por Ricardo Guimarães
Trip #261

A transição épica de que tanto falo aqui está provocando as perturbações típicas dos momentos de mudança: medo, incerteza, depressão, violência

Caro Paulo,

Brasil não, por favor. Pelo menos não nessa hora de Trumps e Brexits, desse nacionalismo fragmentador tacanho.

Ainda estou tentando entender o processo histórico que a humanidade está vivendo. Afinal, a ideia é integrar ou fragmentar?

A natureza é integrada por definição, o sistema financeiro internacional é cada vez mais integrado, as redes sociais são naturalmente integradoras, o comércio entre nações e as logísticas são regidos pelo princípio da integração para viabilizar o fluxo eficiente de riqueza entre as regiões do planeta, isto é, integração é o nome do jogo.

E não é um jogo de entretenimento. É de sobrevivência. Vida ou morte! E, nesse caso, pode ser a morte da humanidade caso não se mostre competente para integrar e gerenciar sistemas complexos, regidos pelo princípio da interdependência.

Talvez "gerenciar" a natureza seja o maior desafio de todos para o modelo mental fragmentador justamente porque ele acredita que tem o poder e o controle para gerenciar – sem aspas – a natureza.

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Se você conhece o Trump, por favor, leve-o para passear pelo Central Park, pare no Museu de História Natural e coloque-o sentado no Space Show para ele entender o tamanho da encrenca em que está metido. Falta um mínimo de ciência para ele ter vergonha de negar o aquecimento global. A gente podia pedir ao cientista italiano Carlo Rovelli para ir lá e explicar ao menino Donald o que está acontecendo: "À medida que nosso conhecimento se expandiu, fomos aprendendo esta noção de sermos parte, e uma pequena parte, do universo... Somos como um filho único que cresce e aprende que o mundo não gira apenas ao seu redor, como ele pensava quando era pequeno. Ao nos espelharmos nos outros e nas outras coisas, aprendemos quem somos."

Estado de guerra

Como diz o Rovelli, é um processo de aprendizado sobre a nossa identidade, do qual a integração faz parte, como aquele jogo de ligar os pontos para descobrir a figura no final.

Não estou defendendo o estado da integração (ou globalização, se quiser...) como ele se apresenta hoje, mas defendo um processo de aperfeiçoamento dessa integração.

Às vezes até penso que essa fragmentação promovida pelo eleitor do Brexit e do Trump – que é uma pessoa branca, de baixa escolaridade, de classes mais baixas, sem emprego e residente no interior – é para corrigir o processo de integração que deixou de fora todo esse povo.

Talvez. E tomara que seja.

O fato é que a transição épica de que tanto falo aqui está provocando as perturbações típicas dos momentos de mudança de padrão de funcionamento da sociedade: medo, incerteza, depressão, violência… principalmente por parte daqueles que se sentem mais seguros em estado de guerra, de fragmentação. É bom a gente se preparar para diminuir o custo dessa transição. Temos que desarmar esses ânimos.

Por isso tenho dificuldade de falar de um lugar chamado Brasil quando minha atenção está dirigida para a época.

Mesmo porque por aqui as coisas não estão tão mal, afinal ganhamos da Argentina de 3X0, e no Mineirão!

Ironias à parte, prometo voltar ao tema Brasil assim que minha cabeça estiver mais verde-amarela e menos cinza-chumbo.

Meu abraço, com apreensão,

Ricardo.

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