por João Wainer

Arte como crime, crime como arte

Alguns dos maiores nomes da arte de rua do mundo chegaram a Paris na semana passada para a exposição “Né Dans La Rue: Graffitti” na Fundação Cartier. É a maior retrospectiva do gênero já feita no mundo. Nunca uma mostra foi tão a fundo na história e no desenvolvimento desse estilo de arte, contando a historia completa, desde o começo, em NY nos anos 70, quando o Wild Style foi criado.

Estão aqui os pioneiros desse movimento, como P.H.A.S.E 2, Part 1 e Seen. Uma enorme tela de Jean Michel Basquiat e duas de Keith Haring estão na parede, enquanto fotos e filmes como Style Wars e Wild Style são exibidos em TVs de plasma em uma das salas. Na outra, de pé direito alto e paredes de vidro, vários artistas preparavam suas obras para abertura, que acontece amanhã no numero 261 do Boulevard Raspail, na região central de Paris. Basco Vazko, do Chile, Barry McGee, Delta e Boris Tellegen, da Holanda Gerard Zlotykamien, de Paris, Nug de Estocolmo e alguns outros pintavam freneticamente suas telas.

Para surpresa de todos, o artista escolhido para pintar a fachada do prédio de vidro da Fundacão Cartier não foi nenhum dos acima citados. Os curadores analisaram os trabalhos e entregaram para o pixador de São Paulo Djan Ivson da Silva, conhecido como Cripta, a tarefa de fazer um enorme pixo na parte mais nobre da exposição, a fachada do prédio envidraçado.
 
Enquanto todos eles usavam spray colorido, Cripta pediu tinta látex e rolo de pintura. Enquanto todos levaram dias para terminar os trabalhos, Cripta levou 15 minutos. E para surpresa de todos, foi ovacionado pelos curadores da mostra. “Era disso que precisávamos, algo novo, selvagem e desconhecido” disse Thomas Delamarre, um dos curadores da mostra.

O domingo foi o grande dia. De manhã chegaram os jornalistas. Djan deu entrevistas para a TV alemã, BBC, Lê Monde, L’Expresso, Art Magazin, para um jornal russo e muitas outras.   Os grafiteiros gringos que até ontem olhavam torto para aquele maloqueiro de bombeta e havaiana vieram pedir autógrafos. Barry McGee disse que a pixação é o novo Wild Style, e que a arte de rua no resto do mundo vai mudar, seguindo os passos da pixação. Os fotógrafos se acotovelaram para clicar o vândalo paulista, que mal podia esconder o sorriso.

Na sala ao lado, o filme PIXO, que dirigi ao lado do Roberto T. Oliveira, passava pela primeira vez. Confesso que não esperava que fosse tão bem recebido. O diretor da Fundação Cartier, um francês marrento que não falava com ninguém chegou com um sorriso de orelha a orelha e disse: “Estou arrepiado. O filme é uma obra-prima. Vou ligar para o David Lynch agora, ele precisa ver isso”. Menos de duas horas depois da estréia começaram a chegar os convites. Veneza, Viena e Amsterdã, só pra começar. Fudeu!

Pixação é um crime, é vandalismo, é errado? Sim. Mas também é uma forma de expressão que nunca foi analisada como deveria pelas autoridades artísticas e policiais no Brasil. Nem com a invasão de grupos de pixadores a três galerias de arte, os críticos e curadores pararam para analisar esse fenômeno gigantesco que está cobrindo de tinta preta a cidade de São Paulo. Para um movimento que tem na essência a busca pelo reconhecimento, essa talvez tenha sido a maior conquista.

Muita gente vai chiar, mas Djan está muito seguro do que está fazendo. Cripta, que ficou conhecido por escalar e pixar os maiores prédios de SP, viu em Paris a chance de escalar algo muito maior que um prédio. Ele aceitou o desafio e escreveu o nome da pixação paulistana na história da arte mundial. O mundo parou pra ver e tentar entender a pixação de São Paulo.
Nao sou critico de arte, curador, policial, juiz ou promotor pra dizer se é arte, crime ou os dois. Não sou eu quem tem que dizer se é ou não é. Só sei que a cidade está coberta de tinta e todos os dias centenas de moleques se arriscam pra pixar qualquer espaço que os faça serem mais notados.
No dia em que os especialista decretarem que a pixação é uma arte, São Paulo automaticamente entrara para o livro dos recordes como a maior galeria a céu aberto do mundo.

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