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Mim gosta ganhar dinheiro

Em uma praia semelhante ao paraíso, o fotógrafo/escritor faz um instantâneo do horizonte curto de gente com saldos largos

Mim gosta ganhar dinheiro

em 23 de maio de 2007

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Eu só queria fazer uma pergunta: rico é burro? Porque, vou te contar, não sei não. Está escrito no dicionário: rico é aquele que possui muitos bens, muito dinheiro e/ou muitas coisas de valor (o dicionário de sinônimos diz que quem é rico é: abastado, abonado, abundante, apatacado, endinheirado, milionário, ourudo e patacudo). Mas, enfim, isso não é importante. O que eu quero dizer é que, apesar de saber que qualquer tipo de generalização é burra (epa, olha eu aí também), começo a achar que toda pessoa que, nos últimos tempos, se encaixa na descrição do Houaiss, e que pode ser detectada dentro da categoria em um piscar de olhos, apresenta um comportamento de tendências quadrúpedes.

Por um lado quase que entendo o fenômeno. O cara vai lá, traba­lha, trabalha, trabalha e um dia acorda e descobre que passou a formar parte desse seleto grupo de pessoas que podem desfrutar da vida e dos pra­zeres que ela proporciona a quem tem crédito infinito em um belo cartão de crédito. Mas, às vezes, é aí que mora o perigo. O cara se esforçou tanto que se esqueceu, no caminho, de que o mundo gira e a Lusitana roda, mas, infelizmente, não em torno dele. E aí o carro blindado, o muro alto e o arame farpado tentam deixar para trás uma realidade que teima em alcançá-lo. E é esse afastamento do mundo real que não o deixa enxergar as coisas boas da vida.

Por exemplo, acabo de voltar de uma sessão de fotos no litoral da Bahia. Um lugar paradisíaco. Sombra agradável de coqueiros e grama fofinha que acaricia os pés de quem anda descalço em direção à praia deserta, que fica a poucos metros do chalé construído em uma suave encosta. Perto do hotel tinha uns terrenos à venda. Para quem quisesse hospedar-se com mais conforto no lugar sem ter de se preocupar se por acaso tinha vaga ou não. Muito bem. Quatro dos terrenos foram comprados por sujeitos (ricos, com certeza) que simplesmente construíram casas que ocupam, praticamente, o terreno inteiro. Foi feito de tal maneira que da janela de uma das casas pode se contemplar o banheiro da casa do outro, da piscina de uma delas a sala de estar da outra. E por aí vai. As casas são imponentes, o acabamento de primeira e os materiais luxuosí­s­simos, mas a visão é desconcertante.

Quilômetros e quilômetros de praia e coqueiros e, de repente, em uma área menor do que um campo de futebol, as casas dos caras se amontoam umas sobre as outras (lá os terrenos também estão em suave decli­ve) como se estivesem em uma favela de luxo. A diferença é que o favelado mora por falta de opção e os caras lá construíram as casas com a ajuda de arquitetos que deveriam ser mandados de volta para a escola de onde vieram. Foi aí, na frente de um absurdo como aquele, que percebi o efeito multiplicador do dinheiro. Para quem sabe viver é libertador, para quem não tem idéia de como a vida se vive é assustador.

À sombra de um dos magníficos coqueiros me veio a lembrança de um dos provérbios que meu avô dizia: “Aunque la mona se vista de seda, mona se queda” (traduzido livremente: ainda que o macaco se vista de se­da, macaco fica). E na minha frente, enquanto o­­­s operários trabalha­vam incansáveis na construção daquele trubufu enorme, tive a prova visual de que o dinheiro não compra o bom gosto. E de que os ricos, quando não são inteligentes, são muito mais burros do que o resto de todos nós.

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