por Antonia Pellegrino
Tpm #168

Os impossíveis padrões de beleza brasileiros fazem parte de um sistema de valorização e descarte de mulheres. E nós não devemos tomar parte nele

Minha filha Iolanda tem 4 anos e, quando me viu saindo para correr na praia durante as férias, perguntou: “Por que você fica correndo, mamãe?”. Antes que eu pudesse responder, minha mãe disse: “Sua mãe também quer ser fitness”. A palavra fitness é ostensivamente opressora e fala de um nível de exigência não satisfeito por um corpo magro e belo. O advérbio “também”, nessa frase, é muito importante. Revelaria um desejo de participar de uma comunidade.

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Eu definitivamente não faço parte desse modo de consumo indefeso e meu desejo é pouquíssimo mobilizado pelo que não me dá alegria. Mas a questão é entender alegria de outra maneira.

Me depilo todo mês, mas não faço unha, nem sobrancelha – só muito eventualmente. Não tenho esse tempo. E ficar mais de 1 hora no salão me entristece. Além disso, passei a achar cafona unha da mão pintada. Mas acho bonito quando meu pé está feito. Mas isso é raro. Sim, tomo suco verde quando tenho maçã em casa. Porque gosto de estar em harmonia com o fluxo do corpo que, de 4 horas da manhã ao meio-dia, elimina os resíduos não aproveitados, então o ideal é ingerir sucos e frutas até a hora do almoço. Fazer isso não é seguir um ideal externo, ao contrário, é estar conectada com o meu funcionamento. Consigo fazer sempre assim? Claro que não, e também não surto. Evito açúcar porque me sinto mal – imagino meu intestino colando à passagem daquela substância grudenta.

Não evito pão, porque pão feito com um glúten dos bons não precisa ser evitado. Me informo sobre alimentação e não engulo qualquer modismo. Faço detox não para emagrecer – embora seja sempre uma boa consequência –, mas para sentir aquela inteligência vibrante que se ativa a partir do terceiro dia. Exercício também faço para ficar mais inteligente. Endorfina, musculatura, gás: tudo isso melhora o dia, o corpo, a mente, melhora a vida – não somente o abdome ou a bunda, que, óbvio, também nos alegram quando estão bonitos.

Aceso por dentro

Vou pegando o que me interessa do que foi colocado na prateleira “beleza” e incorporando à minha vida, usando um único critério: alegria. “Belezas são coisas acesas por dentro”, diz o verso de uma bela canção. Esse verso é meu norte. Talvez por isso a mesa a que assisti, na Casa Tpm, sobre beleza tenha sido para mim verdadeiramente sobre violência contra a mulher. Se por um lado ali se questionava os padrões de beleza – cada vez mais complexos e desumanos –, por outro, suas questões emergiam sempre de dentro do sistema de opressão. E não do umbigo, do lugar da onde belezas podem ser acesas.

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Não fazer unha pode parecer desleixo (pra quem?), mas é política. Detox também. É uma outra forma de se conectar com o ato ancestral de alimentar-se. É política afirmar que não desejo compartilhar um padrão fitness, embora goste de me exercitar. Esses impossíveis padrões de beleza brasileiros fazem parte de um sistema de valorização e descarte de mulheres. E nós não devemos tomar parte nele, por sermos justamente aquelas que mais sofrem.

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