por Gaía Passarelli

Seis mulheres que fazem literatura de viagem, muito além de Comer Rezar Amar

O mundo da literatura de viagem é largamente masculino. Quando pensamos nos grandes do gênero, normalmente citamos homens – de Mark Twain a Paul Theroux, de Kapuscinki a Anthony Bourdain. Livros famosos do gênero viagem assinados por mulheres normalmente têm um teor emocional que os coloca na categoria memórias, como Comer Rezar Amar, de Elizabeth Gilberto, ou o (ótimo) Livre, de Cheryl Strayed. Livro de viagem “pra valer”, com histórias de sobrevivência na neve, expedições no oceano e explorações em países distantes é coisa "de homem".

Só que não é bem assim. Conheça abaixo seis exploradoras e contadoras de histórias com currículo impressionante.  

Infelizmente, só duas dessas escritoras tem traduções no Brasil. Alô, editoras!

Dervla Murphy
Quem vê a senhora Murphy bebendo um pint de cerveja Guinness no pub da pequena Lismore, na Irlanda, nem imagina o que essa mulher fez e viu em seus 80 anos de vida. Dervla começou a viajar na década de 1960, sozinha, de bicicleta e dependendo da hospitalidade das pessoas dos lugares que visita. Seu livro mais famoso é Full Tilt, sobre sua jornada da Irlanda até a Índia, atravessando Europa, Irã, Afeganistão, Paquistão e as montanhas do Himalaia (no inverno) em 1963. Em 55 anos de carreira, Dervla visitou todos os continentes e escreveu mais de vinte livros, normalmente com forte teor político. Só parou de viajar durante um período de cinco anos quando deu a luz à Rachel, sua única filha. E nunca parou de escrever. Mãe solteira, levou Rachel na bagagem desde cedo – a viagem mais recente das duas foi para Cuba, em 2005. Dervla foi atacada por lobos nos Balcãs e esteve entre integrantes do Hamas na Palestina, mas diz que seu acidente mais perigoso foi “tropeçar nos gatos e quebrar o braço esquerdo” em casa mesmo. Ela é tema de um documentário que estréia na Irlanda no dia 23 de Abril (que não por acaso também é o Dia Mundial do Livro).
Leia: Between River and Sea, livro de 2011, publicado após uma viagem para a Faixa de Gaza. E essa entrevista, de 2011, uma das raras conversas de Dervla com a imprensa.

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Freya Stark 
Francesa de nascimento, inglesa por parte do pai e italiana por parte da mãe, Freya Stark foi não só a primeira mulher a percorrer sozinha partes do mundo árabe, mas a primeira pessoa ocidental a se aventurar em partes até então não exploradas da Síria, Irã e Iêmen  nos anos 1930. Freya foi movida por uma obsessão da infância: as histórias de As Mil e Uma Noites que ganhou de presente do pai aos nove anos. Fluente em cinco línguas, incluindo árabe e persa, e com conhecimentos de cartografia e medicina, ela escreveu mais de vinte obras sobre suas viagens.
LeiaThe Valleys of the Assassins and Other Persian Travels, de 1934 (existe em português luso e chama No Reino dos Assassinos).

Emily Hahn 
Com formação em engenharia de minas, atravessou os EUA de carro, morou no Congo, viajou a pé parte da África, viu a Segunda Guerra Mundial a partir de Hong Kong e, de volta aos EUA, entrou para o time de articulistas da New Yorker. Um currículo e tanto para qualquer pessoa, mas incrível ainda para uma mulher na primeira metade do século passado. Emily Hahn desafiou a concepção do que uma mulher podia ou não fazer, e lendo suas memórias é importante notar o quanto disso ainda hoje seria considerado ousado demais ou totalmente inviável.
Leia: No Hurry to Get Home, coletânea de ensaios para a New Yorker.

Jan Morris
Jan nasceu James Morris em 1926 no País de Gales, e mudou de nome após tratamento hormonal e cirurgia na década de 1970. Teve cinco filhos e dois casamentos com a mesma mulher. Como historiadora, pesquisou e escreveu Pax Britannica, trilogia essencial sobre a história do Império Britânico. Como escritora de viagem fez retratos de diversas cidades européias, americanas e asiáticas, sempre equilibrando pesquisa histórica e uma visão poética de paisagens e personagens. Seu livro sobre Veneza, é considerado a obra definitivo sobre a cidade. Também escreveu ficção e reportagem, mas seu trabalho mais importante é seu livro de memórias sobre seu processo de descoberta de identidade de gênero, de 1974. Saiu em português como Conundrum: o enigma.
Leia: The World – Travels 1950-2000, com reportagens sobre lugares e momentos cruciais da história que Morris relatou em primeira pessoa, como a conquista do Everest e a Queda do Muro de Berlim.

Karen Blixen
“I had a farm in Africa, at the foot of the Ngong Hills.” A Fazenda Africana é o livro de memórias de Karen von Blixen, baronesa da Dinamarca que na década de 1910 se mudou para o Quênia. Karen viveu na África (sozinha, com o marido e com o amante) até 1931, quando retornou para a Europa. Como outras das mulheres dessa lista, Karen é parte de um mundo que não existe mais e deixou registrada a colonização imperialista e outros conflitos da África.  Independente do seu interesse por história, as descrições que ela faz das paisagens e personagens do Quênia são uma leitura e tanto. A Cosac Naif lançou uma edição fabulosa de A Fazenda Africana em português que dá para encontrar em algumas livrarias, sebos e sites como o Estante Virtual. O título em inglês é Out of Africa e a adaptação para o cinema nos anos 1980, com a Meryl Streep e Robert Redford nos anos 1980, ganhou sete Oscar e fez um monte de gente querer viajar para o Quênia.

Georgia Hesse
Mrs Hesse foi das primeiras repórteres profissionais dos EUA, editora-fundadora do caderno de viagem do San Francisco Examiner e empregada direta do William Randolph Hearst, o magnata da imprensa norte-americano que inspirou o Cidadão Kane, de Orson Welles. Aos oitenta e tantos anos, ela mora na Bay Area de São Francisco e é mestra da Book Passage Travel Writing Conference, onde ensina novos escritores (principalmente escritoras) de viagem. Todos os anos ela abre a conferência com uma porção de histórias sobre sua carreira e, entre outras coisas, já a ouvi falar sobre atravessar o Polo Norte, viajar a bordo do Expresso do Oriente e experimentar o primeiro voo direto dos EUA para o Rio de Janeiro. Georgia escreveu para mais de 20 revistas e 40 jornais ao redor do mundo e publicou cerca de 15 guias de viagem – mas ainda nos deve um livro com as suas histórias.

Créditos

Imagem principal: Dervla Murphy / Reprodução

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