma das ações promovidas no âmbito de atuação do Amma é justamente auxiliar na formação de psicólogos brancos e negros para que a escuta com relação a questão racial seja afinada e não relativizada como é comum ainda hoje.

De acordo com Maria Lúcia, há um largo campo de intervenção política na formação e no campo da clínica que precisa ser feita para que dimensão histórica do racismo seja considerada. “É preciso pensar que a perspectiva da cura para quem sofre com os efeitos do racismo é psíquica e política e um atendimento clínico para essas pessoas só terá eficácia se levar esses pontos em consideração”, reflete.

Pensando nessa intervenção do ponto de vista do atendimento clínico para pessoas negras, em 2016, as psicoterapeutas Laura Augusta Almeida e Tainã Vieira criam em Salvador/BA a Rede Dandaras, um espaço de promoção de saúde para mulheres negras. “Percebemos que as demandas das mulheres negras não estavam contempladas na fragmentação de raça e gênero proposta pelos atendimentos”, conta Laura Augusta.

Ainda em fase de coleta de dados, o mapeamento já revelou a existência de mais de 500 profissionais de saúde negras que trabalham com a promoção da saúde mental considerando os efeitos nocivos do racismo. “O intuito é conectar mulheres negras com profissionais negras que reconheçam a necessidade de haver  interseccionalidade na sua atuação” , afirma Laura, que também coordena o Grupo de Trabalho de Psicologia e Relações Raciais do Conselho Regional de Psicologia da Bahia. Para ela, não ter marcadores de classe, raça e etnia impossibilita a oferta de um atendimento de qualidade.

“Percebemos que as demandas das mulheres negras não estavam contempladas na fragmentação de raça e gênero proposta pelos atendimentos”

De acordo com Maria Lucia, do Amma, o exercício de uma Psicologia que leve em consideração essa opressão social seria benéfico para toda a sociedade já que o racismo produz efeitos para todos. Assim, não seria possível falar em racismo sem considerar a herança da escravidão não só para negros, mas para pessoas brancas. “A diferença é que para os brancos o racismo cria um sistema de privilégios e para negros de opressão”, concluiu.

Enquanto o berço europeu das teorias de psicologia não concebem a opressão racial como causadora do sofrimento psíquico, o racismo segue provando sua letalidade que pode ser lenta e silenciosa como os inúmeros casos de depressão até devastadora e brutal como os casos de suicídio.

O livro de Neusa Santos citado no inicio deste texto voltado a discutir essa psicologia possível está disponível ao público desde de 1983 e, mesmo assim, continua sendo literatura desconhecida para muitos profissionais da área. Coincidência ou não, a trágica história de sua autora, que com cerca de 60 anos suicidou-se em 2008 sem jamais ter dado sinais de depressão segundo relatos de amigos, é uma alusão triste à perversidade perpetuada pelo silêncio em torno dos efeitos do racismo para a psique humana.

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