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PRETO E BRANCO

O escritor-presidiário mostra a convivência entre raças nas cadeias do país

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Após assistir ao No Limite, em que uma das participantes manifestou seu racismo, lembrei um diá-logo surpreendente que mantive com dois estrangeiros, presos aqui comigo. Ambos são holandeses – um de pele cor negra; outro, branca. Estão presos há cerca de quatro anos por tráfico de drogas, com mandato de extradição decretado para seu país de origem, após o cumprimento de suas penas. Quando por lá aportarem, serão encaminhados à prisão.
Já conversara com outros gringos presos e sabia que sua situação não era muito diferente da tristeza que ocorre no Brasil. Dessa vez, algo chamou-me a atenção. O RACISMO. A divisão entre os presos por questões raciais. Sabia que o racismo na Europa era dominante – para quem tem dúvidas, não foi em outro continente que ocorreu o holocausto judeu. No Brasil também temos discriminação racial, de forma mais velada, não tão evidente como nos EUA, por exemplo. Mas o que esses europeus me narraram me fez pensar.

Cadeia de preconceito
Na Europa, mesmo na prisão, negros e brancos vivem separados, numa espécie de apartheid prisional. Negros nem sequer conversam com brancos. Os morenos ou pardos – árabes, mulatos, hindus – também vivem apartados de outras etnias. Para um negro conversar com um branco, é preciso que o líder dos brancos e o líder dos negros estejam presentes. E essa conversa deve ser da maior importância. Caso ocorra um diálogo inter-racial sem a presença dos líderes, ambos serão assassinados. É a lei – por mais absurda que pareça a nós brasileiros, multirraciais e miscigenados. Se na prisão é assim, ima-gine-se fora.
Um dos holandeses me falou que, ao voltarem ao país de origem, estarão separados pela barreira racial. Aqui, conversam e são amigos. São os únicos a falar a língua holandesa por aqui; suas referências, lembranças e saudades são as mesmas, seus preconceitos foram vencidos pela saudade da pátria e pelo idioma comum, e juntos aprenderam o Português para poder se comunicar e viver em nosso país. Estrangeiros numa terra estranha, apóiam-se mutuamente. Mas, quando voltarem à Holanda, a amizade estará encerrada. Irão para a prisão, e, se apenas conversarem, serão mortos. Por isso, lhes dói saber que terão de se separar. Não parece loucura?

Tolerância aprisionada
Em meus 29 anos cumpridos nas prisões brasileiras, jamais vi qualquer discriminação racial. Convivemos brancos, pretos, mulatos, orientais etc. na mais absoluta harmonia. Nossos assassinatos, guerras e brigas têm seus estúpidos motivos, sem dúvida, mas jamais por questões raciais. Moramos em xadrezes superlotados, dividindo suores e misérias, sem a mínima preocupação com a cor. Iguais pelo sofrimento e unidos pelos inimigos comuns (o choque da PM, por exemplo), vivemos a verdadeira democracia multirracial. Talvez devêssemos ser estudados. Quem sabe entre nós, presos, não se encontraria a resposta para a convivência fraterna entre raças?

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