por Lia Hama

Atriz fala sobre o desafio de encarnar uma das maiores cantoras da MPB e faz um set list de suas cinco músicas favoritas interpretadas pela musa

Andreia Horta nasceu em 1983, um ano depois da morte trágica, por overdose de cocaína, de uma das maiores cantoras da MPB: Elis Regina. A atriz mineira cresceu ouvindo os discos de Elis e, aos 15 anos, cortou o cabelo tipo joãozinho igual ao da cantora gaúcha. Aos 33, ela interpreta a musa em Elis, filme de Hugo Prata que estreia nos cinemas no dia 24 de novembro. A atuação lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado este ano.

Elis mostra a trajetória da cantora desde a chegada ao Rio de Janeiro no dia do golpe militar em 1964, passando pelo início da carreira ao lado dos produtores Ronaldo Bôscoli (que se tornaria seu primeiro marido) e Luiz Carlos Miéle; a interpretação de sucessos como Arrastão (de Vinicius de Moraes e Edu Lobo) e O bêbado e a equilibrista (de João Bosco e Aldir Blanc); a apresentação do programa O fino da Bossa, na TV Record, junto com Jair Rodrigues; a ascensão artística e a consagração internacional. Também vemos a maternidade, o segundo casamento com o pianista César Camargo Mariano, as pressões do regime militar, as turbulências na vida pessoal e a morte precoce aos 36 anos.

Aqui, Andreia fala sobre o desafio de encarnar uma figura tão célebre e o medo das críticas e comparações.

Tpm - Você interpreta Elis no palco em vários momentos. Como foi seu processo de preparação para o personagem?

Andreia Horta - Tive acesso a um vasto material da Elis em entrevistas e palcos entre os 24 e os 36 anos dela. E estudei muito. Muito! Pedi à produção do filme três meses de preparação, com uma carga horária de oito horas por dia, cinco vezes por semana. Me sinto uma operária das emoções! Escolhi meu time de preparadores: Felipe Habib para o canto, Georgette Fadel para o corpo e Maria Silvia Siqueira Campos, que também é fonoaudióloga, para a fala e as cenas.

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Qual é o peso de interpretar uma artista como ela? Ficou com medo das comparações? Elis foi uma das maiores vozes que passaram por aqui. Minha responsabilidade era olhar para dentro e trazer à tona a mulher por trás daquela voz. No início foi difícil, eu temia as comparações, mas um dia me perguntei: “O que é atuação?”. E olha que eu interpreto desde criança, mas é fundamental manter essa pergunta sempre acesa. Entendi que sou uma atriz interpretando Elis, a minha Elis, todos sabem disso, e é exatamente aí que mora a minha liberdade. Cada atuação é única e original, porque é sobre isso ser um artista. Quando entendi isso, foi maravilhoso e tudo fluiu.

“Elis foi uma das maiores vozes que passaram por aqui. Minha responsabilidade era trazer à tona a mulher por trás daquela voz”
Andreia Horta

Qual a importância da Elis como precursora de algumas das bandeiras feministas no Brasil dos anos 60 e 70? A carreira dela aconteceu dentro de uma ditadura militar, com tudo o que isso implica. Tempos duros. A situação em geral do artista no Brasil era péssima. Todas as manifestações de inteligência e clareza sobre a situação do Brasil eram censuradas. Era um caminho para o embrutecimento, o espaço para a ignorância. Ao mesmo tempo, a posição da mulher estava mudando no mundo todo… E a Elis estava metendo a boca nisso tudo, estava se posicionando como mulher, como mãe, como cantora mundialmente conhecida que era, com toda aquela força que ela tinha.

CINCO VEZES ELIS

A pedido da Tpm, Andreia Horta fez uma lista comentada de suas cinco canções favoritas interpretadas pela Pimentinha.

1. “No dia em que vim embora”

“É uma das músicas mais marcantes para mim. Eu tinha 17 anos, estava saindo de Minas e indo para São Paulo estudar artes cênicas. Escutava essa música todos os dias e ia me sentindo mais forte.”

2. “Vinte anos blue”

“Eu já estava na faculdade, minha cabeça ganhando novos ventos, e eu, entendendo um monte de coisas sobre mim.”

3. “As velas do Mucuripe”

“Não sei explicar porque eu acho essa música, na voz da Elis, uma das mais bonitas. Sempre me emociona!”

4. “Yo tengo tantos hermanos”

“Amo essa canção que fala dos amigos que encontramos na vida. Eles são nossos pilares, nossas vigas.”

5. “As curvas da estrada de Santos”

“É e sempre foi uma das minhas interpretações prediletas da Elis, acho um escândalo! E apesar de o Roberto Carlos não me conhecer, sinto como se essa música tivesse sido feita pra mim [risos]!"

Vai lá: Elis, de Hugo Prata, a partir de 24/11 nos cinemas

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