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Pequeno catálogo de desconfianças

Duran anda desconfiado até de quem desconfia de tudo

Pequeno catálogo de desconfianças

em 20 de março de 2008

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Duran anda desconfiado da
própria sombra, de mulher que fala
baixinho ou alto demais e até de
quem desconfia de tudo

POR J. R. DURAN*

Meu amigo Valério (o fotógrafo, não o publicitário) me disse em
uma conversa outro dia, em tom de gozação, que “desconfio até de
minha sombra”. Confesso que a frase me pegou um pouco de surpresa,
mas logo em seguida achei que, pensando bem, ele tinha razão.

PULGA ATRÁS DA ORELHA
Aqui está, então, uma pequena lista das coisas de que, além de
minha sombra, o tempo me ensinou a desconfiar, logo de cara, sem
duvidar nem dar uma segunda chance: desconfio de mulher que fala
sempre baixinho, miando; desconfio de gente que não olha nos olhos
dos outros quando responde a perguntas; desconfio de qualquer pessoa
quando diz que a atitude que está tomando “não é nada pessoal”;
desconfio de todo aquele que me propõe um negócio dizendo que
“será muito bom para mim”; desconfio de político que diz apenas o
óbvio e não me conta nada de novo; desconfio de homem que tinge o
cabelo; desconfio de homem de peruca; desconfio de mulher que
tinge os pentelhos; desconfio de pessoas que rezam em público apenas
para serem vistas e ouvidas; desconfio de pregadores religiosos
que pedem dinheiro pela televisão;

desconfio dos livros de auto-ajuda;
desconfio da Wikipedia; desconfio de posto que vende gasolina muito
barato; desconfio de mulher que em uma festa dá risada muito alta e
que quer ser o centro das atenções; desconfio de promessa de bêbado,
mesmo quando sóbrio; desconfio de quem dirige carro de chapéu;
desconfio de quem acende um cigarro na ponta do outro; desconfio da
falsa humildade; desconfio de quem leva a babá dos filhos para
almoçar na churrascaria no fim de semana e não conversa nem com
ela nem com os filhos; desconfio de quem leva o cachorro para
passear e deixa ele cagar na grama do vizinho; desconfio das pessoas
que falam alto no telefone celular; desconfio de quem promete e não
cumpre; desconfio de quem anda com as nádegas apertadas; desconfio
de quem cospe no prato que comeu e desconfio, também, de
quem cospe no prato que nunca comeu; desconfio das mulheres que
falam com voz muito grossa; desconfio de quem diz que não gosta de
ler; desconfio de quem não sabe ouvir; desconfio de quem aponta para
a Lua e olha para o dedo; desconfio de quem não tem senso de
humor;

desconfio de quem enfia o dedo no nariz em público; desconfio
de quem tem opinião para tudo; desconfio de quem nunca põe o dele
na reta; desconfio de quem não é coerente com o que disse, ou fez,
no passado; desconfio de quem conta quanto ganha por mês; desconfio
de quem não sabe andar de bicicleta e desconfio de quem não
sabe nadar (em piscina ou no mar); desconfio de quem marca com
seis meses de antecedência a mesa em um restaurante da moda;
desconfio de quem não gosta de chocolate; desconfio de quem arrota
em público; desconfio de quem não tem culhão (seja homem, seja
mulher, ter culhão é reconhecidamente um estado de espírito);
desconfio de quem vive pedindo favores; desconfio de quem desconfia
de tudo; e por último, assim como o santo, também desconfio quando
a esmola é muito grande.

*J. R. Duran é fotógrafo e escritor, pode confiar

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