por Mariana Perroni

Se formos seguir a definição da OMS, nenhum de nós tem saúde

 

Hoje vi uma notícia sobre uma cantora que considero brilhante e dona de algumas das letras mais incríveis de todo o mundo da música que me deixou pensativa: Nessa última quinta-feira, uma fã, provavelmente levando em conta a aparência atual dela, gritou para a Fiona Apple: "Volte a ter saúde! Nós ainda queremos que você esteja aqui daqui a dez anos!". Não preciso dizer que a reação dela não foi boa. Com razão.

O que é ter saúde? Quem decide o que é ser saudável?

A definição mais utilizada é a da organização mundial de saúde (OMS), de 1946, que diz que a saúde é "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades".

Fiquemos com isso em mente e exercitemos o pensamento:

Eu tenho saúde? Vejamos: Tenho trinta anos, meus exames de sangue estão todos numericamente excelentes, faço exercício físico 3 a 4 vezes por semana. Meu IMC é de 22 e minha pressão geralmente fica em "onze por sete". Mas tenho prolapso de valva mitral, tomo anticoncepcional oral, trabalho em horários nada fisiológicos e durmo muito menos que o recomendado pela Medicina. Também nunca fiz uma mamografia ou colonoscopia para saber se não há um câncer escondido por aí pois, de acordo com as recomendações, ainda não estou na idade para pesquisar isso. E chego a ficar meses sem ver meus pais.

O meu vizinho tem uns 65 anos, está acima do peso, já teve um infarto, tem hipertensão, diabetes, e colesterol alto (toma regularmente os remédios necessários para controlar as três coisas). Mas faz caminhadas de cerca de meia hora todos os dias, dorme oito horas por noite, não abre mão de bater papo com os amigos no fim da tarde e de ler algum livro que o interesse e de conversar com o "homem lá de cima" toda noite, além de encontrar os filhos todo fim de semana.

Quem tem mais (ou menos) saúde? Eu ou ele? Ou a Fiona Apple que está abaixo do IMC recomendado como saudável mas vive de sua paixão (a música)? Ou a mané que vai a um show e se acha no direito de julgar o funcionamento do organismo um artista baseado em seu peso e aparência?

Se formos seguir a definição da OMS, nenhum de nós. Justamente por isso, acho que é mais que necessário que as definições de saúde e do que é saudável sejam repensadas com uma certa urgência. Em 2013, a saúde não pode continuar a ser vista como uma entidade fixa. Sua definição varia de indivíduo para indivíduo, de acordo com suas necessidades funcionais (aí, inclusive, entra um conceito do qual sou grande defensora no consultório: o de medicina personalizada).

Que me desculpe a OMS, mas "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades" só pode ser atingido nos poucos segundos que dura um orgasmo. E enquanto a saúde for definida assim, seremos todos impotentes.

**Mariana Perroni é médica clínica e intensivista. Atua em consultório e UTIs de São Paulo/SP

Página do blog no Facebook: www.facebook.com/palpitacao
Twitter: @mperroni

matérias relacionadas