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Seja você também um gênio

Hoje, o narcisismo exige que sejamos vistos. Criar e postar em blogs são formas de dizer: ?Eu?. O problema são os resultados

Seja você também um gênio

em 21 de dezembro de 2006

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por André Caramuru Aubert*

No século passado, as nossas possibilidades de consumir qualquer coisa, inclusive criatividade, explodiram. Se para ouvir Beethoven você antes precisava que uma orquestra estivesse tocando bem ali na sua frente, a evolução tecnológica, com o gramofone, o rádio, o LP, o CD, e a caixa de som no supermercado e no caminhão de gás levaram Beethoven até você, em qualquer lugar, a qualquer hora, mesmo que você não quisesse. Essa foi a grande revolução cultural do século 20. A do século 21 é outra. As ferramentas digitais facilitam muito a criação, e escrever, fotografar, produzir um vídeo, uma música, tudo isso está agora ao alcance de qualquer um. Melhor: com a web e as redes de celular, a distribuição do que você criar também ficou, e está ficando cada vez mais, uma baba. É um Gutemberg atômico. É a reprodutibilidade técnica de Walter Benjamin turbinada. Em cada esquina pode haver um Mozart, um Almodóvar, um James Joyce. As pessoas estão criando como nunca, publicando como nunca, num acelerado frenesi artístico, cujos resultados… Resultados? Que resultados? Aposentadas as máquinas de escrever, alguém vai dizer que os livros melhoraram?

Ler é mais importante que escrever. Essa afirmação, de Jorge Luis Borges, é mais atual do que nunca. Ele, um mestre da concisão, não produziu uma única linha irrelevante. Tente achar algo relevante nos blogs, hoje. Você pode conseguir, mas vai ter que procurar muito. O cineasta Akira Kurosawa era um perfeccionista que mandava refazer, quantas vezes achasse necessário, como no épico Ran, uma cena de batalha com 1.400 figurantes e 200 cavalos, mesmo que isso estourasse prazos e orçamentos. Chegou a tentar o suicídio quando os estúdios lhe fecharam as portas. Orçamento e prazo não parecem ser problema para os cerca de 65.000 vídeos postados no YouTube todos os dias, assistidos por, dizem, 20 milhões de pessoas por mês. Se para Glauber Rocha cinema era “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, agora basta a câmera na mão. E ela pode ser um celular.

Eu, hein?
Algumas gravadoras, como a canadense Nettwerk, estão planejando, como parte do marketing, disponibilizar na web lançamentos de seus artistas, em formato Pro Tools, para que as pessoas possam baixar e editar como quiserem. Ótimo: agora já posso melhorar o Jimi Hendrix. O músico e programador norte-americano David Cope criou um software inteligente que compõe (ou psicografa) novas músicas de velhos compositores. Ele até gravou CDs com “novas obras” de Bach e Vivaldi. Tudo bem, é um trabalho experimental e acadêmico, e pode até ser divertido, mas a pergunta é: Qual a relevância? Estamos mais criativos? Ou será que precisamos desesperadamente dizer que existimos? Em nossos novos tempos, o ego não mais se realiza apenas pelo consumo. O narcisismo contemporâneo exige que sejamos vistos. Criar e postar são formas de dizer: “Eu”. Eu existo, eu sou, eu penso, eu qualquer coisa. E essas são formas melhores de manifestar o “eu”, é verdade, do que entrar numa escola e fuzilar todo mundo ou se explodir dentro de um avião em nome de alguma causa. Só acho melhor não falar dos resultados…

*André Caramuru Aubert, 44, historiador, cria software móvel e acha que se tem de ter cuidado com o uso do termo “Eu”

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