Tempo de prestar contas
Colunista vive dia de FHC às avessas e pede: ?Não esqueçam o que eu fiz?
Sei que meu pensar é um pouco demasiado para quem me enxerga como ex-presidiário. Percebo essa dificuldade. Algumas pessoas se espantam e me consideram diferente. Outras sequer acreditam.
Já li comentários acerca de meus textos na revista ou no site da revista duvidando de minha existência e minha história. Pessoas julgando que, porque o texto excedia, aquilo fosse armação do genial publisher da Trip.
De certo modo, essa dúvida incomoda. Mas, até certo ponto, estimula. Não sou um ex-presidiário. Isso rotula e quer diminuir a importância de meus pensamentos, de meu esforço. Não nego meu passado. Quando chegar ao momento da reabilitação social (depois de cinco anos, posso, por força de lei, apagar registros de meu passado), não vou requerer. Apagar os erros do passado é um passo para o esquecimento e, então, estar sujeito a cometê-los novamente.
Quero tudo vivo na minha e na consciência dos outros. Peço, não esqueçam. Mas reconheçam minha luta, meu esforço. Este talvez seja meu único valor. Porque não tem sido nada fácil ultrapassar barreiras. Bati, bato e sei que terei de bater de frente com muito preconceito, desconsideração e desrespeito.
Tenho lutado em todas as frentes de luta que se me apresentam. E não é somente na medida do possível, pois o possível não é luta, é existência apenas. Estou coligado e tentando prestar serviços a OCIPs [N.R.: Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público] e ONGs que trabalham com prisões e na Febem. Tenho um projeto acerca da documentação do homem egresso das prisões, já aprovado pelo secretário dos Assuntos Penitenciários, para execução. Ainda tenho outro projeto relativo a oficinas literárias dentro das penitenciárias, em estudo para aplicação.
Saí das prisões onde estive quase a vida toda e volto a elas, depois de demonstrar que sou confiável, para fazer a minha parte. O conhecimento adquirido em 31 anos de prisão e parte da infância e adolescência toda em instituições para menores de idade infratores tem de servir para alguma coisa positiva. É uma necessidade quase íntima que se impõe para além da vontade, da determinação pessoal.
Sou pessoa. Alguém que errou demasiadamente e pagou preço caro. Há quem considere que nunca é demais. Não vou discutir opiniões pessoais. Mas qual a utilidade de mais sofrimento se o vivido já bastou? Daqui a poucos dias completo dois anos aqui fora sem problemas, sem a mínima vacilada. Claro, continuo errando como todo mundo, mas sem extrapolar. As lições da vida levam, para quem reflete, a pensar sobre os erros antes de cometê-los.
Tenho sim boas notícias a meu respeito a fornecer. Quantas pessoas que não viveram o sufoco que vivi podem dizer isso de si mesmas? Publiquei mais dois livros e vou publicar um novo. Conquistei mais duas colunas on-line; uma no site da Trip e outra no da Geração Editorial. Aos poucos, vou me firmando como escritor na crítica especializada.
Tenho proferido palestras em universidades, escolas, empresas, entidades sociais e prisões. Participei de alguns júris para avaliação de trabalhos literários em escolas, prisões e prefeituras. Em menos de dois anos quase que já reconstruí minha vida. Vivo e sustento minha família com meu trabalho. Claro, acredito em "revolução permanente", como queria Merleau-Ponty, mas interior. Então, como perfeccionista que necessariamente preciso ser, dada a profissão escolhida, procuro que seja permanente a revolução pessoal a que me proponho.
Esses dias publicaram texto meu no jornal da UOL, em que eu contava que fui roubado. Alguns dos comentários diziam: "Lugar de bandido é servindo de adubo, bandido bom é bandido morto". Ou pérolas como estas: "Não tenho inveja de ex-bandido por mais letrado seja! Tenho é nojo deles!"; "Para mim criminoso é caso genético; pode se controlar, mas não tem cura". Outros tão mais ofensivos que não convém dizer.
Opiniões que não me cabe discutir, cada qual faz de sua mente o que deseja. Se alguns a transformam em uma lata de lixo, não tenho culpa. A minha reconstruí a partir do lixo de meus erros e tenho lutado muito para que seja produtiva. Até as pessoas que tentaram me defender (e foram a maioria) levaram chumbo: "Alessandra, antes que me esqueça, vá sifude!!!".
Claro, estou maduro demais para ser atingido por tais opiniões. Entristece-me ver pessoas julgando a partir de seus preconceitos. Não analisam méritos e deméritos do texto. Compreendo. Ser vítima é realmente algo abominável. Agora sei e nisso os críticos acertam. Nada como sentir na pele para entender de fato.
Acho que já dá para perceber que sou eu quem escreve. Mais pessoal que isso, impossível, embora impossível seja apenas conceito a ser superado.
Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há quase dois anos Mendes conquistou sua liberdade.
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