Por trás das bandeiras
Em um planeta com problemas bem maiores do que ideologias, não dá mais para fugir da vida atrás de passeatas
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São Paulo, maio de 1977. Cheguei em casa com olhos vermelhos, dando a maior bandeira. Mas, daquela vez, não era bandeira de baseado, era bandeira de gás lacrimogêneo. Voltava de uma passeata onde nós, estudantes, protestávamos contra a caretice, arrogância e incompetência dos generais que nos governavam. Como em casa rolava menos sujeira com política do que com drogas, sentei à mesa de jantar e fui logo confessando com uma ponta de orgulho: tinha ido, sim, à passeata. Foi a primeira da minha vida.
Meu pai também não gostava dos milicos, mas se preocupava, pois naqueles tempos ainda prendiam, torturavam e matavam dissidentes.
Ele olhou pra minha cara e disse com sarcasmo: “Admiro muito os teus ideais e a tua determinação em lutar por eles. Já que você quer tanto consertar o mundo, comece então arrumando a bagunça do teu quarto”.
Chamei-o de reacionário-pequeno-burguês e me recolhi, humilhado, à balbúrdia do meu quarto. Passaram-se quase 30 anos e – talvez porque, como meu pai, eu também não passe de um pequeno burguês reacionário – não paro de pensar nas gavetas desarrumadas que se escondem por trás de nobres ideais. Uma causa política justa pode ser também uma excelente maneira de evitar o confronto com os problemas pessoais. E, quanto mais justa a causa, melhor refúgio ela proporciona. Não me atrai minimamente o exercício cínico de desmascarar sonhos, mas gostaria muito de melhor entender motivações e mistérios.
Efeito borboleta
Uma mulher em Guarulhos corneia o marido. Com medo de ser abandonado, ele decide fazer vistas grossas, mas trata mal os motoristas na sua frota de táxi. A web designer belga fez 40 anos, não consegue arrumar marido e vai pra Malawi ajudar os órfãos da Aids, mas não ajuda ninguém – nem a si mesma. O pai em Bagdá sempre deu mais amor a um filho do que ao outro. O filho desamado descobre em Deus um pai ideal e se explode num ônibus lotado. Os mortos no ônibus são vítimas de George W. Bush, presidente eleito pela infelicidade individual de muitos.
As esferas do íntimo e do coletivo são emanações uma da outra. Não é uma relação direta de causa e efeito, não é uma correspondência simétrica ou totalmente lógica. Mas às vezes acordamos no meio da noite e nos vemos muito sós. São os oceanos desolados que gritam dentro de nós. A dor e a desilusão não poderiam ser maiores.
Hoje de manhã, alarmantes previsões na manchete do jornal: se medidas urgentes não forem tomadas, em 2048 90% de toda a vida marinha estará extinta. A África morre malnutrida, e os países ricos jogam fora em média 40% dos alimentos que produzem. Segundo o relatório Stern, encomendado pelo governo Blair, o aquecimento global pode causar um cataclisma ecológico pior do que uma guerra mundial – Hitler e Stalin voltaram! Segundo o cientista James Lovelock, um dos pais do movimento ecológico, nós já pisamos na jaca e não tem mais como voltar atrás. Já deu meia-noite e a festa está acabando.
Teria vontade de ir a passeatas de novo, mas não sei contra quem ou o que protestar. Discordo e concordo de tudo em fragmentos incoerentes. Meu quarto continua bagunçado, mas sinto saudades de quando os inimigos eram apenas torpes generais.
*Henrique Goldman, 44, cineasta e judeu protestante (que protesta, bem entendido). Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
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