por Carol Bueno

A arquiteta Carol Bueno, do escritório Triptyque, foi a Israel para o Woman Festival e conta como a visita arejou sua visão sobre uma arquitetura feita por mulheres

Quando recebi o convite para o simpósio, que aconteceu em março, senti uma mistura de curiosidade e mal-estar. Como ainda é possível, em 2016, um simpósio de arquitetura dentro de um festival “para mulheres”? Minha estranheza era enorme sobretudo porque eu havia visitado Israel há 20 anos e o país parecia um oásis de tecnologia e conhecimento no meio do Oriente Médio.

Depois de 21 horas voando de São Paulo a Tel Aviv, chego exausta em um majestoso aeroporto de pedra de Jerusalém, marcante e muito comum na construção local. Esperei por 2 horas até que um oficial do controle de passaportes terminasse de me interrogar, visto que eu era “uma mulher viajando sozinha”. Partimos do aeroporto direto para o Claro Restaurant [na foto em destaque], um galpão restaurado em uma zona da cidade que havia sido o headquarter dos britânicos durante a Segunda Guerra, depois usado pelo Mossad. Um lugar marcante.

Meu primeiro dia começa com um passeio com a família de arquitetos Kisselov-Kaye, que se instalou no bairro abandonado de Jaffa nos anos 70 e criou uma espécie de kibutz urbano [foto abaixo]. É um lindo projeto de vida liderado principalmente pelas mulheres da família.

No segundo dia fui a Jerusalém com outros dois professores convidados. A viagem passou pela fronteira da Palestina até chegar à cidade santa. O clima de conflito e desigualdade é latente na região. Como era a única mulher – acompanhada por um árabe e um iraniano, além do guia israeli –, o preconceito velado é constante. Eu estava ali “apenas acompanhando”, dizia-se. Então tive uma pista da razão de ser do simpósio: arquitetas mulheres ainda têm sua luta por um lugar ao sol.

O evento aconteceu em um complexo cultural no centro de Holon, a meia hora de Tel Aviv, onde três equipamentos públicos foram construídos nos últimos anos: uma mediateca, o Museu do Design [foto abaixo] projetado pelo israeli Ron Arad, e uma praça cívica, o que mudou o panorama da cidade.

Dois projetos me marcaram pelo alcance e a arquiteta chinesa Liu Jian, professora da faculdade de arquitetura e urbanismo de Tsinghua, em Xangai, trouxe sua visão sobre a grande urbanização chinesa e sobre modelos para um país em que cidades de 1milhão de habitantes são comuns; já a arquiteta indiana Shimul Kadri, de Mumbai, que trabalha com uma equipe essencialmente de mulheres, apresentou sua obra delicada com alto impacto em estratégias locais.

Uma passagem rápida por um país que une culturas, tradição e modernidade e que tem uma agenda para abrir espaço para mulheres na arquitetura. Voltarei sempre.

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