Por Camila Alam TPM #141
em 22 de abril de 2014
Em 1969, enquanto o mundo fervilhava com questões sociais e políticas, Yoko Ono deu uma entrevista a uma revista inglesa falando de seu engajamento na causa feminista, misturada a tantas outras naquele fim de década. Na capa da edição, uma de suas declarações virou manchete: “Woman is the nigger of the world”, a mulher é o negro do mundo.
Mas foi só em 1972, quando ela e o marido John Lennon escreveram uma música com título homônimo, que os ânimos se exaltaram. A palavra nigger, ofensiva e pejorativa na língua inglesa, fez com que esse single fosse o maior fracasso de vendas da carreira solo de Lennon, que teve que se explicar: “É uma música sobre a questão feminina. Óbvio que algumas pessoas reagiram mal ao título, mas geralmente elas são homens e brancos”.
Baseado em texto do irlandês James Conolly, em que a citação “a mulher é o escravo dos escravos” aparece no contexto da causa operária, o casal ressaltava a palavra “negro” em referência a qualquer pessoa que se sentisse oprimida. A mulher oprimida, a escrava dos escravos, seria a força maior da luta por uma sociedade igualitária. De lá pra cá, desfizeram-se partidos, queimaram-se mais sutiãs e a frase se tornou símbolo do movimento feminista, mas ainda hoje não é bem assimilada por muita gente. Tpm perguntou a algumas mulheres: afinal, ainda somos “o negro do mundo”? Para Sueli Carneiro, diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, a frase é infeliz, por usar um processo discriminatório para legitimar outro. “Não serve para discutir a questão, não posso concordar com ela. Se a mulher é o negro do mundo, a mulher negra é o quê?”, indaga.
A antropóloga Lilia Schwarcz traz outro ponto: “A questão não é discutir quem é o mais discriminado. Qualquer sociedade produz ‘marcadores sociais da diferença’ – raça, gênero, geração, região, classe social. Esses marcadores ajudam a construir sociedades baseadas em preconceito. A solução é misturá-los para que, diluídos, passem a não fazer mais diferença”.
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