por Pedro Carvalho

A luta de uma experiente equipe de canoa havaiana para continuar sendo a melhor do Brasil; nos barcos rivais, uma garotada quer chegar junto

O sol ainda não tinha se levantado no último sábado, dia 10 de março, e o píer Edgard Perdigão, na entrada do Porto de Santos, já parecia um formigueiro. Em meio ao cheiro que misturava protetor solar e gasolina queimada dos barcos, o pessoal de 33 equipes de canoa havaiana – cada uma com nove atletas mais o time de apoio – se apinhoava antes da largada da 15ª Volta à Ilha de Santo Amaro, uma das maiores e mais tradicionais provas da categoria no país.

No meio da multidão, um grupo atraia certos olhares desafiadores. Eram, como se diz na crônica esportiva, os caras a serem batidos – e eles são isso faz algum tempo. Formada em 2009, a equipe Samu — que tem o apoio da Trip Editora — uniu remadores de São Paulo e do Rio de Janeiro em um esquadrão que se revelaria imbatível. Eles foram os campeões brasileiros nos últimos oito anos. Perderam apenas duas provas desde que passaram a competir – uma delas, com uma canoa emprestada. Chegaram a colocar o país – que não tem tradição na modalidade – em destaque no cenário internacional: a Samu beliscou um vice-campeonato mundial em 2014 (na categoria “velocidade”) e ficou em décimo lugar na principal prova de resistência desse esporte, a travessia Molokai-Oahu (no Havaí), em 2015. “Um time brasileiro no top-10 dessa prova foi uma coisa meio ‘Jamaica abaixo de zero’”, brinca Dave Macknight, atleta da equipe.

A prova do último sábado era ao mesmo tempo um desafio de velocidade e de resistência. O percurso, uma volta na ilha do Guarujá (chamada Ilha de Santo Amaro), tem 78 quilômetros. As equipes largam no Porto de Santos, ganham o mar aberto pelo rumo nordeste, passam em frente a todas as praias do Guarujá, entram no canal que separa a ilha do continente (pela ponta de Bertioga) e atravessam esse canal até voltar ao maior porto do país. Mas, mesmo longa, a maratona é feita de uma série de pequenos sprints. Cada canoa leva sempre seis remadores. Outros três a acompanham em um barco de apoio. A cada dez minutos, aqueles que estão nesse barco mergulham na água e trocam de lugar com três que vinham nos remos. A sincronia é tal que a canoa quase não perde velocidade – com ela em movimento, três atletas saltam e três sobem pelo outro lado. Assim cada um descansa por dez minutos e trabalha – em ritmo de sprint – por outros vinte, depois o ciclo é repetido. O recorde da prova, estabelecido pela Samu no ano passado, era de 5 horas e 51 minutos.

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Até 2015, a Samu basicamente não tinha concorrente no país. “Qualquer forçada na remada a gente ganhava a prova”, conta Dave. De lá para cá, outros times passaram a se destacar. Os principais são a Tribo Q’Pira (que era a melhor antes de a Samu surgir) e a Base Alpha, formada no ano passado por um ex-atleta da Samu, o Paulão. A Base Alpha – e todos nesse meio parecem saber disso – tem treinado pesado, em sua sede de Ilhabela (SP), para desbancar a Samu, o que criou um clima de rivalidade entre os times. “O cara quer bater a gente de qualquer jeito”, afirma Dave. “Na última prova, em Morro de São Paulo, eles deram muito trabalho, a gente só deslanchou no final”, ele diz.

Ter se mantido no auge por tanto tempo criou uma diferença relevante entre a Samu e essas outras equipes: a faixa etária dos remadores. Nos concorrentes, a idade média fica entre 25 e 30 anos. “É tudo molecada, todos ótimos atletas”, afirma Dave. Na Samu, essa média se encontra um tanto acima: Dave tem 42, Sergio Prieto tem 39, Rafael Leão tem 35, Luiz Guida tem 34 e por aí vai. “Sei que não seremos eternos...”, reflete Dave, antes de franzir a testa para concluir: “Mas somos velhinhos bem competitivos”.

Pega no mar aberto

Às 8h em ponto, sob um céu nublado e um tempo quente e abafado, alguém no barco de apoio dá o alerta: vai largar!

A sirene soa na praia e, conforme as equipes disparam para o mar aberto, a canoa verde clara do Samu começa a se destacar na liderança. Atrás dela, vêm os barcos da Base Alpha e da Tribo Q’Pira. Assim que eles contornam a ponta sul da ilha e passam em frente ao Clube de Pesca de Santos, acontece a primeira troca. Tudo certo: a sincronia do time é visível. Dez minutos depois, tão logo cruzam a Ponta Grossa (e ainda com as três equipes bastante próximas), nova troca. Antes de pular na água, Luiz Guida, que tem o apelido de Animal, bate uma mão contra a outra e exclama: “Estou zerado, agora é hora de abrir!”.

A Samu realmente consegue abrir vantagem. As trocas prosseguem até que, por volta das 9h, o mesmo Animal – que descansava novamente no barco – observa: “É impressão minha ou eles colaram um pouco?”. Não era impressão: os rivais tinham tirado parte da diferença. “Não estamos conseguindo despachar”, diz Henrique Vogel, da Samu.

A Samu passa, então, a remar forte para não deixar os concorrentes se animarem – o jogo psicológico parece ter muita importância nas provas de remada. A estratégia funciona e na “reta de Pitangueiras” a equipe favorita volta a ampliar a distância para as outras. Quando passam em frente ao Morro do Maluf, o pega entre a Base Alpha e a Tribo Q’Pira se desenrola uns bons 300 metros atrás, no final da Praia das Astúrias.

A partir daí, a Samu passa a controlar a prova – e, ao que parece, a mente dos adversários. Pouco antes das 11h, perto de terminar o trecho de mar aberto, Sergio dá a tom da segunda metade da prova: “Quando entrarmos no canal [que é cheio de curvas], vamos acelerar para eles não verem mais a gente. Daí os caras não sabem o quanto a gente abriu e se desesperam. Daí os caras desistem”, ele se anima.

No canal, a paisagem da prova se transforma. O mar aberto, com suas ondas eriçadas e seus costões de pedra, dá lugar a águas protegidas e a um cenário típico de mangue. É como se agora eles remassem em um rio. O sol aperta – e o ritmo da canoa acelera.

Após algumas curvas, a profecia de Sergio se cumpre e as duas equipes que vinham atrás não podem mais ser vistas pela Samu. A partir desse momento, o adversário da equipe que lidera a prova passa a ser o relógio. No barco de apoio, começam os cálculos: se eles mantiverem o ritmo, podem bater o recorde que estabeleceram no ano passado.

Por dez minutos

A impressão é que, apesar da idade mais avançada, a Samu tem uma resistência física maior do que a dos adversários. No trecho final da prova, a distância entre eles só faz aumentar. “A gente leva vantagem na experiência, no entrosamento. Nossa equipe é muito unida”, diz Sergio. Ainda assim, a maratona começa a cobrar seu preço na canoa verde clara. Vinicius Sanches acusa cãibras no antebraço. Dave precisa de ajuda para abrir o Gatorade, porque os dedos não obedecem mais. Alan Reynol reclama: “Tem uma hora que não desce mais nada, nem Gatorade, nem água – você começa a enjoar”. Aos gritos, os remadores se incentivam mutuamente para manter o ritmo – que andava na casa dos 13 km/h – e tentar quebrar o recorde.

A parte final da prova tem qualquer coisa de surreal. Na reta que atravessa os nove quilômetros do Porto de Santos, a pequena canoa (de 162 kg) passa a avançar por entre transatlânticos e navios de cruzeiro. E não pense que esses enormes barcos estavam avisados sobre a competição e esperavam parados pelo seu final: ao contrário, era a canoa que precisava ficar atenta aos movimentos dos gigantes que cruzavam os atracadouros. “Vai sair uma balsa, a gente vai passar em frente a ela para fazê-la parar”, grita o pessoal do barco de apoio. “Tem um navio entrando, isso vai segurar a outra balsa”, dizem minutos depois.

Quando a boia amarela que marca a chegada surge no horizonte, o relógio aponta 5h15 de prova. Parecia possível quebrar o recorde, mas seria apertado. A equipe decide não fazer a última troca de remadores, para economizar alguns instantes. Cansados e com os músculos doloridos, os seis integrantes que permanecem na canoa se esforçam para manter o ritmo. Conforme a boia se aproxima, ninguém no barco de apoio tira os olhos do relógio. 5h30, 5h35...

A canoa verde clara, então, contorna a boia e chega à praia. Sergio salta e corre até um pórtico instalado na areia para tocar o sino que faz parar o cronômetro. Logo é abordado pelo locutor da prova, que pede uma entrevista aos vencedores. “Sabíamos que tínhamos de impor respeito desde o começo”, provoca o atleta. Instantes depois, o mesmo locutor interrompe o discurso do remador. “Saiu o tempo da Samu”, ele anuncia. “Cinco horas e quarenta e dois minutos! O recorde foi batido em dez minutos”.

Os atletas se abraçam na areia. A Base Alpha chegaria quinze minutos depois. Mais três minutos se passam e a Tribo Q’Pira termina a prova. O recorde quebrado deixa no ar uma impressão: mesmo após quase uma década de hegemonia, ainda existe apenas uma equipe que consegue bater o tempo da Samu. 

Créditos

Imagem principal: Douglas Moreira/Divulgação

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