por Natalia Engler

Batemos um papo com Geena Davis, atriz do clássico Thelma & Louise e uma das principais militantes na luta pela transformação da representação de gênero na mídia

Thelma Dickinson pode ter despencado penhasco abaixo há 25 anos, ao lado de sua amiga Louise Sawyer, mas a personagem de Thelma & Louise nunca deixou de acompanhar a atriz Geena Davis. Depois do memorável filme de Ridley Scott, de 1991, considerado um marco feminista até hoje, Geena nunca mais parou de pensar sobre como as mulheres são mal representadas no cinema e na TV. “Mudou minha vida fazer parte desse filme", conta. Mudou a vida dela e a de um monte de gente que pela primeira vez descobriu que existia aventura feminina no cinema.

Essa reflexão acompanhou a atriz a vida toda e culminou em 2007 na criação do Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia, referência no mundo todo quando se trata de pesquisas sobre o tema. Hoje aos 60 anos, quando não está filmando, Geena viaja, discursa e faz reuniões com estúdios e criadores de conteúdo para pedir a diversidade nos personagens femininos na mídia. “Nossa meta é inspirar e sensibilizar a nova geração de criadores de conteúdo para focar na igualdade de gênero e diminuição de esteriótipos no audiovisual”, diz.

Geena lembra que depois de uma certa idade todos os papéis que lhe ofereceram eram reducionistas. Ela disse não para muitas personagens que eram apenas “a namorada do cara que faz todos as coisas legais ou a mãe do cara que faz todas as coisas legais”.

No intervalo entre as gravações da nova versão de O Exorcista, a atriz bateu um papo com a Tpm por telefone, de Los Angeles, enquanto dirigia a caminho do aeroporto – não estava abordo de um Ford Thumderbird verde, pena.

Além de retratar as dificuldades das mulheres em um mundo machista, Thelma & Louise inovou ao colocar duas protagonistas femininas em um gênero que sempre foi masculino, os road movies e filmes de “camaradagem”. Isso ajudou a promover uma mudança na indústria? Não. Nossas pesquisas mostram que nada mudou. Segundo estudos do Instituto, entre 2010 e 2013, só 23% dos protagonistas dos filmes de maior bilheteria eram mulheres, considerando os 11 maiores mercados de cinema do mundo. Na verdade, hoje, as personagens são mais sexualizadas, e desde muito jovens. Ainda são poucas as oportunidades para as mulheres interpretarem protagonistas complexas. Muitas das reações da imprensa na época anunciavam que Thelma & Louise mudaria tudo, que veríamos muito mais filmes protagonizados por mulheres, mais filmes de duplas femininas, mas nada mudou. Nesse sentido, foi muito frustrante e até chocante. De tempos em tempos sai um filme que faz um grande sucesso e vem aquela onda: "Agora tudo será diferente", mas não vemos isso nos números. O filme Jogos Vorazes, por exemplo, poderia ter mudado muita coisa, mas não mudou nada. O ponteiro ainda não se mexeu.

Mas as profissões femininas retratadas no cinema e na TV influenciam quem está do outro lado da tela, certo? Sim, com certeza! No ano em que Jogos Vorazes foi lançado e que saiu a animação Valente a porcentagem de meninas e mulheres fazendo arco e flecha disparou. Um estudo mais antigo trouxe dados sobre as muitas personagens de TV envolvidas com ciência forense, em séries como CSI, que inspiraram muitas garotas a irem para essa área. Hoje, nos Estados Unidos, algo como 65% dos estudantes universitários nesse campo de estudo são mulheres. Isso reflete o nosso lema: "Se elas podem ver, elas podem ser". Por isso é tão importante que tenhamos essas personagens.

Na televisão o cenário parece ser diferente. Hoje, vemos mais produções protagonizadas, escritas e dirigidas por mulheres. Você acha que a TV está progredindo mais rápido que o cinema nesse sentido? Tenho certeza que sim, nossas pesquisas mostram isso. É fato que a TV está fazendo um trabalho melhor. Há mais personagens femininas, mais protagonistas de séries, elas têm papéis interessantes, melhores profissões. Não é igualitário nem perfeito, mas é muito melhor do que nos filmes. E está melhorando continuamente. O ponteiro está se mexendo na TV, enquanto no cinema nada avança.

Quando você resolveu abraçar essa causa da representação feminina no audiovisual? Durante a maior parte da minha vida adulta me interessei pelo empoderamento de mulheres e meninas, mas foi quando a minha filha [Alizeh, hoje com 14 anos] era pequena que percebi um grande problema na mídia infantil. Fiquei muito chocada em ver tão poucas personagens femininas em filmes e programas feitos para crianças. Então, decidi que lutaria para que mostrássemos que meninos e meninas têm que dividir a caixa de areia igualmente.

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Depois de fundar o instituto e começar a abordar profissionais da indústria sobre o problema da representatividade das mulheres, você sentiu algum tipo de retaliação por colocar o dedo na ferida? A razão principal pela qual eu quis fazer as pesquisas foi para poder falar direto com os criadores. A ideia não era envolver todo o público no problema. Como eu conhecia todo mundo na indústria, podia ir falar direto com eles e tentar mudar o que fazem de uma maneira muito pessoal e direta. Mas adotei uma abordagem amigável e encorajadora. Quando visitávamos os executivos dos estúdios eles ficavam chocados. Não tinham ideia de que estavam deixando de lado tantas personagens femininas. E realmente queriam melhorar. Depois das reuniões a maioria dizia: "Vocês acabaram de mudar meu projeto", ou "Voltem! Por favor, façam mais pesquisas e nos ajudem". Então, nunca sofremos nenhuma retaliação. Na verdade, eles sempre ficavam horrorizados de não terem percebido antes. Especialmente quando se trata de entretenimento para crianças, todos se sentem responsáveis por fazer um bom trabalho e, quando percebem que estão falhando com as meninas em um nível tão profundo, realmente querem mudar.

Como Thelma & Louise impactou a sua carreira? Fazer esse filme mudou a minha vida, teve um impacto muito grande mesmo. As pessoas não só me reconheciam por causa dele, mas queriam me contar o que o filme significou para elas, como as marcou. Thelma & Louise realmente mexeu na ferida. Percebi como era raro que o público feminino tivesse com quem se identificar, como era raro que as mulheres estivessem no centro das atenções e fizessem coisas emocionantes. Isso mudou toda a minha forma de escolher papéis e como eu enxergava a representação das mulheres na mídia. Foi algo único, não tive nenhuma experiência como essa antes e também não tive nada parecido depois.

Então foi por influência de Thelma & Louise que você passou a escolher papéis que fugiam de estereótipos, como a jogadora de beisebol de Uma equipe muito especial e a pirata de A ilha da garganta cortada? Com certeza. Depois disso, em vez de só pensar no que era interessante e desafiador para mim, comecei a questionar também o que o público feminino pensaria da minha personagem. Sempre me pergunto: É alguém com quem as mulheres vão se identificar? Vai ser desencorajador para elas?

Muitas atrizes relatam a falta de oportunidades depois de uma certa idade. Aconteceu com você? Sim. Durante a minha carreira, minha média era de um filme por ano. Mas, entre os 40 e os 50, fiz apenas um filme. Até me ofereceram outras coisas, só que a qualidade e o tamanho dos papéis eram dramaticamente diferentes do que eu havia feito até então. Fiquei tão mal acostumada com papéis bons que não queria ser só a namorada do cara que faz todas as coisas legais, ou a mãe desse cara (risos). Eu queria eu mesma continuar fazendo coisas legais, mas elas não vinham.

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Você está filmando o piloto de uma nova versão de O exorcista para a TV. Por causa da sua presença, será uma série com maior representatividade feminina? Esta versão é uma história diferente. Ainda é sobre alguém que é possuído, mas eu interpreto a mãe de uma família com duas filhas, e também há dois padres. É bem equilibrado. Mas no set sempre brincamos que por eu estar no elenco temos que fazer tudo certinho, vai ter bastante gente prestando atenção (risos).

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