por Ramiro Zwetsch

Trocamos uma ideia com o baiano Letieres Leite, a mente por trás da fusão de ritmos da incrível Orkestra Rumpilezz

A batuta é um agogô e o movimento na cintura é sempre um sinal importante do maestro para os seus músicos. “Eu sempre falo que a dança vem antes da música”, diz Letieres Leite. “Eu não consigo reger nem dar aula sem dançar.” O baiano é o idealizador da Orkestra Rumpilezz, big band formada só por músicos de sopros e percussão que desbrava uma pesquisa baseada na fusão de ritmos do universo musical de Salvador com as dinâmicas do jazz.

Além de ter dois elogiados discos gravados – Orkestra Rumpilezz (de 2009) e A Saga da Travessia (2016) – e arrebatar plateias pelos palcos por onde pisa com o repertório autoral, a banda já acumula alguns projetos especiais em que visita as composições de outros artistas:  Gilberto Gil (2014), Dorival Caymmi (2015), Lenine (2015) e Moacir Santos (2017) são alguns exemplos.

Neste fim de semana, a Rumpilezz se apresenta com dois novos projetos. Sábado 16 e domingo 17, no Teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, a orquestra interpreta o disco Maria Fumaça (Banda Black Rio, 1977) – marco da cena funk brasileira e do movimento Black Rio, que combinava música e orgulho negro. Na sexta 22, ela toca com Caetano Veloso, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Aos 59 anos, Letieres prepara mais novidades para 2019. Lançará o primeiro disco do Letieres Leite Quinteto e entrará em estúdio com a Rumpilezz para gravar o repertório do álbum Coisas (Moacir Santos, 1965). Ambos serão lançados em vinil pelo selo Rocinante.

Antes de formar a orquestra, em 2006, o maestro já tinha uma larga experiência com a música na Bahia. Trabalhou com Ivete Sangalo, tanto na Banda Eva quanto na carreira solo da artista, por 13 anos, até 2011. Antes disso, em 1985, mudou-se para Viena, onde ficou até 1994 e estudou na Franz Schubert Konservatorium. De volta a Salvador, lecionou na Universidade Federal da Bahia e desde então se dedica ao ensino de música a partir da linguagem percussiva baiana. Na orquestra, ele compõe, arranja, rege, toca sax e agogô.

A Trip conversou com o maestro sobre os novos projetos e a importância da dança em seu trabalho.

Trip - Qual é o maior desafio em reinterpretar Maria Fumaça?
Letieres Leite - É sempre um grande desafio visitar autores, como já aconteceu com a obra de Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lenine. Conectar as composições, fazendo a desconstrução rítmica a partir da melodia pra encaixar nas claves do universo percussivo da Bahia. Ainda não tínhamos feito algo na linha da Banda Black Rio, mas eu tinha pesquisas pessoais observando a black music que eu gosto tanto, a música de James Brown, a música negra norte-americana baseada no funk. Já tinha algumas conexões com alguns desenhos rítmicos que eu sabia que encaixariam.

Por que resolveu adicionar guitarra e baixo à formação da Orkestra nesses shows?
Justamente para tentar manter a sonoridade do funk, optei em fazer essa exceção na formação da Rumpilezz. Depois do resultado dos arranjos, eu não queria perder a sonoridade desse gênero que é muito característica com a guitarra e a linha de baixo – tanto que tive que mudar o lugar da tuba (que normalmente faz o baixo) e dar foco pro baixo elétrico. É o único trabalho que a gente fez até o momento utilizando instrumentos que não fossem de sopros e percussão.

Nos anos 70, quando surgiu o movimento Black Rio, parte da crítica via naquela cena um conteúdo superficial, que importava um produto norte-americano. Mais de 40 anos depois, como você vê esse comentário?
Faz sentido, porque sempre existiu esse monopólio das grandes gravadoras colocarem seus produtos no mundo inteiro. Isso não mudou. Esse predomínio norte-americano na indústria de massa sempre foi um fato, que está relacionado aos grandes negócios do entretenimento. Mas existe um fato relacionado à música negra deste período que é a contestação – não só na questão estética, mas muitas vezes também na questão do discurso. O nome “black power” já diz tudo, né? No Brasil, também adquiriu esse caráter de afirmação da cultura e estética negra – visual, comportamental e, principalmente, musical. Eu acredito que os anos 70 foram definitivos pra afirmar a posição da música negra no mundo e sua influência internacional. A gente tem o exemplo africano que é o (nigeriano) Fela Kuti. O afrobeat é consequência desse movimento e é frontalmente uma música de contestação.

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Já ouvi você dizer que “música sem conexão com o corpo não é nada”. Qual é a importância da dança no seu trabalho?
Eu sempre falo que a dança vem antes da música. Quando eu ministro aula, sempre peço aos alunos que aprendam com corpo as informações rítmicas porque é lá que elas ficam gravadas. Eu não consigo achar que essa grande cultura, que a diáspora negra disseminou nas Américas após o grande holocausto da escravidão, não possa ser conectada através do corpo. É assim que acontece nos ambientes da cultura africana. É mais poderoso educar os jovens musicalmente utilizando como ferramenta o corpo e a dança. Eu não consigo reger nem dar aula sem dançar. Toda atividade humana deveria ser precedida de dança. Faz nos conectar conosco e com outras pessoas, celebrando a vida e ao mesmo tempo criando um espaço de liberdade muito grande. A dança tem muito mais importância do que a gente pode imaginar.

Qual é a importância de firmar uma parceria com Caetano Veloso?
O Caetano é um nome que sempre aparecia quando a gente pensava em artistas para conectar com a Rumpilezz. Parece que ele está sempre alguns anos lá na frente pensando música, na forma e na estética. Alguns discos (como Transa, Estrangeiro, Araçá Azul, Cinema Transcendental, Velô) têm uma estética apontando pra frente. Isso interessa muito à Rumpilezz, porque a gente trabalha com esses dois mundos: a manutenção da cultura ancestral e a contemporaneidade que a música negra desenvolveu, principalmente através do jazz.

Recentemente, o Presidente da República fez um comentário nas redes sociais atacando o Caetano e a Daniela Mercury dizendo que “esse tipo de artista não mais locupletará da Lei Rouanet”. O que achou deste episódio?
O comentário do presidente é lamentável porque se percebe que, intencionalmente, tenta desinformar a população. A Lei Rouanet nunca é explicada de maneira ampla. Não se fala de renúncia fiscal, não se fala dos agentes que envolvem essa lei, como se os músicos estivessem tirando do Estado e se locupletando de maneira desonesta. A lei existe pra fomentar a cultura e ela atende também aos interesses da indústria e dos grandes empresários. Da forma como o presidente colocou, ele foi muito mal intencionado. Isso desinforma a população. Além de não ser digno, não é honesto.

Qual é a proposta do Letieres Leite Quinteto?
O disco do quinteto foi gravado há alguns meses em um estúdio em Petrópolis, no Rio de Janeiro. A gente teve acesso a uma mesa analógica incrível e gravamos em uma fita de duas polegadas como eu fazia no início da carreira, nos anos 80. Foi uma possibilidade única que surgiu através da gravadora Rocinante e do Silvio Fraga, coprodutor do trabalho, que nos fez o convite. O disco foi gravado depois de quase dez anos de existência do quinteto. Demoramos porque a gente esperou o formato ideal, que a gente pudesse botar a música da forma que a gente toca e fosse mais fiel à apresentação. A ideia do projeto é praticamente a mesma da Rumpilezz, que é fazer música instrumental baseada no grande universo percussivo de Salvador. Usamos a observação dessa matéria-prima como estímulo pra composição e improvisação, a partir desses princípios rítmicos.

O que é o projeto Rumpilezzinho?
Rumpilezzinho é uma consequência natural do que eu já vinha fazendo, que é educação musical baseada em matrizes africanas. Na Ambah (Academia de Música da Bahia), que era uma escola particular, eu tinha uma demanda de alunos bolsistas tão grande que eu a transformei em um projeto social. Havia muitos alunos talentosos que não podiam arcar com as mensalidades e eu não podia deixá-los. A ideia era justamente trabalhar de forma profunda a música desde os ensinos técnicos até as questões de arranjo, orquestração, composição – mas toda questão dos quesitos rítmicos baseados na estrutura que tem a música popular a partir das matrizes africanas. Nós reconhecemos que a maior parte da música popular brasileira é baseada nesses princípios de organização. Eu falo de bossa nova, de samba, de frevo, de maracatu, de ijexá, de choro. O projeto Rumpilezzinho é pra afirmar essas ideias. No fim do curso, criou-se um coletivo Rumpilezzinho com a última turma do segundo ano que tem se apresentado em festivais importantes, como Percpan (Panorama Percussivo Mundial), e gravou uma faixa do disco da Maria Rita (“Bola Pra Frente”, do disco O Samba em Mim – Ao Vivo na Lapa, de 2016).

Em 2017, a Rumpilezz fez um show com o repertório de “Coisas”, do Moacir Santos. Haverá desdobramentos desse projeto?
“Coisas” é um desejo muito antigo. Pra mim, esse disco representa pra música instrumental brasileira o mesmo que o “Kind of Blue” pro jazz norte-americano. Nós fizemos essa visita à obra dele e a ideia agora é fazer um registro fonográfico. Temos um convite da Rocinante pra gravar o “Coisas” e lançar em vinil, com distribuição em outros países também. É como se a gente convidasse o Moacir pra passear em Salvador pelos terreiros das diversas nações de candomblé.

Por que lançar em vinil?
O primeiro disco do quinteto e o “Coisas” serão lançados em vinil. Não sou técnico o suficiente para comparar as diferenças. Pessoalmente, quando escuto o vinil, eu sinto um outro tipo de resposta das frequências todas. Eu posso estar completamente enganado e estar falando uma besteira incrível, mas é um fato intuitivo. Acho interessante também o objeto físico, ter um disco que permita se fazer uma arte gráfica. Mas a questão fundamental é o som.

Dá o play nessa playlist feita a partir do universo rítmico que atravessa e é atravessado pela obra de Letieres:

 

 

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