por Márcia Faria
Tpm #112

A diretora carioca Márcia Faria tentou praticar o ócio criativo, mas a pressão a fez criar

A diretora carioca Márcia Faria bem que tentou praticar o ócio criativo para escrever, mas conta que foi com pressão e incertezas que conseguiu criar

Ir para um lugar deserto e escrever um roteiro. Pensar como fazer o filme em cada detalhe, trabalhar com tempo e sem distrações. Esse sempre foi meu sonho de processo criativo, mas nunca consegui fazer isso. Até fui para alguns lugares paradisíacos e, chegando lá, me largava na areia da praia para deixar o ócio tomar conta – o que não deixa de fazer parte do processo, mas, na hora de produzir, simplesmente não rolava.

A ideia da “inspiração divina” foi aos poucos sendo substituída na minha vida pela realidade da inspiração suada. Com os anos, aprendi que gosto de ficar sozinha no meio de muitas pessoas. Eu produzo melhor na confusão de um set, com pessoas me perguntando se prefiro jeans ou legging no figurino, se vamos filmar primeiro a cena do dia ou a da noite, ou “aonde vai a câmera?”. Preciso de prazo e de pressão para poder entregar um roteiro. Se não existisse a data de entrega do edital ou a apresentação para uma banca de possíveis investidores, ficaria mexendo no texto eternamente, jamais consideraria o roteiro pronto. As limitações, às vezes, são motor para a criatividade.

Em 2008, logo após dirigir dois episódios da série Alice, para a HBO, resolvi mudar de vez para São Paulo e tentar escrever o roteiro de um longa-metragem. Fui a uma livraria, comprei todos os romances brasileiros que poderiam, pela rápida leitura da orelha, se transformar em um filme, me tranquei em casa e comecei a ler. Nada.

Achar uma história para contar é uma tarefa muito mais complicada do que eu imaginava. Não poderia ser algo exterior a mim, à minha experiência de vida. E nada naqueles livros falava diretamente a mim. Precisava de mais tempo. Resolvi transformar 2008 num ano sabático. Comecei a estudar, ler e caçar incessantemente uma ideia para fazer um filme. Mas o tempo passava e nada.

Na pressão
Criatividade é como um músculo que você tem que exercitar. Trabalhei com muitos diretores e tive a sorte de presenciar o processo criativo de cada um deles, mas, na hora de pensar o meu filme, parecia que toda essa experiência não me valia de nada.

Só consegui sair do labirinto que me encontrava quando tive a pressão do prazo de entrega. Descobri um edital que encerrava dali a duas semanas e me pus como louca a fazer argumento, orçamento e roteiro. Como comecei a trabalhar em sets muito cedo, acho que me acostumei a ter pouco tempo para fazer muita coisa.

Ganhamos o edital e, com o filme pronto, o curta Estação, entramos na mostra competitiva do festival de Cannes. Não poderia imaginar destino melhor para meu primeiro trabalho autoral.

Ontem terminei de filmar a série Oscar Freire 279 para o Multishow. Antes de rodar o último take da personagem principal na avenida Paulista, olhei para Lívia de Bueno caracterizada de Dora e me deu um aperto no peito. Parecia que estava me despedindo de uma amiga que ia morar fora por muito tempo. Engraçada essa cumplicidade entre diretor e ator. Tenho a sensação de que durante os ensaios e as cinco semanas de filmagem, mais que “achar” o personagem, dividimos nossos segredos. Desenvolvemos uma relação de confiança.

Fizemos 15 episódios de 26 minutos cada um, o equivalente a quatro longas-metragens... Coisa à beça em muito pouco tempo. Quatorze deles se passam no mesmo espaço, o loft da personagem principal. Um desafio de direção, dramaturgia e atuação.

Nua no palco
Até começar essa empreitada eu era uma diretora que chegava ao set com tudo pensado, decupado, estudado e discutido em detalhes. Mas lá isso era simplesmente impossível. Jamais conseguiria, no tempo de preparação que tivemos, decupar todos os episódios. O que me deu certo pânico.
No carro, de manhã, a caminho da filmagem, tinha medo de chegar ao estúdio e me perguntava: “O que vou fazer?”. Me sentia nua em um palco, sem saber minhas falas.

Mal pus o pé no set, chamei meu assistente e pedi para ensaiar a cena com os atores antes da maquiagem. E junto com eles tudo ficou mais fácil. Os minutos que passamos ali foram como a suspensão do tempo cotidiano. A criação da mise-en-scène por meio da vontade dos personagens foi um processo libertador que só foi possível porque estava tão desprotegida quanto eles naquele momento. A partir desse dia percebi que as cenas existiam por si e demandavam determinado movimento de câmera e um caminho diferente na interpretação. A única coisa que tinha a fazer era ficar atenta ao que estava acontecendo à minha frente.

Hoje entendi que os 20 anos de trabalho com diferentes diretores me deram bagagem suficiente para poder confiar no acaso.

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