por Antonia Pellegrino
Tpm #174

Estamos entre aqueles que forçaram a porta do presente, fracassaram, tentaram de novo, fracassaram melhor e teimaram

Rio, 08/03/2038

Antonia,

hoje fazemos bodas de prata de feminismo. Lembro com um sorriso no rosto e o coração emocionado quando você deixou-se tornar, tomar, levar pelo feminismo. A gente não tinha escolha, a não ser se lançar. Confiar que era um encontro de vida, de eriçar os pelos, eletrizar as ideias e despertar pela primeira vez uma alegria guerreira que por tanto tempo você sonhou. A partir daí, nós encontramos nosso lugar de fala, que é um jeito de falar de nós e do mundo, de mãos entrelaçadas.

Foi essa entrega, e de tantas outras companheiras da sua geração, que nos fizeram chegar até aqui: Rio de Janeiro, 8 de março de 2038. Neste momento faz sol, e dizer isso é político. Desde os anos 70 do século passado, já era. Foi nesta época que os primeiros cientistas começaram a soar o alarme sobre um buraco na camada de ozônio e suas consequências. E que surgiu o que à altura chamávamos de hipótese de Gaia, posteriormente entendida como uma teoria científica da ecologia profunda que nos afirma que as condições climáticas e biogeoquímicas do planeta são mantidas em homeostase pelos componentes físicos do planeta Terra – atmosfera, criosfera, hidrosfera e litosfera.

Todo este vocabulário poderia soar estranho para as pessoas de 38 anos da minha época, mas não hoje. Quando boa parte de nós passou a se entender como espécie, e não mais como indivíduos, dar nome e saber os nomes do que forma o planeta, do que nos faz ser quem somos, se tornou comum.

Na época em que eu, quer dizer, você, tinha 38 anos, começou a corrida final pelo petróleo das zonas mais difíceis de escavar, graças às desregulações promovidas pelo governo Trump – aquele apresentador de televisão de cara laranja que dizia ser antissistema, mas era a personificação do sistema, entrou no coração do hardware capitalista para destruí-lo, pelo próprio bem e de poucos (até hoje, segue o baile do 1% contra os 99%).

Estamos entre aqueles que forçaram a porta do presente, fracassaram, tentaram de novo, fracassaram melhor. Teimaram. Em iluminar a noite com um farol, em repensar modelos de sociedade a partir de plantas, em viver numa sociedade onde a mulher não seja um outro. Seja.

Juntas, demos a partida há exatos 20 anos, em 2018, quando fomos capazes de criar uma pequena bancada feminista suprapartidária e transnacional, que eleição após eleição uniu mulheres nas casas legislativas de todo o país. E passamos a apresentar projetos em bloco. E a aprovar leis.

Uma das que mais impactou nossas vidas foi a lei da licença-paternidade, que agora é igual para homens e mulheres. Dura de quatro a seis meses para trabalhadores que não tiverem sido precarizados. No médio prazo, uma mudança estrutural finalmente varreu a nossa sociedade, já que as mulheres pararam de ser discriminadas nos postos de trabalho. 

Graças a nós

Antonia! Você não sabe a diferença que isso fez! Em qualquer empresa que se chegue hoje, as diretorias são paritárias. As baias são ocupadas igualmente por homens e mulheres. E como eles também passaram a ter licença-paternidade, acabou aquela continha matreira do quanto uma mulher custa por engravidar e ter licença-maternidade. Ou seja, os salários foram se tornando cada vez mais iguais. O assédio no trabalho praticamente foi extinto. E já não havia mais como tentar nos diminuir, pois éramos muitas e em postos de comando e tomando decisões; os caras tiveram que nos engolir.

Como as cidades latino-americanas, asiáticas e africanas acabaram virando megalópoles cada vez mais cheias e caras, nós passamos a viver em casas coletivas. E a não maternidade passou de tabu a totem. Aquela que decide ter filhos, os tem, coletivamente. Com pais e mães. Numa estrutura de cuidado comunitária que emergiu dessas casas. Toda casa tem pelo menos uma ou duas crianças. E dez, 20 adultos, de ambos os sexos, que compartilham sua maternidade e paternidade.

Isto extinguiu a secular figura da babá, e emancipou milhares de mulheres, sobretudo negras, que trabalhavam em casas particulares cuidando dos filhos das mulheres que saíam para trabalhar.

Os trabalhos manuais, sempre relegados ao décimo plano, como cozinhar, cuidar, limpar a casa, tirar o lixo, fazer a compostagem do próprio lixo, cultivar as hortas comunitárias são atividades que homens e mulheres fazem igualmente, neste tempo enorme que foi liberado com o declínio das famílias tradicionais.

O feminismo, que é uma das ferramentas antissistêmicas mais poderosas que conheço – já que o sistema tal como era nos meus 38 anos, e como ainda é entre alguns, foi feito pelos homens e para os homens e nos levou ao colapso –, ensinou aos homens e às mulheres a se reconectar com as mãos, os corpos e a terra. E para celebrar isso, plantamos, colhemos e compartilhamos refeições.

Acho, Antonia, que você teria orgulho dos meus cabelos brancos e das rugas que marcam nosso rosto. Eu nunca deixei que aquela fagulha que brilhava no seu peito fosse apagada pelo tempo. E apesar de toda a fragmentação do mundo, resisti. Envelheci com brilho nos olhos e fogo no coração, sem me deixar intoxicar pelo conservadorismo. Graças a você, a mim e aos feminismos.  

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