Logo Trip

Os meios e os fins

Uma reflexão sobre ética e trabalho

em 1 de julho de 2010

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

 

espm

Carlos Frederico Lucio*

O universo do trabalho apresenta, em meio a tantas e instigantes contradições, um aspecto bastante interessante: a dificuldade da maioria das pessoas em conciliar sua vida profissional com um projeto mais amplo de realização pessoal. De uma maneira geral, é como se vivêssemos dois mundos: o do trabalho e o da nossa “vida”, propriamente dita. A existência das expressões “vida pessoal” e “vida profissional” pode ser, pelo menos no plano simbólico, reveladora de algo importante sobre essa dinâmica.

Minha ideia é apresentar alguns pontos para reflexão sobre uma certa perspectiva da ética do trabalho, visando chamar sua atenção para este que considero um dos principais problemas sobre o comprometimento das pessoas com a atividade que executam e, ao mesmo tempo, construindo uma vida mais feliz e coerente com seus próprios propósitos. Importante esclarecer que, dentro do grande espectro dos significados do conceito de ética, eu a considero aqui como “o conjunto de regras, princípios ou maneiras de pensar que orientam – ou pretendem certa autoridade para orientar – as ações de um grupo particular ou de indivíduos dentro dele”.1

Quanto ao processo de escolha de uma carreira profissional, ao longo de minha experiência docente, vejo, com grande preocupação, um certo esvaziamento da capacidade, demonstrado pela maioria de meus alunos, em assumir um vínculo entre a carreira escolhida e sua própria realização pessoal. Como se houvesse um fosso entre suas vidas e o trabalho que realizam. Ou como se este último fosse algo apartado daquela, que acaba por se transformar em uma realidade árdua e dolorosa a ser assumida como a parcela de sacrifício que se deve fazer para sobreviver.

Resgatar esse vínculo é, a meu ver, fundamental caso haja uma preocupação mínima com algum bem-estar mais consistente na vida dessas pessoas, isso para não falar em realização pessoal e felicidade de uma maneira mais ampla e verdadeira. O resultado frequente desse processo é o mundo do trabalho ser repleto de pessoas que, se não são propriamente infelizes, não se sentem minimamente realizadas em uma parcela crucial e vital para a sua existência. Pessoas ou amargas ou completamente apáticas e indiferentes no seu universo de trabalho.

Para pensarmos de fato em uma ética mais apropriada ao exercício do trabalho das pessoas, proponho duas distinções importantes: a primeira delas é aquela entre fins imediatos e fins últimos nos processos de escolha; a segunda, intimamente vinculada à primeira, entre uma concepção de trabalho e uma outra, a de profissão.

Com respeito à primeira distinção, é fundamental as pessoas se questionarem sobre seus reais desejos e projetos para sua vida como um todo. Isso fatalmente as levaria a estabelecer uma separação do que se quer como perspectiva de vida (fins últimos) e quais são os degraus necessários para se chegar lá (fins imediatos). Na sala de aula, como exemplo, costumo lançar a seguinte questão: “Por que trabalhamos?”, e a resposta incontinente (com suas devidas variações) é: “Para ganharmos dinheiro!”. Ora, isso revela uma total ausência de uma perspectiva mais aprofundada da visão que as pessoas têm do seu próprio trabalho. A preocupação com o bem-estar material, revelada pela ideia de “ganhar dinheiro”, engloba totalmente o que deveria ser a principal preocupação (no sentido de que é a mais densa e está no fundamento da busca pelo dinheiro) que é o bem-estar e a felicidade dessas pessoas. Afinal, para que queremos ganhar dinheiro? Ao invés desta pergunta, quando interpelados sobre esse fato da superficialidade, os alunos praticamente a invertem: “Mas como seremos felizes se não tivermos dinheiro?” Essa lógica rasa, inversa e imediatista impera com uma assombrosa força nos vários ambientes de trabalho nos quais já investiguei e frequentemente é trazida para o universo da sala de aula, muitas vezes sob a forma de angústias, insatisfações e amargura com relação ao ambiente de trabalho.

O segundo aspecto da questão é o que diz respeito à baixa consciência profissional, comum nos vários ambientes de trabalho. Nas minhas enquetes, foram muito poucas as pessoas que se referiram a si próprias como “profissionais”, enquanto a maioria se identificava como “trabalhadoras”. Interessante é que, ao construírem a categoria “profissionais”, as pessoas demonstravam uma maior consciência do vínculo entre o trabalho desenvolvido e a sua própria perspectiva de vida. Isso não ocorria quando as pessoas se identificavam como “trabalhadoras”, implicando em uma visão de que estavam realizando uma tarefa para a qual qualquer pessoa poderia ser designada e, mais, hoje faziam aquilo, mas amanhã poderiam estar fazendo outra coisa qualquer.

A ética, portanto, tomada no sentido considerado no princípio deste ensaio, pode ser um instrumento importantíssimo para se pensar esse tipo de questão, auxiliando as pessoas a agirem de forma mais consciente, proporcionando-lhes um instrumental para escolher uma carreira, escolher e definir um estilo de vida bem condizente com seus desejos mais íntimos.

(*) Carlos Frederico Lucio é doutorando em Ciências Sociais e mestre em Antropologia Social pela Unicamp e bacharel-licenciado em Filosofia pela PUC-MG. Professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). e-mail: fred@espm.br

1 Singer, Peter (ed.). 1994. A Companion to Ethics. Blackwell. Oxford. p.4

 

espm

 

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

LEIA TAMBÉM