por Antonia Pellegrino
Tpm #156

Tanto eu como minhas amigas estamos no topo da pirâmide do poder feminino, e ainda assim somos cuspidas, sacudidas e porradas. ficamos tão em choque que não conseguimos reagir

Outro dia, voltando pra casa de bicicleta, um homem cuspiu na minha cara. Eu não havia jogado a bicicleta em cima dele nem estava a mil por hora. Ele devia estar saindo do trabalho, apenas nós dois dividíamos a mesma faixa, portanto havia espaço para ambos. E de repente um homem que eu nunca vi cuspiu na minha cara.

Dia desses, uma amiga saía do metrô digitando uma mensagem quando sentiu uma pessoa excessivamente perto dela. Olhou pro lado e um sujeito a observava. Perguntou: "O que foi? Tá precisando de alguma coisa?". E ele agarrou seus ombros, sacudindo-a, ameaçador, e disse: "Vai encarar?!". Há poucas noites fui à festa de aniversário de uma amiga, numa bela casa no Rio de Janeiro, repleta dos golden boys and girls cariocas, a suposta nata da nata, e o namorado da aniversariante, um ciumento convicto, deulhe um tapa na cara perto da fila do banheiro.

Tanto eu quanto minhas amigas estamos no topo da pirâmide do privilégio e poder feminino, e ainda assim somos cuspidas, sacudidas e porradas – para nenhuma de nós trata-se da primeira agressão, a novidade é o abuso dos desconhecidos. E mesmo em nossas posições, diante da violência, ficamos tão em choque que não conseguimos reagir. Pedir ajuda, chamar a polícia, levar o agressor à delegacia, dar queixa, nada. E ainda assim estamos no topo do poder.

Um poder que não é exercido. Um poder à sombra, talvez. Um poder que na hora de se fazer ação, se cala. E aí penso nas mulheres em situações mais desprotegidas e precárias, e só posso pensar no #partidA, o partido feminista capitaneado pela filósofa e escritora Marcia Tiburi, entre muitas. 

Adesivos misóginos

Apesar de a presidenta ser mulher, e ter escolhido ministras e executivas para cargos importantes em seus mandatos, é nítida a quase ausência de mulheres deputadas, prefeitas, senadoras, vereadoras. Assim como é nítido também, nas críticas à Dilma, o machismo latente que os adesivos misóginos de carro tornaram flagrantes.

As mulheres são maioria no Brasil, e ainda permanecem minoria no sistema representativo. Diante desse vazio, qualquer mulher identificada em algum nível com o feminismo tem o dever de felicitar e batalhar pela efetivação desse gesto novo que é a criação do #partidA.

A disputa não é pelo rebaixamento do homem, mas por uma outra economia de valores e reconhecimentos. Reconhecer o lugar do homem é fundamental na luta por reconhecimento do lugar da mulher. Feminismo não é coisa de mulher. É questão de igualdade. Por princípio. O que não quer dizer que não devam ser as mulheres a lutarem pela instauração desse paradigma, o que não quer dizer que em alguma medida sejam as mulheres a lutarem contra os homens ou mulheres machistas. O poder quer mais poder, quer permanecer no poder, isto é, não se partilha o sensível sem luta. No entanto, minha luta aqui é para dizer que esta disputa não é apenas de quem tem uma vagina entre as pernas, de quem tem ou não privilégios por quem é. É uma luta ética, de quem compartilha os mesmos valores, independente do sexo, da prática sexual, do gênero, da classe, da cor.

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