por Bianka Vieira

A moçambicana se entrega de corpo e alma em seu primeiro disco solo, Nômade

Lenna Bahule não precisa de muito para provocar impacto em quem escuta seu som. Usando a voz como principal instrumento, a moçambicana causa um efeito entorpecedor ao percorrer diversos timbres em uma mesma faixa. Acompanhada por percussão e um intenso coro de vozes, a cantora de 26 anos transita em uma conexão quase mística entre Brasil e África ao lançar Nômade, seu primeiro disco solo.

Lenna é "um ser livre, que curte dialogar com as surpresas da vida". Ela é filha de um engenheiro de som que se aventurou como DJ no final dos anos 80, o que faz da música uma velha conhecida de Lenna. Engana-se, no entanto, quem acha que ela entrou nessa por brincadeira: longe do amadorismo, teve suas primeiras aulas de percepção musical aos 6 anos de idade. Enquanto aos 13, seu nome já ressoava pelos palcos e bares da capital Maputo, em Moçambique.

Suas influências musicais são as mais diversas possíveis. Quando pequena, ouvia de Supertramp a Roberto Carlos e de George Duke à Filarmônica de Viena. De lá pra cá, o estilo eclético se manteve, mas à sua playlist também foram incluídos concertos do russo Rachmaninov e até cantos harmônicos da Mongólia.

Vivendo no Brasil desde 2012, ela compartilha na entrevista abaixo um pouco de sua experiência com Nômade.

Desde quando a música faz parte da sua vida? Com 6 anos, por vontade da minha mãe, entrei na escola nacional de música, onde fiquei 8 anos. Foi lá que aprendi a ler e a escrever partitura, a história da música ocidental e tradicional moçambicana, flauta doce e Makwayela, um gênero de "música corporal" que pesquiso atualmente. Em 2003, recebi um convite para fazer parte de uma banda autoral que tinha um estilo batizado de "afrojazz". 

De onde surgiu a ideia de vir para o Brasil e fazer música? O meu sonho era estudar na Berklee College of Music, em Boston, e em 2012 ganhei uma bolsa. Só vim para São Paulo para tentar fazer uma audição e aumentar os pontos dessa bolsa. Um amigo querido pagou minha passagem e disse "vá correr atrás dos teus sonhos". Comprei o bilhete só de vinda, com $100 no bolso e sem muitos planos. Acabei não conseguindo fazer a audição e perdi a bolsa. Quando vi, estava aqui em São Paulo sem dinheiro — e sem vontade — para comprar um bilhete de volta. 

“A música é a minha religião, então ela representa tudo para mim”
Lenna Bahule

Como foi a experiência de fazer o primeiro disco solo? Muito especial, um encontro com a maturidade. Nesse trabalho, coloco tudo o que acredito na arte como filosofia de vida. Isso para mim é importante: ter voz e ser ouvida.

Mas Nômade é diferente de seus trabalhos anteriores? Nômade é uma grande aventura sonora. É de total desprendimento e liberdade. O disco não é de um único lugar, nem de uma única pessoa, é do mundo. Uso a minha história como mapa sonoro, mas nele fica o convite para também ser criativa. Este é o ponto comum entre Nômade e todos os meus outros trabalhos: a co-criatividade no momento do encontro com a arte. 

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E quais são as suas influências? São cotidianas. Estão nas conversas, nos encontros, na rua, cozinhando, tomando banho... E elas vão ressoando na minha criatividade de acordo com o momento em que estou. Sendo este o meu primeiro CD, tenho nele tudo o que escutei e absorvi na minha vida até então. Esse foi um dos grandes desafios.

Nômade traz faixas que não estão em português. Elas são cantadas em qual língua? Tem músicas em outras línguas africanas como swahili, changane, chope e em língua nômade — isto é, de lugar nenhum, inventada por mim, mas que cada um pode inventar a sua, de acordo com como a música vai soar. 

Como o público recebe suas canções com referências a outras religiões? Não sinto nenhum tipo de estranhamento ou dificuldade de aceitação com relação a isso. Até porque, o lugar onde coloco essas canções não é um lugar de culto,  nem de dogmatização. Acredito que elas não cheguem no ouvinte dessa forma. Sinto que as canções do meu repertório que fazem parte do cancioneiro gospel e religioso são apenas canções como outras quaisquer, que relatam histórias e fatos reais e naturais na vida de todo ser humano. "Pela manhã, as aves cantam, ação de graças ao nosso criador." [Canta Lenna.]   

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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