por Lia Hama
Tpm #158

Anna Muylaert atraiu os holofotes após o lançamento de seu filme, Que horas ela volta? À Tpm, a cineasta fala sobre machismo e apartheid social no país

Segunda-feira, 7 da noite. Anna Muylaert chega esbaforida a sua casa no bairro da Lapa, em São Paulo, onde daria uma entrevista à Tpm e faria a sessão de fotos. “Gente, mil desculpas pelo atraso! Minha vida tá uma loucura, vou ter que pular o muro pra entrar em casa. Cheguei hoje dos Estados Unidos, não sei onde coloquei a chave!”, diz a diretora, antes de começar a escalada de 4 metros de altura. Ao ver a cineasta com salto alto e pouca habilidade para a empreitada, o diretor do Trip TV, Diógenes Muniz, se oferece para ir em seu lugar e abrir a porta. “Menino, desce daí, você disparou o alarme da minha casa”, grita um vizinho da varanda. 

Anna teve a vida virada do avesso desde o lançamento de seu mais recente filme, Que horas ela volta?, estrelado por Regina Casé e escolhido para representar o Brasil na disputa por um lugar entre os filmes estrangeiros do Oscar 2016. Aos 51 anos, a cineasta paulistana entrou numa maratona de entrevistas a TVs, revistas e jornais interessados em falar sobre o drama que escancara o apartheid social no país por meio das relações entre uma empregada doméstica, a filha dela e os patrões numa mansão do Morumbi. Anna é diretora, roteirista e coprodutora do longa-metragem, vendido para mais de 30 países e premiado nos festivais de Berlim e Sundance. 

No momento, a cineasta concentra os esforços na disputa por uma das cinco vagas para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Os cinco nomeados serão anunciados em janeiro do ano que vem e a cerimônia de entrega do prêmio acontece no dia 28 de fevereiro, em Los Angeles. Quando a Tpm foi à casa da diretora, ela havia acabado de chegar de Miami, onde foi divulgar o filme à imprensa americana. No mesmo dia, participou de uma reunião com produtores em São Paulo para discutir a estratégia para o Globo de Ouro, tido como um termômetro para o Oscar: filmes premiados no primeiro têm grandes chances de levar estatuetas no segundo. “Foi marcada a data de exibição aos jurados. Tenho que ir a Los Angeles no mês que vem”, explica. 

"Meu namoro com Cláudio Assis foi bem instável, como tudo que envolve o Cláudio. Durou um ano."

Apesar de só ter atraído os holofotes agora, Anna construiu uma carreira sólida na televisão e no cinema ao longo de mais de 20 anos. Dirigiu longas que foram bem de crítica, mas atingiram um público restrito, como Durval discos (2002) e É proibido fumar (2009). Como roteirista, colaborou em filmes como O ano em que meus pais saíram de férias (2006) e Xingu (2011), ambos de Cao Hamburguer, e Praia do futuro (2014), de Karim Ainouz. Na televisão, participou da criação de programas infantis memoráveis, como Mundo da lua e Castelo Ra Tim Bum, da TV Cultura. Seu pai, Roberto Muylaert, foi presidente da Fundação Padre Anchieta, que dirige a emissora paulista, por dez anos. “Mas ele nunca me ajudou lá dentro”, garante a filha. 

Nascida numa família de classe média alta, Anna cresceu numa casa espaçosa com piscina no bairro de Alto de Pinheiros. Estudou em colégios de elite da zona oeste paulistana e, aos 16 anos, ingressou na Escola de Comunicações e Artes da USP. Sua casa atual, na Lapa, também tem piscina. “Faço parte da elite, não nego. Mas o filho da minha empregada entra na piscina com os primos. E, uma vez por ano, perto do Natal, faço uma festa ali para a minha empregada atual, Raimunda, minhas ex-empregadas e os filhos delas.”

Recentemente Anna foi tragada por uma discussão acalorada – dentro e fora das redes sociais – sobre machismo no cinema, envolvendo os diretores pernambucanos Cláudio Assis, seu ex-namorado, e Lírio Ferreira, seu amigo. 

Para enfrentar o turbilhão de emoções, a cineasta recorre ao budismo tibetano, que pratica há mais de 20 anos, e aos ensinamentos de um livro que leu na juventude e nunca mais esqueceu: Tao te ching, de Lao Tse, obra fundamental do taoismo. “O taoismo diz que, se você quer trabalhar bem, tem que saber não trabalhar. Se trabalhar incessantemente, a tendência é a decadência. Então, quando essa loucura em torno do Oscar acabar, quero ficar um bom tempo sem fazer nada.” 

"Meu filme chegou a um patamar onde não há mulheres. Até hoje só tinha acontecido com Walter Salles, José Padilha, Hector Babenco"

 

Tpm. Como será a campanha ao Oscar a partir de agora? 

Anna Muylaert. Vamos contratar uma estrategista americana e ela vai apontar os próximos passos. É preciso fazer os screenings para os membros da Academia porque a própria Academia só realiza uma sessão do filme. Aí tem os coquetéis e as coletivas de imprensa. É um caminho padrão. A gente recebe R$ 150 mil da Ancine, mas esse valor não cobre todas as despesas. Então vamos ter que ir atrás de dinheiro privado.

Qual é o apelo do filme para os estrangeiros? Acho que os estrangeiros gostam pelo mesmo motivo que a gente gosta, mas com a diferença de que, no Brasil, o filme é um espelho e abre uma discussão social. Lá fora, mostra um país que os gringos não estão acostumados a ver: o Brasil que existe entre o samba e a violência. É um filme que fala sobre relações de poder de maneira não panfletária e conta com uma performance incrível da Regina Casé. A Regina contribuiu não só como atriz, mas como pesquisadora de tipos populares. Ela construiu a personagem Val com pedaços das nordestinas que ela conheceu ao longo de anos trabalhando com programas como o Brasil legal e o Esquenta.

Como é a reação do público lá fora? Sempre que termina o filme, a primeira pergunta que me fazem é: “Isso é verdade? Essa relação entre patrões e empregados ainda existe? Porque isso é da época do meu bisavô”. Respondo: “Pois é, ainda existe”. Mas também explico que o Brasil está mudando. Com a PEC das Domésticas, uma empregada que dorme no trabalho como a Val está em extinção. Há dez anos, 22% das empregadas dormiam na casa dos patrões; hoje são 2%.

Você falou muito sobre o machismo no cinema brasileiro depois do episódio em Recife envolvendo o Cláudio Assis e o Lírio Ferreira. O que aconteceu ali? Quem conhece o Lírio e o Cláudio sabe bem o que aconteceu. Eles bebem muito, chegam nos lugares e berram, dançam e cantam. Isso é a atitude normal deles. São muito queridos, mas são dois coronéis do cinema pernambucano. No debate promovido pela Fundação Joaquim Nabuco no final de agosto, eles estavam bêbados. Quando eu ia falar, o Cláudio pegava o microfone e berrava, e ele nem tinha visto o filme. Lírio também me interrompia o tempo todo. Em dois momentos, ao citar a Regina Casé, Cláudio gritou: “Gorda, gorda!”. Ninguém mandou chamar o segurança porque a gente conhece os dois, sabe como eles são. O que foi diferente é que, no dia seguinte, o Thales Junqueira, diretor de arte do filme, falou: “Não posso deixar passar em branco”. Aí postou no perfil dele no Facebook: “Ontem vi um show de machismo, gordofobia e homofobia”. Porque o Cláudio chamou o Marcos Freire, maquiador da Regina, de “bichona”. 

"Falei pra minha empregada:'Quero que você coma na mesa comigo e com meus filhos'"

Qual foi a sua reação? Entrei no post e escrevi: “É verdade, o homem não sabe ver a mulher no protagonismo e ele como coadjuvante. Se vê a mulher como protagonista, tenta tirá-la dali e dizer que é o protagonista”. Na hora, não imaginava a reação que viria depois. Houve uma repercussão nacional e internacional. Dei entrevista a uma rádio de Miami sobre o filme e as pessoas sabiam dessa polêmica.  

O que aconteceu em Recife foi machismo? Eu estava lá para debater meu filme e havia dois cineastas locais me atrapalhando, interrompendo minhas falas aos berros. Então é óbvio que é um desrespeito, um coronelismo. Não necessariamente porque eu era mulher porque acho que fariam o mesmo se fosse homem. Mas, quando o meu trabalho adentra em um território onde se ganha dinheiro e só tem homens, começo a receber cotovelada. 

Você foi namorada do Cláudio Assis e escreveu o roteiro do próximo filme dele, Piedade. Como ficou a relação de vocês? Estremecida. Logo depois do ocorrido, liguei pra ele e falei: “Cláudio, pede desculpas”. Ele foi no Facebook, pediu desculpas e tava tudo certo. Só que, no dia seguinte, li ele falando na Folha de S.Paulo: “A Regina é gorda mesmo. Sou magro e ela, gorda”. Aí não gostei. Ele fez um discurso fascista, dizendo que ela é uma coisa que a sociedade acha ruim e ele é uma coisa que a sociedade acha boa. A Regina não é gorda, é uma mulher de 60 anos. Com a idade, a gente vai ganhando peso mesmo, é natural. São padrões aos quais as mulheres brasileiras são submetidas e os homens não. A Dilma é gorda, mas o Lula não é? A Dilma se veste mal, mas o Lula, não?  

Como foi a época em que você namorou o Cláudio Assis? Foi um namoro bem instável, como tudo que envolve o Cláudio. Durou cerca de um ano, faz tempo, já tem uns cinco anos que acabou.

"Venho de uma prática budista que diz: 'Não absorva nem a crítica boa nem a má'"

Isso teve algum reflexo no que aconteceu em Recife? Não, imagina. Eu e Cláudio ficamos amigos depois que o namoro acabou, tanto que fiz o roteiro do filme dele, Piedade. Ele se casou de novo, sou amiga da mulher dele. Eu tô casada também. Não tenho mágoa, nem bode, nem vontade de vingança. O Cláudio é uma pessoa superimportante pra mim, tem uma visão política e social do cinema que me influenciou muito. Ele me falava: “Vocês, cineastas paulistas, só fazem historinha boba, não falam o que acontece de verdade nessa cidade nojenta. Começa a falar as coisas, Anna!”. 

O que você achou das vaias que ele recebeu na exibição do filme dele, Big jato, em Brasília? Acho que as coisas ganharam uma dimensão que ninguém imaginava. Fico chateada que ele e o Lírio estejam sendo demonizados, porque são pessoas legais, inteligentes e libertárias. Em toda a entrevista que dou, procuro tirar do âmbito deles e levar para o geral. O homem tem uma tendência ao narcisismo, à egolatria e à arrogância e a mulher, à humildade, quase subserviência. Desde que nascemos é assim. Então o episódio em Recife foi um ponto de partida para discutir esses assuntos. Acho que fez todo mundo crescer.

Essa discussão lembra o discurso da Patricia Arquette no Oscar deste ano, pedindo igualdade de salários entre homens e mulheres no cinema. Exato. Só que quando a gente fala de igualdade de salário é mais fácil entender porque é uma matemática. Agora o machismo é um conjunto de regras invisíveis e vigentes em homens e mulheres – mesmo em mulheres poderosas. Um negócio que a gente tem que olhar, observar e ver onde desligar. O que senti é que o meu filme chegou a um patamar de poder onde não há mulher. Ser distribuído em mais de 30 países, fazer sucesso na Europa e nos EUA, até hoje só tinha acontecido com homens: Fernando Meirelles, Walter Salles, José Padilha, Hector Babenco. É difícil até pra mim entender isso. 

"Se cuidar de um bebê não é o trabalho mais importante, então qual é? Ganhar Oscar? Eu não acho"

E quando tem um homem e uma mulher dirigindo, em geral, só lembram do homem. Exatamente. É muito mais fácil a sociedade reconhecer o sucesso masculino do que o feminino. Por exemplo, dizem que sou a primeira mulher a representar o Brasil em 30 anos. Porém, a Kátia Lund codirigiu Cidade de Deus (2002) com o Fernando Meirelles, mas ninguém se lembra dela. A Karen Harley dirigiu com a Lucy Walker e o João Jardim o Lixo extraordinário (2011), que concorreu ao Oscar na categoria Documentário. De novo, ninguém se lembra delas. Então existe essa ideia de que a mulher pode fazer o trabalho, mas não senta no trono. 

Antes de Que horas ela volta?, você dirigiu filmes que foram bem de crítica, mas atingiram um público restrito. Como se sente nessa nova situação de diretora famosa? Acho que é o resultado de uma maturidade. Que horas ela volta? é o meu melhor filme, o mais complexo e o mais completo. Mas o que eu desejo são boas condições de trabalho e, para isso, é bom esse reconhecimento. Venho de uma prática budista que diz: “Não absorva nem a crítica boa nem a ruim porque as duas te levam pra baixo”. Acredito no que eu sinto, mais do que no que os outros falam. Senti esse filme muito poderoso desde a época do roteiro. Depois, filmando, era show de bola o tempo todo. Quando as primeiras críticas positivas começaram a acontecer, fiquei feliz, mas não mudou nada substancialmente. Agora, o fato de chegar ao grande público é muito importante porque o mercado nunca entendeu o filme como popular, embora eu sempre tenha acreditado em sua vocação popular. 

Era visto como um filme de arte? O mercado brasileiro divide os filmes em dois: de arte ou comédia da Globo. E comédia da Globo é feita com atores da Globo, linguagem da Globo, tudo da Globo. É uma extensão do que o espectador vê em casa. Embora tenha vocação popular, meu filme é feito de maneira cinematográfica, tem drama. 

Como surgiu a ideia do filme? Foi quando nasceu meu primeiro filho, o José, hoje com 20 anos. Nessa época, fiquei dois anos em casa sem trabalhar fora. Estava apaixonada pela experiência de ter um filho. Achava que, se eu limpasse todos os cocôs, passasse todas as noites em claro e me entregasse ao máximo àquela situação, me tornaria uma pessoa melhor. Porque até então só cuidava de mim mesma. Mas minhas amigas diziam: “Arranja uma babá. Você tá ficando uma velha chata”. E contratei uma. Ela chegou, pegou o bebê e fechou a porta do quarto. Passei mal, fiz mil questionamentos.  

Quais questionamentos? A babá no Brasil é uma forma de desvalorizar o trabalho materno. Se cuidar de um bebê não é o trabalho mais importante do mundo, então qual é? Ganhar Oscar? Não acho. A sociedade valoriza sucesso, poder e riqueza e desvaloriza educar um filho ou ser uma pessoa legal. Esse filme nasceu desse choque de valores. Outro dia assisti ao filme Voo United 93. Os caras estão no avião, falando de trabalho o tempo todo. Quando percebem que vão morrer, ligam pros parentes e dizem: “Fala pra fulana que eu a amo”. Na hora de morrer, só se fala em amor, mas durante a vida só se fala em dinheiro. 

"É muito melhor viver numa nação onde todo mundo é cidadão"

A sua empregada viu seu filme? Viu, a Raimunda participou da criação dele. Em julho de 2013, decidi mudar o roteiro. Precisava achar uma solução para a personagem Jéssica. Uma noite veio a ideia de que ela já viria para São Paulo como cidadã, determinada a estudar na USP. Quando tive essa ideia, sabia que tinha encontrado um caminho. No dia seguinte, contei pra Raimunda. Ela se emocionou, ficou com lágrimas nos olhos. Aí falei: “Só que tem uma coisa. Agora quero que você coma na mesa com a gente, eu e os meus filhos. Não dá mais pra comer separado”. Ela disse: “Quando vocês estão comendo, faço isso e aquilo, vai atrasar meu serviço!”. Mas quando estou sozinha, ela come comigo.

Há quanto tempo ela trabalha para vocês? Ela trabalhou por sete anos, depois teve filho e saiu. Ficou dez anos fora e dois anos atrás me ligou e perguntou se eu não queria que ela voltasse. Agora está grávida de novo, então daqui a pouco vai sair de licença-maternidade.

Muita gente repensa a relação com a empregada depois de ver o filme. Tenho uma amiga que falou: “Ai, meu Deus, moro num apartamento enorme e a minha empregada fica naquele quartinho minúsculo! Vou fazer uma reforma!”.

É verdade que o Cauã Reymond resolveu dar um aumento de salário pra empregada depois de assistir ao filme? Ele falou isso no programa da Fátima Bernardes. 

O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, escreveu um artigo falando que Que horas ela volta? retrata um Brasil pré-crise e que talvez o desfecho da personagem Jéssica hoje fosse diferente. Concordo mais com o que o Contardo Calligaris escreveu depois: a questão da Jéssica não é econômica, é de autoestima. Ela tomou consciência de sua cidadania, não vai mais respeitar essas regras arcaicas, seja com crise ou sem crise. 

Como você vê esse momento político do Brasil? É a favor do impeachment da Dilma? Não, acho isso ridículo. Votei na Dilma. O que o PT fez em termos de democratização social foi muito importante, o início de uma mudança de rumo do governo, de olhar para os menos favorecidos. O governo do PT aumentou a autoestima dessa parcela da população. Se hoje tem esse rolo político, isso não tira o mérito do trabalho histórico que fizeram. O momento atual é como a cena em que a personagem Bárbara fica puta porque a Jéssica pulou na piscina. Tem muita gente querendo defender seus privilégios e acha chique ir para a Europa quando a Europa é chique justamente porque tem uma democracia social. É muito melhor viver numa nação onde todo mundo é cidadão.

Como foi sua infância? Você foi criada por uma babá? Meu pai era engenheiro, depois virou jornalista. Trabalhou nas revistas Veja e Visão, abriu uma editora de comunicação e, mais tarde, virou um homem público. Foi presidente da TV Cultura por dez anos. Minha mãe é dona de casa, rata de literatura, passava as tardes lendo. Tenho duas irmãs mais novas. Morávamos numa casa no Alto de Pinheiros. Quando tinha 7 anos, chegou uma babá, a Dagmar, que trabalhou ali por 30 anos. Nunca tive essa ligação que o Fabinho tem com a Val no filme, mas minha irmã menor teve. Tanto é que a Dagmar até hoje faz bico na casa dela, cuida dos filhos dela. Mas, no meu dia a dia, a Dagmar era muito presente, ela fazia o meu café da manhã. A sessão da première eu dediquei a ela.  

Você é casada? Tem filhos? Casei com o André Abujamra faz mais de 20 anos. Tivemos um filho, o José, que nasceu em 95. Depois nos separamos. Aí reencontrei um namorado anterior, ficamos juntos um mês e engravidei. Tive meu segundo filho, Joaquim, como mãe solteira, aos 35 anos.

"Quero parar no primeiro semestre do ano que vem e ficar um bom tempo sem fazer nada"

Está namorando? Há um ano e meio namoro o Luciano Bortoluzzi, ator que conheci numa cerimônia com um pai de santo que veio benzer o Que horas ela volta? às vésperas de começar as gravações. O pai de santo trouxe umas 20 pessoas e a gente acabou fazendo uma rave à beira da piscina. Ele benzeu indivíduo por indivíduo da equipe. E tinha esse homem bonito no tambor. Fiquei fascinada e falei: “Meu Deus, quem é esse homem?”. A gente trocou umas mensagens pelo Facebook e começou a namorar. 

Sempre quis ser cineasta? Quando criança, queria trabalhar com música, só que não tinha talento. Também sempre gostei de escrever e fazer foto. Aos 13 anos, comecei a frequentar o Cine Bijou e ver as obras de grandes diretores, como Amarcord, do Fellini. A partir dali já sabia que queria fazer cinema. Entrei aos 16 anos na ECA, na USP. Mas entrar com 16 e sair com 20 foi péssimo.

Por quê? Porque eu era muito criançona. O cinema é uma área em que é difícil começar. Demorei um tempão pra me inserir no meio. Só comecei a trabalhar com 24 anos. Esses quatro anos, entre os 20 e os 24, foram os piores da minha vida. Não queria abandonar o sonho de ser cineasta, mas era muito difícil de concretizar. 

Seu pai não ajudou? Ele não trabalhava na TV Cultura? Não queria nada do meu pai, ele até chegou a me oferecer ser assistente de produção de um programa de auditório, mas queria fazer cinema. E ninguém me queria nesse lugar. Aí fazia poesia, lancei um livro pela editora Massao Ohno, fiz roteiros de longas que nunca foram filmados, estudava e ia ao cinema. Também fiz críticas de cinema na revista Istoé e no Estadão. Era freelancer. Imagina, eu batia o texto na máquina de escrever, pegava o carro e ia até a Marginal entregar o envelope na redação! Mas nunca achei que fosse longe no caminho da crítica. 

Como foi seu primeiro trabalho na TV? Foi na TV Gazeta. Me falaram que estavam precisando de repórter abelha para o TV Mix. A gente segurava a câmera com a mão direita e o microfone com a esquerda. Era uma coisa mixuruca, mas me dava a oportunidade de fazer câmera, pensar, fazer o texto. Aí fiquei amiga do Serginho Groisman, apresentador do TV Mix. Quando ele foi fazer o Matéria prima, programa voltado pra jovens da TV Cultura, ele me chamou. 

Quando você começou a fazer os programas Mundo da lua e Castelo Ra Tim Bum? Fiquei no Matéria prima por um ano. Um dia me mandaram entrevistar uns roqueiros do Rock in Rio. Isso devia ser em 90. Aí falei: “Isso aqui deu pra mim”. E saí. Na sala ao lado ficava o Mundo da lua, que já tinha episódios filmados, mas seria reformulado. Aí entrei para ser diretora de segunda unidade, para fazer cenas externas. Comecei a ler os roteiros e achei que não fazia sentido. Cheguei pra minha chefa, e falei: “Esses roteiros não estão funcionando porque não têm conflito, não vão a lugar nenhum. Sugiro isso, isso e isso”. Aí a chefa falou: “Opa, gostei”. Em uma semana, virei a chefa de criação. O Mundo da lua foi minha faculdade. O programa deu 14 pontos de audiência, ocupou o segundo lugar do Ibope. Depois que acabou, passei dois meses em casa lendo, fazendo fichamento, entendendo o que é função do mito. Fiquei fanática por estudar estrutura narrativa, psicanálise, semiótica e comecei a ter uns papos com o Cao Hamburguer nos corredores da TV Cultura. Quando rolou o Castelo Ra Tim Bum, ele me chamou para trabalhar com ele. 

Você teve um período em que ficou sem trabalhar e foi morar em Paraty. Como foi? Tenho uma casa num sítio à beira de um rio. Decidi ficar um ano morando lá, só eu e os meus filhos, entre 2003 e 2004. Foi incrível. Não tinha empregada. Meus filhos tinham 3 e 8 anos. Acordavam e arrumavam as caminhas deles. Na hora de cozinhar, um picava a cebola, o outro lavava prato. Todo dia a gente ia de bicicleta até a escola. Fazia exercício, meditação, tomava banho de cachoeira e lia muito. Foi um projeto pensado, não eram férias. Quando voltei, era uma pessoa nova. Tinha energia pra subir o Kilimanjaro.  

Alguém repreendeu você por ficar sem trabalhar? Quando voltei, uma amiga falou: “Achei que você tivesse largado tudo”. Nunca disse que estava largando, só precisava dar uma reciclada. Hoje estou precisando de novo. Porque, nos 11 anos seguintes a esse retiro, trabalhei como uma mula. Fiz toda a estrutura de roteiro da série Filhos de Carnaval, dirigi dois episódios de Preamar, ajudei na reestruturação de Alice, fiz a última versão do roteiro de O ano em que meus pais saíram de férias, trabalhei em Praia do Futuro e mais um monte de coisas.

Quais são seus planos depois do Oscar? Filmei outro longa, Mãe só há uma, em fase de montagem. É baseado numa história real de um adolescente de 16 anos que descobre não ser filho da mãe que o criou, foi roubado da maternidade. A mãe é presa e ele é obrigado a trocar de família. A situação desperta nele uma série de questões, incluindo a transgeneridade. Deve ser lançado ano que vem. Na verdade, tinha certeza de que iria fazer uma pausa no final deste ano, mas com esse lance de Oscar ficou complicado. Mas quero parar no final do primeiro semestre de 2016 e ficar um bom tempo sem fazer nada.

 

matérias relacionadas