por Marcela Paes

Blogueira do Escreva Lola escreva fala sobre feminismo na era virtual e polêmicas com CQC

Nesta entrevista, Lola falou sobre o feminismo no Brasil, a vida em diversas cidades, os padrões estéticos, os crescentes movimentos de insurgência e as divergências com Marcelo Tas e Rafinha Bastos.

"Muita gente não acredita, mas sou feminista desde os 8 anos de idade." A julgar pela paixão com que a blogueira e professora universitária Lola Aronovich, 44, escreve seus textos sobre feminismo não é difícil acreditar que  as primeiras ideias sobre o assunto tenham pipocado em sua cabeça tão precocemente. 

Dona de um dos blogs mais visitados sobre o assunto, o Escreve Lola Escreva, discorre com facilidade e sem se abster de polêmicas sobre os assuntos que vão de cinema e literatura à personalidades midiáticas. Por conta disso, recentemente a blogueira teve um desentendimento com o apresentador Marcelo Tas, do programa CQC, da Band.

Argentina de nascimento e brasileira de coração e criação, Lola já morou no Rio de Janeiro (RJ), em São Paulo (SP), em Joinville (SC), e depois de um ano fazendo doutorado em Detroit, foi morar em Fortaleza (CE), onde leciona na UFC (Universidade Federal do Ceará).

Você é doutora em língua inglesa e literatura. Como foi sua trajetória acadêmica?
Fiz metade de uma graduação quando era mais jovem, em  publicidade. Trabalhei como redatora publicitária durante 7 anos, mas não completei o curso. Só depois dos 30 anos eu voltei a faculdade. Fiquei 10 anos longe da sala de aula, mas depois de começar a dar aula de inglês e fazer uma especialização eu resolvi voltar e começar a graduação em pedagogia para poder fazer meu mestrado em língua inglesa e literatura.

Como você se envolveu com a questão do feminismo?
Eu tenho registros, muita gente não acredita, que sou feminista desde os 8 anos de idade. Eu escrevo desde essa idade, incentivada pelos meus pais. Minha família me dava diários que eu preenchia com desenhos e textos, e eu já escrevia sobre o “poder das mulheres”... E minha mãe comprava a revista americana MS e eu lia. Isso sempre guiou meu jeito de viver, sempre me voltei para essas causas, não tanto em conta própria, porque eu nunca sofri muita discriminação, sempre me senti privilegiada nas coisas que eu fiz. Talvez em uma época tenha sido em conta própria, na época em que eu falava sobre liberdade sexual. Sempre odiei esse padrão de que homens podiam fazer tudo e as mulheres absolutamente nada.

Você começou o Escreva Lola Escreva em 2008. Mas já escrevia antes sobre cinema.
Na verdade eu ainda escrevo sobre cinema em um jornal catarinense chamado A Notícia. Virei crítica de cinema sem querer e eles começaram a publicar. Quando meu irmão pensou no site Lost Art ele me convidou para publicar minhas críticas lá. Eu acabei ficando um tempão, mais por preguiça, porque o site não é bem meu perfil. Eu gosto de ter feedbacks dos leitores, e no Lost não tinha isso.

 

"Sou feminista desde os 8 anos de idade. Minha família me dava diários que  preenchia com desenhos e textos, e eu já escrevia sobre o 'poder das mulheres'..."

 

Como começou o blog?
Quando eu comecei o blog, em janeiro de 2008,  eu estava em Detroit fazendo doutorado. No começo eu não sabia nada de blog, mas meu marido que também não sabia nada me ajudou muito. No começo eu escrevi bastante sobre cinema, porque eu ia muito ao cinema lá no EUA. Mas até minhas críticas de cinema sempre tiveram um viés muito feminista, de esquerda.

Você se considera uma militante feminista?
Sou militante virtual. O meu blog é o maior blog feminista do brasil, pelo menos em número de visitas. Tenho leitores muito jovens, 73 por cento dos meus leitores tem menos de 30 anos, até uma meninas com menos de 12 anos. Fiquei até assustada, pela responsabilidade [risos]. Pra muita gente o primeiro contato com o feminismo é através do meu blog, gente que nunca tinha pensado ou se assumido feminista, tanto homens quanto mulheres. É uma responsabilidade grande.

 

"O politicamente incorreto virou uma bandeira do pessoal mais conservador, acho que é a única que eles têm"

 

Você acha que a situação das mulheres no Brasil está progredindo?
Acho que estamos progredindo muito! Bem diferente da minha adolescência, O tabu da virgindade, por exemplo. Na minha adolescência, na década de 80, isso era muito forte. Hoje em dia é raríssimo, é uma minoria que defende isso. Nós lutamos por coisas como o "quem ama não mata", sobre não ser razoável, um homem alegar que matou uma mulher por defesa da honra. E hoje quase ninguém acredita nisso. Nas eleições, no segundo turno, tivemos um retrocesso muito grande, pela maneira como foi tratada a questão da legalização do aborto. Mas pouco a pouco estamos melhorando, tem muito mais gente se mobilizando e se assumindo feminista! Saiu uma pesquisa perguntando se os entrevistadas se consideram feministas. E 31 por cento das mulheres disseram que sim. Isso é muito legal.

Mas e as questão dos padrões estéticos atuais? Nunca se fez tanta plástica.

Nisso a gente tá andando pra trás, não só no Brasil. A propaganda e a erotização precoce têm muita parte nisso, meninas começam cada vez mais cedo a usar salto alto, fazer chapinha no cabelo... Acabam com uma autoestima muito baixa... E se você minar a imagem que a mulher tem de si mesma, você consegue um domínio muito maior dessas mulheres. Nesse ponto, temos um retrocesso enorme. Tem uma pesquisa assustadora da Universidade Federal de Pernambuco dizendo que 90% das meninas de 10 a 12 anos já fizeram algum tipo de dieta. A idade média que as meninas fazem plastica é de 15 anos. Antes parecia existir uma ética médica. A gente tenta combater isso, falo bastante sobre esse assunto no meu blog, a autoestima, o mito da beleza. Eu não abro mão de falar disso, mas infelizmente ainda vemos a mulher como um ser que tem como principal função ser bonita e decorativa. Até sobre a Dilma, que é presidente do Brasil, existe um questionamento sobre a aparência dela.

 

"Infelizmente ainda vemos a mulher como um ser que tem como principal função ser bonita e decorativa. Até a Dilma, que é presidente do Brasil, existe um questionamento sobre a aparência dela"

 

Como foi essa história de que o Marcelo Tas ameaçou te processar?
O Rafinha Bastos falou mal das mulheres que amamentam em público, disse que as mulheres que fazem isso só quererem exibir suas tetas e ainda são feias. Um discurso extremamente conservador, e o Marcelo Tas e O Marco Luque ficaram dando risada. Eu, no meu post, me dirigi mais ao Rafinha e ao CQC, pois os três fizeram parte da piada. Disse que aquilo era um retrocesso enorme, pois quem condena a amamentação em público no fundo,  está condenando a amamentação também, ou dizendo que mulheres que amamentam têm que ficar confinadas em casa.  Eu citei o Marcelo Tas uma vez só, mas eu recebi um e-mail dele me perguntando em que momento ele se posicionou contra a amamentação. Eu respondi que havia dito que eles se posicionaram contra a amamentação em público e que ele como líder fazia parte daquilo. Ele respondeu indignado que não tinha falado nada daquilo, mas eu disse que ele também tinha responsabilidade. Após essa resposta, recebi um outro e-mail dele dizendo que eu ia aprender através de um processo, que eu seria responsável por minhas palavras. Imagino que essa ameaça tenha sido pra eu ficar com medo e tirar o post do ar. Mas eu não faço isso, nunca fiz.

Você já escreveu diversos posts sobre as piadas do comediante Rafinha Bastos. O que você acha da postura dele?
Eu gostaria que ele fosse pros Estados Unidos e ficasse por lá [risos]. Ele sempre diz que o sonho dele é fazer stand up lá. Na verdade, o problema não é ele sozinho. Ele só personifica essas piadas idiotas, odiosas e reacionárias. Eu não entendo como as pessoas acham isso bom. Eu gostaria que ele fosse responsabilizado pelas piadas que ele faz. Acho que estamos em uma época que, pelo desenvolvimento de análise dos discursos das minorias, não se pode mais dizer: 'ah, é só uma piada, ou é só um  blog...' Se está fazendo um discurso através daquilo. Pra mim, a piada do estupro é muito mais séria que a feita com a Wanessa. Não é só o Rafinha, é um tipo de humor. O politicamente incorreto virou uma bandeira do pessoal mais conservador, acho que e a única que eles têm. E uma luta desesperada por manter os privilégios. As piadas de estupro seguem esse mesmo mote, de que  a mulher pediu, que a mulher não quer que pare... O Rafinha nem inova, não é original. O pior foram os fãs alternando entre dizer que é verdade e depois dizendo que é só uma piada. Alguns homens, incrivelmente, acham que estupro é um assunto feminino, como se a gente se estuprasse sozinha.

O que você acha de manifestações como a Marcha das Vadias?
Eu participei da marcha das vadias em Fortaleza. Tenho um pouco de problema com o nome, pela apropriação de uma palavra tão negativa. A marcha foi tomando o país e teve um caráter político muito forte, foi para muitas meninas um primeiro movimento, mas e mais meninas foram se declarando feministas, muita gente jovem envolvida... Acabou sendo muito positivo. O momento político agora é de muitos movimentos. Para as pessoas jovens a situação atual está uma maravilha, é uma época com muitas chances de mudanças e revoltas. Toda ação hoje em dia tem uma reação. O Rafinha poderia ter feito uma piada dessas há 30 anos e não ter nenhuma reação. Hoje em dia não.

 

"O cara pensa que é seu direito como macho agarrar as moças, mesmo que elas não queiram. E claro que alguns não sabem aceitar um 'não' como resposta"

 

Recentemente uma garota teve seu braço quebrado por homem em uma casa noturna em Natal. Vi que você a entrevistou em seu blog. Como você vê desse tipo de violência em camadas mais ricas e teoricamente mais instruídas da população?
Sobre a Rhanna, pra mim é um pouco difícil falar, pois, sendo monogâmica, caseira, e já velhinha, não vou a baladas faz muitos anos. Mas minhas leitoras me contam que é um sufoco, que os rapazes andam agressivos, que já chegam agarrando a cintura, puxando o cabelo... Sabemos que a violência existe em todas as camadas da população, inclusive as mais instruídas. Mas esse tipo de violência tem a ver com o que em inglês se chama Entitlement, que é aquele sentimento de superioridade e merecimento, tão ligado aos privilégios. O cara pensa que é seu direito como macho agarrar as moças, mesmo que elas não queiram. E claro que alguns não sabem aceitar um "não" como resposta. Fico feliz que isso esteja sendo exposto agora, porque essa agressividade nas boates funciona como mais uma forma de cercear a liberdade da mulher.

Você é casada e fala bastante sobre seu marido no blog. Como vocês decidem coisas da vida comum, como mudanças de cidade?
Meu marido, Silvio, não tem uma profissão muito convencional, ele é jogador profissional de xadrez, e também técnico e professor de xadrez; e como ele não ganha muito bem - mas pelo menos faz o que gosta, desde os 13 anos - ele não tem tanto problema em se mudar de cidade. Quando fiz mestrado na UFSC, em Florianópolis, eu morava lá, sozinha, e passava os fins de semana em Joinville, com ele. Mais tarde, ele adorou meu doutorado-sanduíche! Gostou muito de viver em Detroit comigo durante um ano. Jogou muito xadrez nessa época, deu aulas particulares... Pra ele não foi sacrifício nenhum se mudar, se bem que teve que largar o emprego. Sempre conversamos muito, e ele é versátil. Durante nossos 21 anos juntos, nossos salários foram equivalentes. Às vezes ele ganhava mais, às vezes eu... Mas a gente sabia que eu, com doutorado, sendo professora numa universidade federal, iria ganhar mais que ele. E felizmente não temos esse problema machista dele se sentir diminuído por eu ganhar mais. Desde que entrei no doutorado, também sabíamos que, quando acabasse, eu teria que prestar concurso. E, por mais que adorássemos Joinville, nunca pretendemos passar tanto tempo lá. Foram 15 anos. Queríamos muito morar no Nordeste. Portanto, ele ficou feliz em ter que se mudar pra Fortaleza. Está gostando daqui. Mas pra gente nunca houve dúvida: quando a mudança de cidade fosse necessária, seria natural privilegiar o salário mais alto. É o que as esposas fazem pelos maridos o tempo todo! E raramente os maridos fazem pelas esposas.

Como ele vê seu envolvimento com o feminismo?
Silvio é bastante feminista, mesmo que não assumidamente. Portanto, ele nunca teve algumas encucações que muitos homens têm (nisso de ganhar menos, ou de eu ter tido muitos parceiros sexuais antes dele). Ele vê nossa relação como igual. Só que eu sou mais prática, mais rápida, então às vezes eu acabo tomando decisões - democraticamente, claro. Nenhum de nós dois quis ter filhos, nunca fez parte do nosso projeto de vida, então não precisamos de nenhuma hierarquia aqui em casa. Infelizmente nossa casa não é muito limpa, porque não temos empregada, e eu não vejo que é dever meu limpar a casa só por ser mulher, e ele é meio preguiçoso. Temos alguns conflitos referentes a isso. Como sempre fui feminista, pra ele não foi nenhuma surpresa. Mas com o blog pude me expressar muito melhor. E ele apoia muito o blog, ajuda quase sempre que solicitado. Enfim, Silvio apoia meu feminismo, apesar de não ser a pessoa mais politicamente engajada do mundo, em qualquer área política. Pensando bem, talvez nossa maior semelhança é que ambos somos não-consumistas. Nesse sentido, não nos deixamos levar pelas "maravilhas" do capitalismo. Somos pão-duros miseráveis mesmo.

 

"Sejam mais críticas com o mundo e menos críticas com vocês mesmas e com outras mulheres."

 

Se você pudesse dar um recado para as leitoras da Tpm, qual seria?
Sejam mais críticas com o mundo e menos críticas com vocês mesmas e com outras mulheres. Já temos um mundo bastante hostil em relação a nós, um mundo que, apesar de estar em franca mudança, ainda é muito desigual. Então definitivamente não precisamos de mais inimigas. Por isso, não insultem mulheres, e pensem duas vezes antes de usar termos que só existem para condenar mulheres (por exemplo, galinha, piranha, baranga, mal amada). Essas palavras são ofensivas, mas "feminista" tá longe de ser um insulto. Quem quer igualdade entre os sexos é feminista.

Vai lá: //escrevalolaescreva.blogspot.com
www.twitter.com/lolaescreva

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