Êta conversinha desagradável, não é mesmo? Mas necessária. Caso contrário, os avanços e avisos que efetuamos com relação a nossos preconceitos, poderão ser esquecidos. É preciso estar atentos; foram milênios de acumulação. Só agora as pessoas puderam se manifestar. Mostrar que mesmo que for opção pessoal, é preciso respeitar. Aceitamos absurdos, sem questionar, por tempo em demasia. Tal atitude causou muito sofrimento e, desnecessariamente. Porque, senão vejamos: o que temos nós com as opções alheias? Só quando ela meche com nossa coleção de repressões e esqueletos guardadas no armário. Mas que direito isso nos dá de formarmos juízos de valor?
O preconceito das teologias religiosas é mais absurdo ainda. Deus. Quem é? Convido você a pensar comigo. No macrocosmos temos a galáxia em que estamos instalados. A Via Láctea tem centenas de milhares de sistema iguais e diversos ao nosso sistema solar. Próximo, temos outras galáxias e na medida em que o homem avança em seus meios tecnológicos, descobre novas e novas galáxias. Einstein falava em um universo em exxpansão, o infinitamente grande. No microcosmo, mesmo sem ver o átomo, chegamos a rastreá-lo no Tubo de Galvez e o dividimos em elétrons, prótons e nêutrons. Que, por sua vez, também já estão sendo divididos. Nessa análise, descobrimos que existe o infinitamente pequeno. A vida é esse outro mistério que Teilhard de Chardin chamou de infinitamente complexo. Há algum tempo encontraram um mamute milenar preso a um bloco compacto de gelo. Dentro de seu estômago encontraram sementes de trigo. Plantadas, as sementes ali guardadas por milênios, germinaram e deram frutos.
Tendo tais fatos em perspectiva, como pensar um Deus criador disso tudo, assim preocupado com o que fazemos com nossos órgãos genitais ou como obtemos prazer? Acredito que tudo o que temos é coisa nossa; fomos criados com inteligência para aprender e ensinar, isso é cultura.
Claro que é sempre possível pensar que isso tudo é coisa de Deus, como verdade ultima. Criamos preconceitos talvez na tentativa de parar um pouco de aprender ou pensar. Tomamos um fôlego de séculos e agora tudo se atropela no tempo. É preciso atualizar imediatamente, a vida exige e estamos mais que preparados. O principal, que é gostar de gente, já aprendemos. Há pouco tempo nos estraçalhávamos barbaramente. Dai não fica tão difícil gostar de todas as gentes.
Defini meu posicionamento quanto a preconceito sexual ao ler o livro “As Meninas”, escrito por Ligia Fagundes Telles. Ela dizia, em outras palavras, que é tão difícil amar de verdade que quando acontece, não temos o direito determinar em que sexo ou gênero isso acontece. Claro que não gosto de palhaçada, exagero, mas entendo porque: foram tantos anos de repressão…
É incrível pensar que sem o esforço de cada um de nós, a vida na Terra não seria possível nem por um dia. Claro, se eu não fizer nada, o dano nem será percebido porque, afinal de contas, quem sou eu diante da infinitude de tudo? Mas se eu, você, nossos amigos e esse encadeamento que nos torna a todos parentes, pararmos, será o fim.
Carecemos crescer, desenvolver e superar preconceitos. E todo esforço é absolutamente necessário, não posso parar, assim como você e os outros também. Depois, é preciso pensar nos que já deram sua contribuição; não pode ficar apenas nos livros de história. Não temos idéia do quanto pessoas singulares e verdadeiramente grandes, se sacrificaram para que tivéssemos o pouco de satisfação, plenitude e liberdade que hoje desfrutamos.
* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br
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