Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Dez anos atrás fiquei muito amigo de uma família de brasileiros aqui em Londres. Era uma dessas famílias de cabeça feita cujas estantes são repletas de bons livros, os pais e os filhos curtem Bob Marley e Manu Chao e se relacionam de igual para igual, sem caretice autoritária. Mais novo que os pais, mais velho que os filhos, me agreguei à família como uma espécie de compadre e tio maluco, fumando baseado com a meninada no quarto e descendo para a cozinha pra comer com os pais um feijãozinho com arroz campeão que rolava sempre.
Apesar de ser 20 anos mais velho do que um dos filhos, ficamos próximos. Ele era um cara lindo. Quando chegava a uma festa, as mulheres se viravam e sorriam. Todas queriam dar pra ele. Mas ele não tinha um pingo de vaidade e era fiel à namorada. Confuso com a vida, como todo adolescente, tinha largado a faculdade e estava trambicando. Ele me apelidou de ?Véio?, eu apelidei ele de ?Franguinha?. Ele tinha um senso de humor fenomenal…
Eu me interrompi porque percebi que, sem querer, estou descrevendo meu amigo no passado, como se ele estivesse morto. Ele não tinha um senso de humor maravilhoso. Ele tem um senso de humor maravilhoso. Usei o passado porque, há uns dias, seu pai me ligou chorando, dizendo que ele está preso. Foi pego em flagrante, assaltando um posto de gasolina com outros dois amigos. A polícia descobriu que a quadrilha é responsável por pelo menos oito assaltos. Comecei a entender por que meu amigo nos últimos tempos andava tão esquisito, me evitando com um silêncio estranho, sem o brilho de sempre nos olhos. Bom, fui visitá-lo na cadeia. Ele me esperava na sala de vi-sitas. Me olhou nos olhos e senti uma estranha vergonha, como se estivesse invadindo um espaço que ele preferiria esconder. Mas o sorriso dele me desarma. Pra Justiça e pro mundo inteiro ele pode ser bandido, mas é meu amigo querido de sempre. Quando nos abraçamos, sinto uma mistura dilacerante de pena e raiva. Quero beijá-lo e dar-lhe chutes ao mesmo tempo.
Amigo bandido
Ele me conta que o plano era descolar uma grana rapidinho e se mandar para o Brasil. Queria comprar uma fazenda de gado em Minas Gerais. Queria virar boiadeiro. Ele fala dos roubos com orgulho, como se fosse mesmo um bandido. Descrevendo um dos assaltos, diz excitado: ?Foi tipo Cidade de Deus?. Parece que ele está gostando dessa nova identidade. O único arrependimento é ter sido pego tão facilmente com a mão na massa.
Ele me conta que o revólver não era de verdade. Só que a Justiça inglesa não tolera armas e não diferencia falsas de verdadeiras. Aqui, até mesmo a polícia não pode portar armas de fogo ? a não ser em casos muito especiais. A pena mínima é de cinco anos. A máxima, de dez. Depois disso, extradição para o Brasil. Nunca mais ele vai poder voltar à Inglaterra. Nem para ver a família.
Apesar de tudo isso, ele está bem, confuso no esplendor ignorante de sua juventude. Não perdeu o senso de humor. Me conta que já ficou em quarto de hotel muito mais fuleiro do que a cela que está dividindo com um mafioso albanês. Diz que vai voltar a estudar e pretende se formar antes de sair de lá. Olho pra ele e me sinto velho de verdade. Fico com vontade de dar uma daquelas liçõezinhas de moral que os adultos me davam quando eu era adolescente. Do tipo: ?A vida está toda errada, os jovens de hoje não têm valores morais?. Pensar nesses termos, ?jovens de hoje?, é um evidente sinal de velhice. Decido calar a boca.
Saio da prisão confuso. O mundo passa a ser um lugar estranho quando uma pessoa íntima revela uma faceta tão inesperada. Não consigo imaginar meu amigo apontando um revólver. Me lembro do repórter de rádio Afanásio Jazadji, cujo programa eu ouvia no carro quando meu pai me levava pra escola em São Paulo. O Afanásio diria que meu amigo vai tomar café de canequi-nha. Café inglês é tão ruim que só isso já seria, em si, uma terrível punição. Ele diria também que meu amigo vai ver o sol nascer quadrado. Mas aqui não tem nem sol.
*Henrique Goldman, 40, é cineasta e ainda não se considera velho o bastante para dar lições de moral. Seu e-mail é: henrigold@yahoo.com
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu