por Lygia da Veiga Pereira

A partir do genoma humano, dietas personalizadas baseadas na análise dos seus genes podem ser muito mais eficazes. Começo de uma nova era?

Passei minha adolescência inteira fazendo dieta - quer dizer, dieta voluntária, porque aos oito anos um dia peguei minha mãe colocando adoçante escondido no meu Nescau... Passei alguns anos almoçando omelete de ricota com limonada e jantando sopa verde. Depois veio a dieta de Beverly Hills, que começava com 3 dias só a base de abacaxi – juro! No quarto dia trocava para mamão, e aí eu não aguentei, joguei a toalha. E depois a dieta só de proteínas, e a dieta só de líquidos, e a dieta, e a dieta e a dieta – um inferno, que sempre acabava com um milkshake de ovomaltine do Bob´s, ou uns 10 brigadeiros de festinha infantil. Fora ter que conviver com aquelas amigas que podiam comer de tudo que não engordavam... Saaaacooo!!!!

Enfim, os anos passaram, e essa questão das dietas segue firme e forte. Só que agora com a ajuda do DNA! Sim, já que a única coisa que as células-tronco não vão nos fazer é mais magras, entra em cena o vice-campeão de marqueting científico: o genoma humano! Meu irmão me mandou a brochura de um laboratório de nutri-genômica (ou a genômica da nutrição, ou os genes que fazem você engordar ou emagrecer), que diz desenhar uma dieta personalizada baseada na análise dos seus genes.

A ideia até faz sentido: afinal, da mesma forma com que pequenas variações nos nossos genes nos dão características físicas únicas (altura, cor dos olhos, textura do cabelo, tamanho do nariz, etc), elas também vão ditar como funciona o nosso metabolismo. Provavelmente aquelas amigas que comiam sorvete com calda de chocolate todo dia e não engordavam tinham um metabolismo bem diferente do meu, que se fizesse o mesmo sairia rolando ladeira abaixo.

Bacana: você manda um pouquinho de sangue para lá, eles analisam seus genes e te mandam de volta a dieta perfeita para você. Mais ou menos... Infelizmente ainda não conhecemos suficientemente os genes envolvidos no nosso metabolismo de gorduras, açúcares e proteínas para poder fazer esse tipo de predição. É mais ou menos como se quiséssemos dizer qual é a figura de um quebra-cabeça de mil peças olhando somente 10 delas... Ainda temos muito a aprender antes desses testes de nutrigenômica poderem ter um impacto significativo no desenho da nossa dieta.

Enquanto isso, um grupo em Israel (*) bolou outro jeito de avaliar a melhor dieta individual: eles analisaram nível de açúcar no sangue, atividade física, sono e o coco (sim, o coco, cheio de bactérias fundamentais para a nossa digestão e metabolismo) de 800 pessoas. Colocaram todos esses dados num computador, e voilá: a máquina construiu um modelo que prevê qual vai ser o seu nível de glicose no sangue se você comer uma determinada dieta, baseando-se em suas medidas físicas e nos seus exames de sangue e de bactérias do coco.

Com esse modelo, os cientistas bolaram dietas que conseguiram controlar os níveis de glicose no sangue de outras 26 pessoas, sem olhar gene nenhum, só suas medidas, a glicose no sangue e o coco. Que tal?! 

Bacana, o começo de uma nova era! Mas só uma coisa não muda: se você não seguir a dieta...

(*) Personalized Nutrition by Prediction of Glycemic Responses. Cell 163, pg 1079. 2016.

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