por Vinícius Lepore

Ocupar o espaço público com novos artistas, fomentar a música alternativa mundo fora e quebrar as regras do mercado são as marcas dos novos selos paulistanos

“Ninguém nunca veio aqui trazer um disco pra gente”. A frase é do baterista Fred Mello de Castro, logo após um show com o Autoramas no dia 31 de março, numa casa no bairro Santa Cecília, em São Paulo. O disco em questão é o novo álbum da banda, O Futuro dos Autoramas, lançado pela Hearts Bleed Blue. Mesmo quando pertencia aos Raimundos, Fred não tinha experimentado a sensação de receber seu disco assim que chegasse da fábrica. “Um negócio tão simples…”, diz Antônio Augusto Carrara Nouh, 31, dono do selo e responsável por levar os discos ao grupo.

A HBB surgiu em 2011 e tem se destacado entre as maiores do mundo no segmento punk / hardcore. No ranking do site de vendas Interpunk, ela está na posição 108, entre os 7500 selos alternativos que mais vendem mundo afora.

Já a Howlin’ Records, criada em 2014,  assume o lado de produtora de shows e distribuidora digital. “A gente ensaiava no Estúdio Subway, em Pinheiros, nessa época em que a turma estava montando o selo”, conta Gabriel Muchon, 30, responsável pelas vozes e guitarras do trio Poltergat. “Veio bem a calhar, porque a gente gostou da proposta e estávamos prontos para gravar”.

A proposta incluía o auxílio de profissionais para gravação, além da participação em festivais, alguns em espaços públicos. “É mais uma cooperativa do que um selo”, explica Bruno Pinho, 33, um dos fundadores. “A gente é um apoio para as bandas fazerem os (seus) projetos.”

Entre a distribuição, divulgação, licenciamento e promoção das obras de seus artistas, a dupla de sócios Rafael Farah e Fernando Dotta, ambos com 29 anos, também ganhou notoriedade pela produção de eventos como o Sacola Alternativa, encontro de pequenas gravadoras de diferentes partes do país. Ambos respondem pela Balaclava Records desde seu surgimento, em 2012. O intercâmbio entre profissionais acontece dentro e fora do Brasil. “Alguns artistas hoje cobram 10 vezes mais do que cobravam quando fizemos um primeiro contato”, explica Farah. Esse tipo de relação a longo prazo contribuiu para a consolidação de duas turnês do músico canadense Mac Demarco no país. Além disso, a Balaclava terá este ano 3 bandas de seu casting no Primavera Sound, na Espanha. O festival terá como headliners nomes Radiohead e LCD Soundsystem.

Quando se trata das relações entre selos e artistas, todos dizem que cada caso é um caso. Entretanto, conversas com marcas sobre parcerias não tem rendido tanto quanto poderiam. “[As marcas] têm essa visão de ‘sexo, drogas e rock n roll’, sabe?”, reclama Antônio, insatisfeito com tanto potencial não aproveitado. “É um processo que vai levar um tempinho pra acontecer. Mas vai.”

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